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Digo reflexão querendo dizer talvez possibilidade de reflexão, porque há pessoas para quem tudo é objecto de reflexão, mesmo as coisas mais evidentes e mais simples, e há pessoas incapazes de reflectir mesmo sobre as coisas mais complexas, e pessoas para quem a reflexão não é mais que a reafirmação teimosa das suas opiniões, fundamentadas ou infundamentadas. A primeira destas categorias é a dos sábios, a segunda a dos néscios e a terceira a dos pretensiosos. Esta última é a mais numerosa.
Então a tal reflexão sobre avaliação consiste não nas palavras ditas ou nas opiniões expressas, mas na conjugação de dois dados: as próprias palavras do ministro e a opinião de algumas personalidades ligadas à área da educação. O ministro propõs, em resposta à questão "como é que se auto-avalia?", a seguinte reflexão: "Para dar notas é preciso saber muito, é preciso saber avaliar. Sou muito humilde nesta matéria, a tarefa é absolutamente gigantesca, eu não sou capaz de me auto-avaliar". Há aqui várias questões de princípio: as funções da avaliação, a oportunidade da avaliação, as dificuldades da avaliação, o saber necessário para se realizar uma avaliação, os perigos de uma auto-avaliação (instituída, no entanto, como prática banalizada em certas correntes modernaças de algumas teorias didácticas), a funcionalidade ou o significado de uma auto-avaliação.
Geralmente os menos sábios, justamente porque são menos sábios, sabem avaliar-se de forma mais deficiente: como pode avaliar a sua sabedoria ou a sua acção alguém que não é sábio ou não fez nada? Estamos no domínio do círculo vicioso. Ao rejeitar a sua auto-avaliação, o ministro deu uma lição (por certo não assumida) àqueles que, por falta de substância de acção se refugiam nesse parâmetro para iludirem o vazio.
Os avaliadores do ministro assumiram alegremente a sua função, pensando que a coisa era fácil. O resultado deve ter-lhes caído em cima como um prato de sopa atirado da janela. Em nove opiniões, que se exprimem na escala de 1 a 5 (usada no ensino básico para a avaliação dos alunos), duas atribuem a nota 1, duas a nota 2, um a nota 3, dois a nota 4 e um a nota 5. A que sobeja é presidente da Associação Académica de Coimbra e assumiu a única avaliação que não a desclassifica: "o ministro está em regime de avaliação contínua".
Lido o quadro cómico-trágico que atrás transcrevemos, conclui-se que as pessoas não avaliam o ministro, coisa que é impossível, nem sequer avaliam a sua acção, coisa que seria razoável mas que exige um rigor cuja falta foi lancinante. O que as pessoas, mesmo as tidas por entendidas, avaliam é outra coisa: o relacionamento entre as suas expectativas, as suas convicções, os seus interesses de classe, patronais ou sindicais, e aquilo que o ministro foi fazendo ou dizendo. Não é o ministro que é avaliado: ele é apenas o espelho onde se entrechocam e reflectem as aspirações ou ambições das pessoas a quem se confiou uma avaliação de oportunidade pelo menos discutível. Bem fariam, pois, os participantes e bem faremos todos, se pararmos para pensar: para quê avaliar, com que meios, com que critérios, com que distanciamento, com que rigor? A avaliação é uma tarefa de carácter analógico, de aproximação, que manifesta um universo complexo de relações e de subjectividades, cujo único critério válido é a dinâmica de aproximação ao real. Mas o real é o que vemos com os nossos olhos. Prescindir deles é mergulhar na escuridão. Olhar por eles exige a consciência das nossas limitações.
Ah, e quando avaliamos os outros, mesmo que seja o ministro, estamos sempre a avaliar-nos a nós próprios.
2. Prémios literários: os livros como lugares de encontro. Com a regularidade irregular que caracteriza a nossa vida cultural, lá vão aparecendo, mais divulgados ou menos reconhecidos, os poucos prémios literários que vão vigorando ou vegetando entre nós. Além de poucos, são também pequenos, como a nossa economia e a nossa mentalidade. Geralmente temos dinheiro que sobre para iniciativas balofas, centros comerciais e culturais, gigantescos auditórios e livros inteiros em papel de luxo com os interessantíssimos relatórios dos Canselhos de Administração dos Bancos. Mas para a cultura a pobreza é plena. Que o digam o Camões e o Pessoa. E também o Bocage, o Antero ou o Cesário Verde, a quem um jornal recusou a publicação de "um folhetim de versos", o que o pôs, como espontaneamente confessa, "cruel, frenético, exigente". Tudo tem a sua lógica. A lógica do dinheiro é mais dinheiro e a lógica da cultura, da ciência, do saber e da arte é que só as entendam os que vierem depois de nós. Aliás, como referiu Teolinda Gersão, o escritor não escreve para receber atenção, mas a sua escrita é uma forma de estar atento aos outros.
