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Um caso de falta de solidariedade

Está a decorrer, até ao dia 11 de Dezembro, o novo período de legalização de imigrantes. Vários têm sido os problemas enfrentados pelos estrangeiros, no nosso país. As exigências colocadas pelo processo não são fáceis de satisfazer. Talvez que este motivo, aliado à falta de informação, contribua para a pouca afluência que tem vindo a verificar-se nos locais de inscrição. Também se verificaram casos de falta de solidariedade social, como é o caso do cidadão angolano Sebastião Kanganjo.

Nascido, na cidade de Huambo, em 1940, casou em 1975, com Maria Fernanda Ribeiro Kanganjo, cidadã portuguesa, cidadania esta adquirida através do seu avô e que tem vindo a ser negada ao seu marido. As autoridades portuguesas alegam para tal o facto de terem casado apenas dois meses antes da independência de Angola.

Neste momento, Sebastião Kanganjo, reside com a sua mulher e quatro filhos e uma sobrinha, numa barraca na Charneca do Lumiar, em Lisboa, com autorização de residência desde 1995.

Tendo sido professor do ensino primário, exerceu funções durante mais de uma década, como funcionário público português, em Angola. Esteve posteriormente ao serviço da Igreja angolana, como Presidente da Cáritas diocesana do Huambo, tendo sido obrigado a abandonar esta cidade em Março de 1993, quando a UNITA a ocupou, depois de 55 dias debaixo de fogo intenso. No entanto, a fuga não foi bem sucedida, perdendo uma filha durante o caminho, pois a sua mulher estava grávida de fim de tempo, tendo regressado ao Huambo.

Já de volta à cidade, apoiou todos aqueles que precisavam. Contrariando a lei e correndo o risco de ser morto por isso, utilizou um rádio que havia escapado ao controlo das forças da UNITA, de modo a solicitar ajuda para um numeroso grupo de pessoas, entre os quais muitos portugueses, tentando a sua evacuação. Por sorte foi escutado por um jornalista português que solicitou ajuda ao Governo português, providenciando este um avião militar para os ir buscar a S. Tomé, para onde tinham sido levados pela Cruz Vermelha.

Sebastião Kanganjo teve então de se deslocar a Luanda, num avião da UNAVEM II, para prestar assistência ao filho, baleado na região lombar, acompanhando-o, posteriormente a Lisboa, onde foi operado, no Hospital de Santa Maria. Resolveu não voltar para Angola, tendo-se-lhe juntado mais tarde a restante família, com a ajuda de várias organizações humanitárias.

Vivendo em Portugal, não consegue trabalho, nem recebe qualquer pensão da Caixa Nacional de Aposentações, porque não possui a nacionalidade portuguesa. Sua esposa, professora do ensino secundário, executa trabalhos domésticos pontuais. Com apenas 40 mil escudos, provenientes de algumas horas de ajuda num colégio de religiosas, vive a muito custo na barraca cedida por um português que foi morar para os Açores. Como o recenseamento das habitações já havia sido feito pela Câmara Municipal de Lisboa (CML), a polícia camarária mandou-o sair.

Aqui entrou a Obra Católica Portuguesa de Migrações (OCPM), solicitando sucessivamente à vereadora da CML, Sara Amâncio e ao vereador Vasco Franco, do pelouro da habitação, uma solução para o caso. No entanto, a ordem de despejo continuou, sendo prolongada a licença até ao final do ano lectivo, devido à situação dos filhos estudantes.

Para comprovar tudo aquilo que se afirmava em favor deste cidadão angolano, a OCPM providenciou depoimentos do bispo de Benguela, D. Óscar Braga, e de um missionário espiritano, que se encontrava no Huambo nesta ocasião.

Não tendo sido bem sucedidos nos seus intentos, os responsáveis por este organismo católico escreveram ao Ministro da Solidariedade, Ferro Rodrigues, ao comandante António Homem de Gouveia, da CML, e ao Presidente da República, Jorge Sampaio, sem que tenham obtido qualquer resposta. Com o fim do ano lectivo, resta a Sebastião Kaganjo e à sua família dormir na rua, até que possa ser encontrada uma solução.
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Fé e Arte requerem-se mutuamente (I)

Discurso do Papa à Comissão Pontifícia para os Bens Culturais da Igreja

«Ocupai-vos com tudo o que é verdadeiro, nobre, justo, puro, amável, honroso, virtuoso ou que de qualquer modo mereça louvor» - assim começou o discurso do Papa aos membros da Comissão pontifícia para os Bens culturais da Igreja, em 12 de Outubro de 1995, citando a carta de S. Paulo aos Filipenses (Filp. 4, 8).

