Com a profunda alegria de quem vive um grande dia na sua vida, D. Basílio aceita de bom grado falar aos jornalistas que o aguardam à saída da Basílica. Afirma-se consciente de que foi o Senhor que lhe foi guiando os passos até este ministério de bispo.
"Não ignoro as dificuldades que, de certeza, vou ter pela frente", afirma o primeiro bispo de Baucau. - Que dificuldades? A primeira (observa) é começar uma diocese a partir de zero, sem nada, sem estrutura nenhuma, com apenas nove padres diocesanos e 14 religiosos para uma diocese com 6.800 quilómetros quadrados. Mas até esta dificuldade de base pode ser encarada positivamente, com optimismo: "Como não há nada, pode-se começar com muita coisa".
- Será possível um diálogo, uma reconciliação, em Timor? - perguntamos. A resposta, positiva, surge sem qualquer hesitação, como quem vê claramente que não há outro caminho. Afirma, peremptório: "É possível fazer-se diálogo, é possível fazer-se uma reconciliação, para que as pessoas se entendam". Mas logo adverte que é preciso, antes de mais, conseguir "conquistar" as pessoas, e para isso "é necessário ouvir-se primeiro". Um trabalho que considera prioritário é, portanto, o do acolhimento mútuo. Só depois pode haver diálogo. De qualquer modo, conclui, "não há outro caminho senão estar com o coração completamente aberto às situações que aparecem".
- E com D. Ximenes Belo: vai colaborar? D. Basílio do Nascimento declara-se "em solidariedade institucional, como bispo" com o seu colega timorense. E refere-se com satisfação ao facto de terem sido colegas desde pequenos. Afirma-se na disposição de apoiar D. Ximenes em tudo aquilo que tem feito até agora, e acha que "com o Prémio Nobel ele chamou a atenção exactamente sobre a necessidade de paz e sobre a possibilidade de paz no território de Timor Oriental".
Foi João Paulo II a estabelecer este costume de assinalar a solenidade da Epifania conferindo a ordenação episcopal a um certo número de novos bispos de diferentes partes do mundo. Sublinha-se deste modo a dimensão universal da Igreja e da sua actividade missionária: "Para todas as nações há-de brilhar a salvação". A Igreja está chamada a manifestar a todos os homens o mistério da salvação. Os novos bispos ordenados pelo Papa em São Pedro são enviados para todo o mundo, para realizarem essa missão de chamar os povos da terra a formar uma só família.
Este ano, os continentes representados eram três: África, Ásia e Europa. Para a África foram ordenados um bispo togolês e um italiano que vai assumir as funções de Núncio apostólico no Tongo e no Congo. Da Asia, foi ordenado bispo um redentorista italiano que assume a administração apostólica de uma arquidiocese de rito siromalabar, e precisamente D. Basílio do Nascimento, enviado para a nova diocese de Baucau como Administrador Apostólico "sede vacante ad nutum Sanctae Sedis". Da Europa, foram ordenados dois novos bispos italianos, dois outros italianos nomeados Núncios, e ainda um suíço, um polaco, um romeno e dois novos bispos para a Albânia. Também aqui a dimensão missionária está bem presente, sobretudo no caso dois últimos países.
Acentuada a diferença de idades entre os novos bispos: o mais velho tem 69 anos (o referido redentorista indiano) e o mais novo apenas 37 ( bispo auxiliar de uma diocese romena de rito grego-bizantino). Para além de um polaco de 45 anos, ordenado bispo auxiliar, segue-se, entre os mais jovens, D. Basílio do nascimento, com 46 anos.
No que a este diz respeito, de notar que não houve, em nenhum momento, referência à Indonésia. Indicando, na homilia, a missão confiada a cada um dos novos bispos, o Papa mencionou o nome de cada um dos países para os quais estes são ordenados. Para o bispo de Baucau a palavra usada foi Timor Oriental. Aliás, a Indonésia não apareceu nunca referida pelo "Osservatore Romano", o orgão oficial da Santa Sé, na notícia referente à criação da nova diocese e à nomeação e ordenação do seu primeiro pastor.
| Pacheco Gonçalves |
D. Basílio do Nascimento nasceu em Suai, diocese de Dili, em 14 de Junho de 1950. Depois dos seus estudos em Maliana e no Seminário Menor de Dili, foi enviado para Évora, em Portugal onde fez estudos filosóficos e teológicos. Foi aí ordenado sacerdote em 25 de Junho de 1977, ficando incardinado na Diocese de Dili.
Devido à guerrilha que imperava em Timor Leste, o P. Basílio transferiu-se para Paris, onde permaneceu até 1982, tendo aí conseguido a Licenciatura em Teologia Pastoral e Catequese no Instituto Católico, assim como um diploma em Literatura e Língua francesa. Paralelamente aos seus estudos, o Cardeal Marty, arcebispo de Paris, confiou-lhe a pastoral dos imigrantes da língua portuguesa na capital francesa. Regressado a Évora em 1982, foi sucessivamente pároco, Director espiritual no Seminário Maior e Reitor do Instituto teológico.
Em Outubro de 1994 regressou à sua diocese de origem, Dili. E, depois de ter seguido durante alguns meses um curso de língua indonésia em Java, trabalhou inicialmente como coadjutor na paróquia de Ainaro. Há cerca de um ano fora nomeado Vigário Episcopal para a Pastoral diocesana. Fala português, espanhol, francês, italiano, inglês e sabe também a língua litúrgica local e um pouco de indonésio.
Timor Leste tem a superfície de 14.609 quilómetros quadrados e uma população de 862 mil habitantes. A diocese de Dili, instituída em 1940 e directamente dependente da Santa Sé, é presidida desde 1988 por D. Carlos Filipe Ximenes Belo, Administrador Apostólico «Sede vacante ad nutum Sanctae Sedis». No dia 10 de Outubro, D. Ximenes foi galardoado com o Prémio Nobel da Paz, pelo seu esforço na procura de uma solução justa e pacífica para o conflito entre Timor Leste e a Indonésia.
Dada a vastidão da diocese de Dili e as difíceis comunicações que dificultam frequentes contactos directos entre os pastores e os fiéis, decidiu-se criar a diocese de Baucau, como território desmembrado da diocese de Dili, a fim de facilitar a obra de evangelização e a formação permanente planificada em função das necessidades da Igreja local na actual situação socio-políitica.
A diocese de Dili passa a ter cerca de metade da superfície e cerca de um quarto dos habitantes passam a pertencer à diocese de Baucau. Os católicos em Timor Leste são 732 mil, pertencendo agora 510 mil à diocese de Dili. Das 30 paróquias existentes, nove passam para a jurisdição de Baucau, bem como nove dos 26 sacerdotes diocesanos do país.
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