Cuba fica no Oceano Atlântico, a sul do Trópico de Câncer, e faz parte de um arquipélago de quatro mil ilhas. À entrada do Golfo do México, é a maior das ilhas das Antilhas, sendo banhada pelo Mar das Caraíbas. «La Habana», a capital, foi descoberta por Cristóvão Colombo em 1515 e tornou-se, desde logo, porto de escala para as naus idas da Europa. A parte velha da cidade foi considerada pela UNESCO como Património da Humanidade, havendo ainda outras cidades de interesse como Trinidad, Santiago de Cuba e Baracoa.
As águas límpidas e quentes com temperaturas de 26 graus, o clima de 22 a 27 graus e sete mil quilómetros de costa com belas praias criam, durante todo o ano, óptimas condições para se descansar. E a necessidade de «caçar dólares», a moeda dos mercados internacionais, por causa do bloqueio económico dos Estados Unidos, «obrigou» este país a abrir-se ao turismo, fazendo crescer paraísos como Varadero ou Praia Azul, a capital turística e estância de repouso e divertimento de gentes cansadas do bulício.
A população de pouco mais de dez milhões de habitantes fala espanhol e subsiste quase sem dinheiro - mensalidades de 1500$00! - mas acredita no futuro e tem mesmo «ganas de viver». As pessoas beneficiam do «cabaz» de produtos essenciais e perto de um quarto da população estuda, havendo muita gente com cursos superiores. E ainda que com óculos cubanos, sabem o que se passa no mundo e têm opinião sobre a política internacional.
Uma boa taxa de natalidade faz de Cuba uma nação jovem, capaz de explorar bem as riquezas da cana-de-açúcar, do tabaco, citrinos, gado e minério. A principal riqueza ainda é a cana-de-açúcar que Colombo para ali levou das ilhas Canárias e foi, durante séculos, um trabalho para escravos idos de África.
O povo é bom, afável e alegre, sem a agressividade que leituras ideológicas lhe atribuem. Mas tem marcadas as cicatrizes da histórica opressão e de repetidas tentativas de domínio internacional.
As pessoas vivem em casas que há quase meio século não conhecem qualquer reparação. Aproximam-se do turista como se fosse milionário oferecendo os seus préstimos e tentando vender toda a espécie de artesanato, tabaco e rum. Em toda a parte há música latino-americana e os hotéis têm permanentes serviços de animação e até bons concertos de piano ou de outros instrumentos. Nas bancas há vendedeiras com cursos de Economia, nos grupos musicais arquitectos, engenheiros e professores, e as empregadas têm todo o ensino secundário.
A moeda é o peso, mas em todo o lugar «só querem»
dólares. O turismo desenvolveu-se de forma excepcional,
com espectáculos, excursões e lugares de veraneio
que o turista tanto aprecia. Ele poderá andar em carros
de muitas dezenas de anos, em coches que noutros países
já estão em museus, ou aproveitar a generosidade
dos «taxi-bus», motoristas de autocarros que ocupam
as horas de descanso para ganhar mais alguns dólares.
Revolução
Cuba, «a pérola das Antilhas», foi colónia espanhola e bem cedo conheceu os ataques de corsários franceses e ingleses. O desejo de tornar-se independente, o que conseguiu em 1898, fê-la aproximar-se dos Estados Unidos, mas esse passo significou o início de outras formas de domínio e o aparecimento de ditaduras militares. Uma revolução derruba Machado, em 1933, e entrega o poder até 1959 a Fulgêncio Batista.
É então que um grupo de estudantes, a que pertencia Fidel Castro e Che Guevara, consegue galvanizar o povo e toma o poder revolucionário. Algumas medidas anti-americanas levam os Estados Unidos a cortar as relações com Cuba, que logo encontra «toda a protecção» na União Soviética e um novo entusiasmo. O desastre da baía dos Porcos, em 1961, quando os exilados cubanos nos EUA tentaram derrubar o regime mas foram totalmente liquidados, alimentou sonhos de expansão a outros países da América Central, África e mesmo Ásia que morreram com o colapso da URSS. Dessa ocasião terá sido a tentativa de assassinar Fidel, um trabalho encomendado pela CIA à Mafia.
Depois disso, a falta de apoio económico e militar foi
cavando a sepultura de um regime que, apesar de tudo, não
morreu ainda. Aguenta-o a capacidade de sofrimento dos cubanos
e o medo das investidas de tantos que vão esfregando as
mãos à espera da hora do assalto sobre a
vítima. E uma inteligência prática que os
leva a criar condições para viver à custa
dos ricos que ali vão nas horas de desmobilização
das férias. Da revolução das armas, nasceu
a revolução do turismo.
