Uma viagem da Polar (R. Santa Catarina, 922-B
- 4000 Porto, tel. 02-318193) ao Senegal, de 3 a 11 de Novembro,
constituiu a desejada oportunidade de entrar em África.
Em muitos momentos vieram à mente imagens de visitas do
Papa e os seus apelos ao perdão das dívidas por
parte dos países ricos e tantas conclusões do Sínodo
Africano.
O nome Senegal vem do rio que lhe serve de fronteira a Norte, com a Mauritânia. A Este fica o Mali, a Sul a Guiné-Bissau e a República da Guiné, e, ao longo do rio Gâmbia, fica a República do mesmo nome. São 197 mil quilómetros quadrados para oito milhões de habitantes.
A viagem, de avião, de noite - Porto-Lisboa-Bissau-Dakar - foi a primeira surpresa, acrescida de outra de autocarro, ao longo de duas horas, até Saly Portudal, onde ficaria o hotel, dentro de uma grande zona ajardinada, com água, flores, piscinas e praia. Em Bissau, nem se saíu do avião, por motivos de cólera, malária e outras razões de segurança. E poderia ser uma óptima escala para assinalar os 400 anos da evangelização da Guiné.
O Senegal encontrou no turismo uma forma de conseguir divisas. Em zonas de praia, multiplicam-se os hotéis, adaptando cabanas a quartos, colocados em belos jardins. Ao contrário das aldeias ou cidades, nessas áreas bem protegidas, a vida é totalmente artificial, com águas, vinhos e outras bebidas europeias, misturadas com o calor africano. Na música, praia ou piscina e passeios pela Natureza, os turistas gozam umas repousantes férias, longe do mundo, mas também do povo africano.
No Norte, a savana luta contra o deserto que avança, e no Sul o bosque cresce livremente, numa temperatura média de 22 graus. O povo é dócil e humilde para quem saiba respeitá-lo e tem como moeda o CFA, unidade monetária de uma dezena de países do Oeste africano. As cidades são muito populosas e, nos lugares mais férteis, vê-se alguns conjuntos de cabanas de habitação.
São animistas, numa mistura da cultura tradicional com influências de outras religiões, principalmente islâmicas. Preceitua-se a oração ao amanhecer e ao anoitecer, e entende-se que a educação é dever da comunidade.
Nomes e outros sinais lembram a nossa história, ainda que o território seja de colonização francesa: Saly Portudal (Portugal), Rufrisque (Rio Frio), a ilha de Goré e, a sul, Casamança, uma zona de arrozais e de gente de pele mais clara, originária da Etiópia, enquanto os outros são mais negros, vindos do Sudão, como o islamismo.
Nas planícies a perder de vista, pois a altitude não passa os duzentos metros, surgem árvores isoladas, como acácias selvagens e sobretudo o baobab, uma centenária espécie de embondeiro. As estradas são estreitas e cheias de covas, ainda que asfaltadas, percorridas por muita gente a pé ou dependurada em carros e camionetas. De tempos a tempos, à sombra, mulheres vestidas com certo requinte a vender qualquer coisita, ou crianças apenas com um trapo. Tudo pedem, desde uma bic, o boné e dinheiro, até um caderno, a agenda, o saco, o casaco e que lhe mandem uns sapatos. E parte-se o coração por nada mais ter para dar.
A capacidade empreendedora desta gente está bem expressa numa associação cultural constituída por jovens para desenvolver e dar a conhecer a Cultura local. Além de agência de viagens, promove o folclore, a pintura, escultura, música, cinema, fotografia, etc. E é uma maravilha encontrar ali gente que fala português, porque o estudou ou por simples contacto com a Guiné-Bissau.
Em Dakar, a capital, com mais de um milhão de habitantes, abundam as grandes construções, as moradias diplomáticas e hotéis de luxo, mas bem perto enormes aldeamentos de gente que se despeja na capital para ali vender tudo o que possa dar dinheiro. O bispo cismático Mons. Lefèbvre começou o seu ministério episcopal numa catedral que tem um altar dedicado a Nossa Senhora de Fátima. Perto fica o Cabo Manuel I, a parte mais ocidental de África, e a ilha de Goré (good reed) descoberta em 1444 por Dinis Dias que lhe chamou Ilha de Palma.
Interessante é o passeio por uma zona de aves raras, de animais e de plantas, como o baobab que resiste até cerca de mil anos, ao lado de pequenos arbustos que lutam contra o deserto que avança para sul. De longe a longe, levantam-se os montículos da termiteira e, mais perto dos rios, abundam pelicanos, flamingos e garças que, numa viagem de barco, podem admirar-se com as ostras e outras curiosidades.
Perto fica o Lago Rosa, onde termina o Rally
Paris-Dakar, numa tentativa de cooperação iniciada
em 1978 pelos ministros da Cultura do Senegal e da França.