O necessário diálogo entre a Fé e a Cultura

«Este encontro permite-me a feliz oportunidade de reafirmar a importância dos bens culturais na expressão e inculturação da fé, e no diálogo da Igreja com a humanidade. No meu ministério de bispo de Roma, conservei sempre uma relação aberta e confiante com o mundo da cultura e da arte, procurando encontrá-lo igualmente nas minhas visitas pastorais às Igrejas espalhadas pelo mundo. A cultura e a arte requerem-se e revelam-se reciprocamente. Não há momento histórico rico de cultura que não se expanda em produção artística, como, do mesmo modo, não existe período artisticamente fecundo que não suponha uma riqueza cultural global. Mas igualmente entre a religião e a arte, entre a religião e a cultura, há uma relação muito estreita. São inumeráveis as obras do pensamento e as obras primas da arte que colhem a sua inspiração nos valores religiosos. E todos conhecem o contributo para o sentimento religioso das realizações artísticas e culturais que a fé das gerações cristãs acumulou ao longo dos séculos.

Nesta perspectiva, as palavras da Gaudium et spes que retomei no Motu proprio Inde a Pontificatus Nostri initio, são significativas: «À sua maneira, a literatura e as artes têm uma grande importância para a vida da Igreja É preciso, pois, fazer que os que se aplicam a estas artes se sintam compreendidos pela Igreja no meio próprio das suas actividades e que, gozando de uma liberdade normal, estabeleçam permutas mais fáceis com a comunidade cristã» (n. 62)

Uma nova mentalidade relativa aos bens culturais da Igreja

« Muito depressa, a palavra «conservação», presente na qualificação inicial da vossa Comissão, apareceu claramente inadequada, porque redutora e estática: se se quer inserir os bens culturais no dinamismo da evangelização, não podemos limitar-nos a mantê-los na sua integridade e a protegê-los. É necessário realizar a sua promoção sábia e orgânica para inseri-los nos circuitos vitais da acção cultural e pastoral da Igreja. A denominação actual - «para os Bens culturais da Igreja» - exprime melhor as finalidades do vosso Organismo.

« Neste contexto, quis dar-se um sentido preciso e um conteúdo imediatamente compreensível ao próprio conceito «bem cultural», compreendendo sob este termo, antes de mais, os patrimónios artísticos da pintura, da escultura, da arquitectura, do mosaico e da música, postos ao serviço da missão da Igreja. Importa, depois, acrescentar a tudo isso os bens sob a forma de livros, que se encontram nas bibliotecas eclesiásticas, e os documentos históricos conservados nos arquivos das comunidades eclesiais. Entram, enfim, neste quadro as obras literárias, teatrais, cinematográficas, produzidas pelos meios de comunicação de massa.

«A Comissão pontifícia procurou igualmente inventariar as principais actividades que requerem estes bens: o esforço de os restaurar, de os conservar, de os catalogar, de os defender. Ao mesmo tempo, sublinhou a importância de os valorizar, de modo a favorecer um melhor conhecimento e um uso adequado, quer na catequese, quer na liturgia. Pensou-se, certamente, na promoção de novos bens culturais, oferecendo aos artistas uma inspiração tirada da teologia, da liturgia, da iconografia; motivando-os através de novas e dignas encomendas; aprofundando uma aliança renovada entre os artistas e a Igreja, como já o tinha desejado o Concílio e de que o Papa Paulo VI se fez apóstolo e artífice.»
S.D.L.
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NOTÍCIAS DO MUNDO


Em favor de Moçambique

A «ajuda à Igreja que Sofre» promove desde Julho a Outubro uma campanha destinada a ajudar a Igreja de Maputo, Moçambique, a prosseguir com o seu «Projecto Educativo Superior». Trata-se de um projecto apoiado pelo Cardeal Alexandre dos Santos, Arcebispo de Maputo, que visa a formação de religiosas moçambicanas e de leigos, para darem aulas de Moral no ensino oficial. Para a realização deste projecto são necessárias obras no prédio restituído, bem como a aquisição de material de escritório e de livros para a futura biblioteca.


Eclesiologia e vocações

«A eclesiologia e a vocação» foi o tema do colóquio europeu de responsáveis da pastoral das vocações , que se realizou há pouco em Viena, Áustria, para preparar o Congresso Europeu das Vocações, que terá lugar em Roma, de 5 a 10 de Maio do próximo ano.