Católicos
A religião da maioria é o catolicismo que aqui chegou através de religiosos e religiosas estrangeiros, desde os Dominicanos, aos Franciscanos (Bartolomeu de las Casas), Jesuítas e Oratorianos. No entanto, no século XVII, a maioria do clero era já da Ilha e havia mesmo negros nas universidades. No século XVIII criou-se a diocese de Santiago de Cuba e alguns anos depois a de Havana.
A influência maçónica e liberal americana, apoiada pelos mais ricos, cataloga a Igreja de espanhola e retrógrada, apesar da sua doutrina social ter criado dificuldades à exploração pela defesa dos direitos do trabalhador. Em 1922, aparece o Código do Trabalho e, em 1933, o que haveria de ser cardeal Artega levou ao Presidente as encíclicas sociais da Igreja para que as fizesse passar para a política. E foram muitos dos militantes católicos que, em 1959, levaram Fidel ao poder, mas, um ano depois da Revolução, ele declarou-se marxista-leninista. Seguiu-se uma forte perseguição à Igreja, a confiscação dos bens e, em 1961, a expulsão dos religiosos e ferozes limites à liberdade de culto, particularmente para jovens e pessoas ligadas ao Estado.
A história de Cuba tem pensadores de relevo, desde Bartolomeu de las Casas, Silvestre Balboa, Félix Varela e José Saco, a Carlos Céspedes, José Marti, o apóstolo da independência, e Che Guevara.
Que futuro?
Ao longo dos tempos tem havido avanços e recuos na rigidez do regime cubano. A crise agrícola de 1979 e o apelo de Carter em favor da liberdade, fez com que Fidel deixasse partir quem quis - dizem que eram cerca de 800 mil - mas só 125 mil conseguiram permissão dos países de acolhimento.
Na década de 80 começou a haver alguma indústria privada ao lado de grandes sacrifícios para exportar o máximo. Em regiões como Pinar del Rio, uma grande parte das terras pertencem às pessoas, mas noutras tudo é do Estado. As estradas são poucas e fracas, mas é gratuito o transporte dos trabalhadores. O principal meio de locomoção é a bicicleta, a que Cadenas dedicou um monumento.
Desde 1982 que os cubanos podem construir a sua casa, mas têm de comprar todos os materiais ao Estado. Os outros pagam dez por cento do ordenado para terem casa.
A Educação e a Saúde levam cerca de um quarto do Orçamento do Estado. Um quarto de população estuda, mas nas ocasiões de muito trabalho agrícola todos, mesmo as crianças, têm de trabalhar como «voluntários», recebendo em troca um relógio, uma motocicleta ou até uma viagem.
Do ponto de vista religioso, desde 1984 que tem havido algum diálogo
entre Fidel e a Igreja, estando mesmo marcada para Janeiro
a visita do Papa João Paulo II. O regime descobriu
que, de facto, os católicos não são necessariamente
contra-revolucionários e até demonstram maior generosidade
e dedicação ao bem comum. Há 250 padres,
oito bispos, um cardeal e 400 religiosas. A diocese de Matanzas
tem apenas 12 padres, mas o culto é feito com grande dignidade,
apesar do mau estado das igrejas e capelas, como acontece com
a de Nossa Senhora de Fátima, da paróquia de Santa
Elvira.
Esperança
Cuba foi sempre um povo dominado que não teve verdadeiras experiências democráticas, o que faz levantar pertinentes questões à sua independência no futuro. A situação de agora não dá os bens que a sociedade de consumo proporciona, mas também é certo que ali se vive numa certa tranquilidade, pois as necessidades primárias estão garantidas e não falta leite às crianças nem médico aos doentes.
Há um certo medo da invasão capitalista que irá aproveitar-se destas maravilhosas condições naturais, prometer mundos e fundos, mas apresentará depois a factura. O regime de Fidel continua a defender-se: responde à corrupção de alguns dos funcionários com maior rigor, responsabiliza as assembleias locais, promove o racionamento dos bens e faz centenas de prisões.
A Economia vai-se equilibrando com as receitas do turismo: um milhão e cem mil turistas no ano passado, sendo dos destinos mais procurados em Espanha, Alemanha e noutros países. Multiplicam-se os lugares de venda de artesanato, hotéis e outros lugares de promoção turística, desde os espectáculos da Tropicana ao paraíso de Guama. Mas também os slogans revolucionários - Pátria ou morte - cheios de patriotismo, de apelo ao socialismo - Temos e teremos socialismo - ou mesmo frases como «só o amor constrói».
Também Cuba merece o respeito da comunidade internacional para que não lhe aconteça como à VIASA que nos obrigou a um retiro de uma semana em Caracas, bem revelador da pobreza da nossa diplomacia e dos riscos da internacionalização da economia: os direitos das pessoas são esquecidos pelos interesses de conquista de poder.
| F. M. |
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