Procissão do Corpo de Deus
marcou a cidade do Porto

Desde a igreja da Trindade até ao Terreiro da Sé, a cidade do Porto, a meio da tarde de quinta-feira, dia do Corpo de Deus, transformou-se numa verdadeira «igreja a céu aberto». Os cânticos, comentários e sobretudo o desfile de quadros bíblicos, de membros das associações, irmandades, ordens terceiras, seminaristas e padres, bem como as autoridades e muito povo a cantar deram um tom verdadeiramente religioso às ruas da baixa da Cidade, noutras ocasiões cheias de movimento e de barulho.

Ao meio dia, houve Eucaristia na igreja Trindade, presidida por D. Júlio Rebimbas, arcebispo-bispo do Porto. Na homilia, D. Júlio lembrou o significado do Corpo de Deus, acentuando que, além de Eucaristia, deve significar também «Igreja» ou congregação de fiéis que crê em Cristo, vive em «nova aliança» e é capaz de testemunhar publicamente a sua Fé. Jesus, ao instituir a Eucaristia, dissera que quem comesse desse pão viveria «para sempre» e ressuscitaria «no último dia». A Nova Aliança que veio fazer «cria um novo culto, uma nova religião, uma nova relação... do homem com Deus» e, assim, na Eucaristia se encontra «o maior ponto de referência comunitária».

Nessa linha, D. Júlio advertiu que são muitas as celebrações e numerosa a participação das pessoas, mas que «nas cidades, o grupo de fiéis conhece-se pouco ou nada», a assembleia guarda silêncio durante o culto, as pessoas estão dispersas e, ao acabar a celebração, a assembleia dissolve-se e «cada um volta para o seu ambiente, para a sua casa ou trabalho, sem outros contactos, nem falar uns com os outros, sem conhecer nada da sua vida e problemas». E acrescentou: «Podemos considerar suficiente este espírito e estilo de comunidade eucarística? Será visível que formamos um só corpo e que a comunidade dos crentes temos um só coração e uma só alma?».

D. Júlio disse depois que, por vezes, os cristãos dão a impressão de estar «a cumprir uma obrigação» em vez de manifestarem a sua Fé dando graças graças a Deus e vivendo o amor fraternal que os une. Apelou à necessidade de «recuperar a comunidade eucarística» e de as pessoas se converterem «à amizade e à fraternidade, ao sorriso e ao acolhimento» e «à imaginação criadora» de transformar as assembleias litúrgicas em «reunião familiar», ensaiando caminhos, pois «querer chegar até Deus sem passar pelos irmãos, nem é natural nem sobrenatural». E concluiu: «A Eucaristia é impossível sem comunidade de amor.(...) Façamos, como necessidade de evangelização, que os nossos grupos, comunidades e paróquias, abertas à comunhão eclesial, estejam abertas ao amor e à fraternidade entre os homens que são todos irmãos. Esta é a grande referência da Festa do Corpo de Deus».


Um gesto

Na igreja da Trindade houve três momentos de oração presididos pelos cónegos Marcelino, Ângelo e Rui Osório. A oração de Vésperas e a Procissão foram presididas por D. José Augusto, bispo auxiliar, tendo D. Júlio esperado a procissão no Terreiro da Sé, donde foi dada a Bênção ao povo com suas autoridades civis, judiciais, académicas, militares e religiosas.

Em breve alocução, D. Júlio lembrou o Deus incarnado, a Sua presença «amorosa e operante» no meio dos homens, a Eucaristia como «ponto alto» dessa presença e o dinamismo da vida cristã como forma «de incarnar de determinada maneira a figura de Jesus». E acrescentou que, se noutro tempo vigoraram formas intimistas, agora é a ocasião de mostrar Jesus como Filho de Deus «mais segundo formas seculares..., espalhando a amizade, o sorriso, a fraternidade». Como no princípio, para «passar do Jesus da História ao Cristo da Fé», será preciso que os homens e mulheres possam encontrar, «vivo na Igreja», «o rosto autêntico de Deus».

Explicou depois como a Procissão, «na crise generalizada de identidade do nosso tempo», é um gesto significativo a acrescentar a tantas outras formas de presença de Jesus. Em tempos de confusões, vaidades, violências e opressões, a presença de Jesus aparece na humildade das espécias sacramentais, como «o grande argumento do mistério da pobreza».


Primeira Página Página Seguinte