O programa incluiu conferências e trabalhos de grupo sobre o tema em análise, momentos de oração e convívio e ainda uma visita ao arcebispo de Viena. Este colóquio, que se realiza todos os anos em diferentes países, constitui um espaço de reflexão e de partilha de experiências por parte dos responsáveis da pastoral das vocações nos diferentes países europeus. Portugal esteve representado pelo padre Jorge Guarda, secretário da Comissão Episcopal do Clero, Seminários e Vocações.


Resignação de Desmond Tutu

Desmond Tutu deixou a presidência da Igreja Anglicana da África do Sul, no dia 23 de Junho numa cerimónia realizada na cidade do Cabo, em que participaram, entre outros, Nelson Mandela, George Carey, arcebispo de Cantuária, e o Presidente de Moçambique, Joaquim Chissano. Depois de uma década à frente dos destinos da Igreja anglicana em que foi acérrimos defensor da liberdade racial, condenando abertamente o regime de apartheid, Tutu, Prémio Nóbel da Paz em 1984, vai agora dirigir os trabalhos da Comissão para a Verdade e Reconciliação, que tem como objectivo apurar os crimes cometidos durante os anos de apartheid. O sucessor de Tutu, Njongonkulu Ndungane, antigo preso político, assumirá as suas funções no mês de Setembro.


Rússia devolvetemplo de Novgorod

As autoridades russas restituíram aos católicos a posse de igreja de S. Pedro e S. Paulo, de Novgorod, que havia sido confiscada pelo regime comunista, segundo revelou Mons. Tadeusz Kondrusiewicz, Administrador Apostólico para os católicos de rito latino, da Rússia europeia.

A comunidade católica de Novgorod é uma das mais antigas da Rússia e conta, actualmente, com cerca de 200 fiéis de origem polaca, bielorrussa e russa. No século XII, a cidade tinha duas igrejas católicas destinadas, sobretudo, aos mercadores holandeses e alemães, de passagem. A igreja de S. Pedro e S. Paulo foi construída em 1893.

Encerrada pelo regime soviético em 1933, esta igreja foi transformada em sala de cinema. Uma pequena parte do edifício tinha sido restituída à Igreja católica, no ano passado.


Casas no Ruanda
construídas pela Igreja

João Paulo II anunciou, há pouco, que o Vaticano vai apoiar a reconstrução de casas na diocese de Byumba, no Ruanda, respondendo assim, com medidas concretas, à reflexão feita recentemente em Istambul e numa mesa redonda promovida pelo Programa da ONU para o Desenvolvimento sobre o tema: «Orientações do País e prioridades de desenvolvimento a médio prazo (1996-1998)».

A delegação da Santa Sé na Conferência Habitat II sublinhara a boa colaboração estabelecida com o Ministério da Saúde do Ruanda para um programa de reabilitação sócio-sanitária, a médio prazo, que prevê a recuperação de estruturas, de recursos humanos e profissionais, bem como o envio de instrumentos e de medicamentos e de um apoio financeiro para pagar os ordenados do pessoal. Estão também a ser apoiadas as obras no sector da saúde dirigidas pela Igreja.

Mons. Bertello, observador permanente junto da ONU acrescentou que «o Conselho Pontifício para a Família tinha escolhido o Ruanda para a criação de um Centro destinado à infância, para celebrar o ano internacional da família». E isto tornar-se-á viável pela vontade do governo em trabalhar pela restauração e consolidação da unidade nacional e pelo respeito dos direitos humanos, base indispensável para a construção de uma nova sociedade.


Museu católico
no Gana, África

Foi inaugurado no Gana, na arquidiocese de Cape Coast, o primeiro museu católico daquele país africano. Entre as peças expostas, figuram cálices, cibórios e outros objectos sagrados, usados pelos missionários e pelo clero local, desde os primeiros anos da evangelização do Gana até aos nossos dias, e diverso material de arquivo.

O arcebispo de Cape Coast salientou na inauguração que este material é uma preciosa fonte de informações sobre a história da Igreja naquele país. O Núncio Apostólico, Mons. André Dupuy, sublinhou, por sua vez, que a iniciativa responde ao desejo expresso várias vezes pelo Santo Padre de que as Igrejas locais, mormente as africanas, saibam conservar o seu próprio património histórico e cultural. E exortou as outras dioceses do país a seguirem esse exemplo.

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