Ali extrai-se, de forma artesanal, grande quantidade de sal, vendo-se,
poucos metros ao lado, água doce, vinda das dunas. Inesquecível
a Missa de domingo, na paróquia de Santa Marta, sete quilómetros
de Salir Portudal.
Ilha dos escravos
«Obrigatória» para um europeu é a «peregrinação» à ilha de Goré, onde aparece, em realce, a mensagem de João Paulo II, em 22 de Fevereiro de 1992, em favor dos direitos do homem e da mulher: «É um grito! Eu vim para escutar este grito de séculos e gerações de negros e de escravos. Vim para prestar homenagem a todas essas vítimas desconhecidas. (...) Deste santuário africano da dor negra pedimos o perdão do Céu».
Era nesta ilha o principal entreposto de escravos, a quem eram dados nomes portugueses, espanhóis ou americanos, mas havia dezenas ao longo da costa africana. Abolida em Inglaterra em 1833 e em Portugal em 1836, a escravatura sê-lo-ia depois (1848) em França, mas haveria de ser retomada a pedido da mulher de Napoleão, seguindo-se a Holanda (1864), Estados Unidos (1864) e Brasil (1888). Esse negócio «artesanal» de 1444 a 1536, cresceu até 1648, com a descoberta das minas na América. Vinha um barco de três em três meses e levava de 150 a 200 escravos, amarrados dois a dois, sendo 15 a 20 em cada compartimento. Assim, ao longo de três séculos, cerca de três milhões fizeram essa viagem sem regresso! Muitos tentavam a sua sorte atirando-se ao mar, o que fez proliferar os tubarões no local de embarque. Já desde o século VII que os árabes compravam escravos, preferindo os do sul da Nigéria.
Mais a sul, fica Kaolac, outra grande cidade com cerca de 600 mil habitantes que vivem do azeite de palma e do amendoim. E, junto ao mar, Joal (o nome vem de João), uma cidade piscatória, antiga feitoria portuguesa junto ao Atlântico, e agora célebre por ali ter nascido Leopold Senghor, poeta da negritude que estudou em França e ali casou, sendo reconhecido pela UNESCO como um dos grandes intelectuais do séc. XX.
Amigo pessoal de George Pompidou, com quem passava
férias, fundou, nos anos 30, com Aimé Césaire,
poeta da Martinica, a Revista do Mundo Negro. Foi professor liceal
em França e combateu na II Grande Guerra, tendo ficado
prisioneiro dos alemães durante dois anos. Apoiou depois
a rebelião do general De Gaulle e foi um dos autores da
Constituição da IV República. Em 1948 fundou
um partido africano de inspiração socialista e,
em 1955, foi secretário de Estado no governo de Edgar Faure.
Quando em1960 se deu a independência do Senegal, Senghor
foi eleito como primeiro presidente da República. Abriu
o país ao multipartidarismo e à tolerância
e, em 1980, abandonou voluntariamente o poder. Em 1984 foi recebido
pela Academia Francesa e vive, agora, na Normandia na casa senhorial
da esposa, tentando aproximar a África e das outras culturas.
Às portas da Guiné
Para chegar ao sul é preciso atravessar a Gâmbia e o rio, um território de colonização inglesa, onde os habitantes são mais reverentes, ficando à distância em atitude de súplica.
A sul da Gâmbia é Casamança, terra de marca ainda mais portuguesa, acentuada pela memória da guerrilha contra o colonialismo na Guiné. Era ali que se treinavam os guerrilheiros do PAIGC, mas é com estima que lembram os portugueses, considerando-os bem menos racistas que os outros povos. Aos franceses não lhes perdoam o facto de os terem explorado nas guerras napoleónicas e na Grande Guerra.
Uma forte chuvada e um calor que embebe roupas e casas, muitas aves, insectos e vermes, misturam-se com lama ou pó e uma vegetação exuberante que protege cabanas cobertas de palha. A região é rica na agricultura, madeiras e petróleo. Há igrejas católicas e casas de religiosas. O povo responde com festa à morte de um velho, pois terminou a sua tarefa, enquanto a de um jovem é acompanhada de choro.
Ziguinchor é uma cidade quase na fronteira com a Guiné-Bissau que foi também mercado de escravos. Dizem que o nome significa «senta-te e chora» e que advém do favor dado aos que iam partir como escravos para a ilha de Goré, e dali para as Américas, de terem um dia para se despedirem para sempre: pais e filhos, maridos e mulheres. Esse eco ressoe agora na alma dos herdeiros de tão hediondo crime para que sintam a grandeza e a pequenez da humanidade que somos. Uma meditação em Caps Skirring, junto ao mar e perto da Guiné-Bissau, onde há muito artesanato e turismo.
| F. M. |
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