A mesa-redonda que teve lugar na noite de 6ª-feira, na Casa Diocesana de Vilar, Porto, foi, para quantos nela puderam participar, um momento alto da Semana a que a presença de D. António Monteiro, bispo de Viseu e presidente da Comissão Episcopal da Família, do P. Lobato, secretário, do casal Teresa e Pedro Val Teixeira e dos drs. Hugo Meireles, psiquiatra, e Filipe de Almeida, pediatra, deram reconhecida qualidade.
Valeu bem a pena sair de casa naquela noite e pena foi que muitos mais não tivessem seguido o exemplo das perto de duas centenas de pessoas que ali acorreram. A reflexão andou longe da abstracta teorização ou do debitar de deveres para as famílias e de impropérios contra uma sociedade que se mostra contra a vida e desinteressada de dar a devida atenção à família, o mais importante grupo social.
Nas diversas intervenções,
houve momentos de grande qualidade que bem mereceriam ser
lançados para todos os quadrantes, pela rádio ou
pela televisão, ou dando outro tom, bem mais feliz, a usuais
sondagens, opiniões e depoimentos sobre a família,
os filhos e os deficientes. Mas os meios de comunicação,
que são reflexo da sociedade que temos e tão bem
sabem explorar a comum avidez de escândalos e perversidades,
faltaram ao encontro.
Pontos altos
Um casal de seis filhos, vindo já de famílias numerosas, exprimiu bem que «os filhos são o sal da vida» e que eles ajudam os pais a viver melhor, tornam-nos «mais novos» e abrem-nos a uma sociedade mais diversificada, metendo-lhes em casa colegas, amigos e tantas conversas, sentimentos e sonhos que reclamam uma permanente adaptação. Pelos filhos «passa a vida e a história dos pais» e floresce de uma forma que sempre surpreende e encanta.
Ao psiquiatra, pai de quatro filhos já adultos, coube falar do dom dos filhos e da qualidade de vida a que eles têm direito. Lembrou bem que não se trata de «imprimir nos filhos o que os pais pensam e querem, como se os filhos fossem para nós», mas de ajudá-los a construirem a sua vida, dando «mais atenção ao ser do que ao ter» e vivendo com eles «um projecto feliz. A alegria de dar, de partilhar certezas e dúvidas, e de «arrancar» da Fé «luz para os passos de cada dia», tantas vezes, pedindo a Deus, na oração, alento para etapas mais exigentes, enche algum do tempo e exige que «o melhor», seja vivido em família. Largo é o caminho, pois «os filhos têm o direito de encontrar nos pais um modelo de vida».
A um médico, pai de três filhas «felizes», coube falar do lugar do deficiente na família e na sociedade. Ao apontar que «de Deus vem a corrente da vida» e que «nós somos d'Ele uma centelha, um ponto de luz», explicou que «não há homens maiores e menores» e que também o deficiente «é a vida toda, com que não se pode brincar» mas a quem deve «dar-se o máximo». Salientando que, em todo o humano, há alguma «deficiência», alertou para modernas técnicas que «fazem deficientes, obrigando a nascer e a viver quem naturalmente teria morrido».
Também o tempo de debate foi marcante dizendo que se tolera pouco a deficiência física e «admite-se» tantas deficiências comportamentais que semeiam a desgraça pela droga, violência, vício, etc. E pelos cortantes testemunhos, como o de uma mãe de um deficiente dizendo que o ama muito e que ele, como ninguém, uniu a família: «No princípio foi um horror mas agora sinto que é muito bom». Ou o de outra mãe de seis filhos saudáveis que desde há 12 anos se dedica aos deficientes no movimento «Fé e Luz».
Foram apontadas, também, algumas formas de integrar os deficientes na sociedade, pelo trabalho e no convívio social, ajudando os seus pais a sentirem-se acolhidos e amados, até porque, «numa medida de qualidade, o deficiente pode ser muito melhor do que qualquer das outras pessoas». Em realce ficou que, «se todos devem acolher o deficiente, a sociedade deve lutar contra a deficiência» e que «há famílias marcadas pelo sofrimento da deficiência de um filho e que precisam da atenção das outras para se sentirem compreendidas e integradas».
Os trabalhos encerraram com «o aplauso» de D. António a todos os casais que abraçam a vida com entusiasmo e alegria, percebendo que «é o amor que dá qualidade à vida» e que «em cada filho vive a vida e a glória de Deus». Ele lembrou o exemplo de S. Francisco «que se converteu ao ajoelhar aos pés de um leproso» e recomendou que «todos precisamos de andar mais junto dos que precisam de nós», pois são esses «que nos trazem a salvação, pois seremos salvos por eles!».
No ar ficou o apelo a «ir mais longe» semeando o Evangelho da vida. E a pergunta: Que será preciso para que «também as boas notícias» da gente feliz por ir acolhendo «os dons de Deus, na vida e na família», cheguem aos meios de Comunicação? A exigência de eficácia, que é o modo adulto de estar na vida, reclama uma resposta pessoal e comunitária. E surgirá uma outra corrente, de águas mais límpidas, que muitos buscam, tantas vezes, sem sucesso.
| F. L. |
| Primeira Página | Página Seguinte |