Vem tudo isto e propósito da atribuição do Grande Prémio da Associação Portuguesa de Escritores a Teolinda Gersão, o qual lhe foi entregue no passado domingo pelo Presidente da República, e do Grande Prémio de Teatro da mesma Associção, entregue
no dia seguinte a Luís Francisco Rebelo. A obra premiada com o Grande Prémio do Romance, o maior e o mais importante existente em Portugal para uma obra individualizada, foi "A Casa da Cabeça de Cavalo", enquanto e Prémio da Teatro foi atribuído à peça "Todo o Amor é Amor de Perdição", baseada no conhecido caso dos amores de Camilo Castelo Branco e de Ana Plácido, que viria a ser sua mulher até ao fim trágico da vida, e concebida pelo autor como dramaturgia televisiva, o que constitui um aspecto inéditode reconhecimento da criação teatral propositadamente orientada para a dramatização em televisão.
Ora aí está um domínio moderno e modernizador do teatro, que sempre deve buscar novos palcos e novas formas expressivas, e que tem sido tão abundantemente e tão brilhantemente trabalhado por exemplo pelas televisões inglesas, pelas americanas, pelas francesas e pelas espanholas, países onde se preza o teatro como forma de expressão e de diálogo (por isso são berço de grandes dramaturgos, como Shakespeare, Racine, Lope de Vega e tantos outros). Entre nós, as televisões votaram o teatro, nos últimos anos, ao ostracismo, como recentemente denunciou, de forma oportuna, uma associação de espectadores de televisão. O que só demonstra a nossa pobreza cultural. O teatro foi transformado em paródias ridículas e ocas, em quadros bacocos de "revista", nos quais as graças (ou desgraças) são sempre as mesmas sobre os mesmos temas: a homosexualiade, os travestis, a piada mais ou menos soez, o trocadilho malicioso, as contradições ocasionais do universo político, e por aí adiante. O mal nem sequer é esse: o Gil Vicente fez o mesmo, mas com menos insistência... O problema é outro: a indefinível questão da qualidade. É que o mestre Gil operou a crítica da sociedade do seu tempo não apenas com a habilidade de comediante, mas com a profundidade de criador: o olhar que lançava sobre os homens era o olhar de crítico e o olhar de criador.
As nossas televisões transformaram a qualidade em habilidade e a criação em destreza. O resultado apenas pode ser passageiro.
Por outro lado, o excesso de cómico satura e destroi a própria comicidade. Por muito que o povo (não é ele que o diz, são os habilidosos das audiências que o dizem por ele) aprecie a distracção e queira esquecer as mágoas, convém não lhe magoar as mentes, porque se podem embotar ou embrutecer. Assim, a veia criadora, que sempre foi apanágio do povo, torna-se na ambição do lucro, que é apanágio das vedetas.
Daqui não se pode esperar mais que a degradação: a do gosto e a das consciências.
| C.F. |
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De 12 a 18 de Julho
Entre 2 e 7 do corrente, em Vila do conde, realizou-se mais uma edição do Festival Internacional de Curtas-Metragens, já no seu quarto ano de vida, espaço único no nosso país para se verem filmes de pequena e média duração (entre os 10/20 segundos e os 50/60 minutos), nacionais e estrangeiros, oportunidade para conhecer obras inéditas de grandes cineastas famosos e de estreantes no género. O certame surge, e bem, na ideia de um grupo de jovens cineclubistas da vila nortenha, todos formando um público sequioso dos curtos exemplares que, no passado recente, antecediam as sessões de cinema comercial, lado a lado com os filmes de animação, e que já naquele tempo revelavam talentos desconhecidos. Dario Oliveira, Rui Maia, Mário Micaelo, José Nuno Rodrigues e Miguel Dias compõem a Comissão Organizadora do festival desde o início, apoiados já por um fabuloso staff que tem tanto de simpatia como notória eficiência. Conheci o festival no seu primeiro ano, quando ainda colaborava no Jornal de Noticias, e achei a ideia óptima, já naquele tempo, com pernas para andar e bons objectivos. Hoje, passados quatro anos, continuo a ter a mesma opinião, mas se alguns dos organizadores evoluiram com o tempo, outros continuam com uma dinâmica meramente amadora. Nota-se pouco profissionalismo no tratamento com a comunicação social, pela maneira como me trataram quando cheguei ao festival, como se fosse uma pessoa estranha ao ambiente, quando afinal todos os elementos da imprensa, mesmo os da capital e dos organismos estatais, me conheciam. Mas, a custo, consegui um passe de livre acesso às sessões, atitude simpática de Severine Beaujard, uma verdadeira promotora de boas-vindas ao festival.
