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PRAÇA DE S. PEDRO

Wroclaw ou Breslau?

Como é que se chama a cidade onde está a decorrer o Congresso Eucarístico Internacinal a cujo encerramento o Papa preside neste fim de semana? Wroclaw (à polaca) ou Breslau/Breslavia (à alemã)? A questão não é académica: em jogo um dado de fundo que abre toda a sua dimensão a escolha de centrar na capital da Baixa-Silésia a atenção do mundo (pelo menos do mundo cristão-católico), nestes dias.

Sem a queda do muro de Berlim, dificilmente João Paulo II teria podido escolher para a realização desta iniciativa eclesial de grande projecção uma cidade polaca que até 1945 era alemã. Muito simplesmente porque isso teria então levado a pôr o dedo numa ferida ainda insuportável e hoje porventura (queira Deus!) a caminho de uma lenta e difícil cicatrização.

É sabido como a Igreja Católica e o Papa Wojtyla em pessoa se prodigalizaram sem tardar, logo após a reunificação alemã, a favor de um acordo polaco-alemão que tentasse pôr ponto final à espinhosa questão das fronteiras, reconhecendo o status quo criado após a II Grande Guerra, em nome do bem superior da paz europeia e mundial. Para além dasua nunca desmentida aposta numa Europa em-crescente-processo-de-unificação assenta nas suas raízes cristãs e na partilha dasua diversidade cultural, o Papa polaco encontrava-se (e encontra-se) bem colocado para defeder os direitos históricos da sua nação de origem, tantas vezes ocupada e anexada ao longo dos séculos, vítima das ambições dos impérios ocidentais ou orientais.

Uma acção pastoral-diplomática (alguns diriam estratégica) que deu resultados positivos, ajudando a colocar a Polónia no seu lugar europeu de parceiro pacífico tanto da Alemanha como da Rússia, antigos (e ainda bem recentes) usurpadores e inimigos. Tocamos aqui uma vez mais um aspecto tão singular deste pontificado: uma profunda e quase inseparável interligação entre o espiritual, o pastoral e o político, na linha da melhor tradição dos grandes Papas do passado. Uma proeza especialmente ousada e inesperada em tempos de secularização e de pós-cristandade.

Aliás, no que diz respeito à Alemanha, o então ainda não Cardeal Wojtyla, arcebispo de Cracóvia, distinguira-se no final do Concílio Vaticano Ii pelo impulso dado à iniciativa do episcopado polaco de propor aos Bispos alemães um abraço oficial de reconciliação entre as duas Igrejas, superando as feridas deixadas por uma guerra atroz em que a maioria dos fiés e dos pastores se tinham contraposto, de u lado e do outro das fronteiras, solidários com os respectivos concidadãos, numa contraposição porventura justificada (sobretudo da parte polaca, vítima da ocupação nazi).


Centro equidistante

Está ainda na memória de muitos, sobretudo na Alemanha, o êxodo de milhões de alemães constrangidos em 1945 a abandonar a Silésia doravante considerada território polaco (de certo modo em compensação pela larga faixa oriental passada à URSS e agora parte da Blelorrússia e da Ucrânia).

Na sequência de outras recentes viagens à Europa Central (Berlim, Bratislava, Praga) em que o Papa recordou a necessidade de reconstruir com um novo impulso a Europa do após-guerra fria, também desta vez - com toda a força e expressividade do sinal e darealidade sacramental da Eucaristia - João Paulo II convida os europeus à verdadeira unidade da reconciliação e da comunhão em Jesus Cristo, centro e fim da história humana, fermento congregador de uma unidade planetária que integre - sem dissolvências nem anexações - todas as línguas e povos, tradições e culturas.

Traçando no mapa da Europa uma circunferência tendo como centro a sede deste Congresso Eucarístico Internacional, verifica-se com surpresa que Wroclaw/Bratislau aparece geograficamente equidistante das diversas capitais centro-europeias do ano 2000: Berlim e Varsóvia, Viena e Budapeste, Praga e Bratislava... Uma coincidência que fala por si, e que ficará ainda mais reforçada quando na próxima terça-feira João Paulo Ii reunir à sua volta, em Gniezno, os chefes de Estado ou de Governo destes países e de mais alguns.Uma parábola para o novo Milénio, à busca de um futuro europeu mais solidário e consolidado.
Pacheco Gonçalves
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