Além do incondicional apoio, desde a primeira hora, da edilidade vilacondense, o certame conta ainda com apoios vindos do Ministério da Cultura, através do IPACA-Instituto Português da Arte Cinematográfica e do Audiovisual, da Comissão Europeia, da Secretaria de Estado da Juventude/Instituto Português da Juventude, e de muitos outros organismos, entre públicos a privados, diversas câmaras municipais do norte, centro e sul do país, e alguns particulares. No ano em que o Cinema Português assinala o seu centenário, a Cinemateca Portuguesa esteve presente possibilitando o visionamento de películas realizadas pelo pioneirismo nacional (entre 1896 e 1918), com destaque para os filmes do portuense Aurélio da Paz dos Reis.
O Festival Internacional de Curtas-Metragens caracteriza-se como um certame de descoberta, onde o público toma contacto com novos cineastas e novas formas de leitura da linguagem cinematográfica, mas também um festival de retrospectiva, por vezes satisfazendo desejos nostálgicos, onde se mostram obras, às vezes inéditas, de realizadores conhecidos do grande público (este ano possibilitaram-nos o visionamento de curtos de Andre de Tooth, John Ford, Sam Peckimpah, Budd Boeticher, Samuel Fuller e Woody Allen). Também a produção nacional tem o seu espaço assegurado na secções competitivas. As obras do britânico Peter Greenaway, do francês Chris Marker, de Serge Bromgerg e de Sharunas e Bartas (membro do júri) foram alvo de importantes retrospectivas.
Ano após ano, o festival alcançou dois objectivos importantes: o reconhecimento internacional, por parte dos produtores e dos profissionais do sector, e o apreço do público e da imprensa creditada.
O Júri deste ano, formado por Fernando Matis Silva (reputado realizador português, durante muitos anos responsável pelo «Cinemagazine» da RTP2), Vasco Câmara (jornalista e crítico de cinema do Público), Markus Schaefer (realizador alemão), Erland Josephson (importante actor do cinema suéco, nascido em Estocolmo, em 1923, que trabalhou com Ingmar Bergman, Dusan Makavejev, Istvan Szabo, Liliana Cavani, Andrei Tarkovsky, e a actriz-realizadora sueca Liv Ullman. Portugal pode vê-lo no seu último filme, «O Olhar de Ulisses», de Theo Angelopoulos, em exibição), Fernando Lara (crítico espanhol e director do Festival de Valladolid), Alain Burosse (realizador e produtor francês), Sharunas Bartas (realizador lituano) e João Lopes (crítico de cinema, jornalista e editor de cultura do Expresso), visionou cerca de 65 filmes em competição, provenientes de vinte e cinco países, incluindo Portugal ( a maior representação: doze películas em América e França, quatro cada; a Polónia trouxe três curtas-metragens, tantas como o Canadá; Alemanha, Austrália, Bélgica, Espanha, Itália e Rússia, duas cada; e com apenas um filme a concurso estavam Noruega, Suécia, Japão, Escócia, Irlanda, China, Kirguistão, Georgia, Perú e o Tchad), e após uma semana de festival apresentou os premiados: «Aulas de Respiração: a Vida e Obra de Mark O'Brien», de Jessica Yu (EUA), conquistou o almejado Grande Prémio: o filme aborda a experiência-terminal do poeta e jornalista Mark O'Brien, que, vítima da poliomielite, viveu quarenta anos numa cápsula metálica, ajudado por respiração artificial. O Português Pedro Sena Nunes, finalista da Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa, viu o seu documentário «Margens» ser escolhido como melhor filme da secção competitiva nacional: um dramático trabalho que revela aspectos da situação de perfeito isolamento em que vive a população na aldeia transmontana de Chelas. Os restantes prémios nas diferentes categorias foram para: Animação - «O Fim do Mundo em Quatro Estações», de Paul Driesen (Canadá); Documentário - «Os Polícias do Metro e o Rei das Toupeiras», de Stuart Clarke (Reino Unido); Ficção - «Trinta e Cinco para Cada Lado», de Damien O'Donnell (Irlanda). O público presente escolheu como seu prémio o hilariante trabalho de animação com plasticina saído dos Estúdios Aardman, de Londres: «A Tosquiadela/A Close Shave», de Nick Park.
Uma vez que estive a semana toda em Vila do Conde, acompanhando a realização do festival, não me é possível abordar os destaques televisivos e cinematográficos da semana.
| Vasco Martins |
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