As duas faces de Jano

Havia uma diivindade romana que tinha duas caras, uma olhava para a frente, outra olhava para trás. É a imagem do drama humano, que se debate permanentemente na dialéctica do luminoso e do tenebroso, do positivo e do negativo, do diurno e do nocturno, do bem e do mal, do ser e do não ser.

É assim com os artistas, que sempre oscilam entre o golpe de asa talentoso que de vez em quando acontece e a sensaboria da habitualidade. É assim com os actores-humoristas, que, à falta de criatividade, se achavascam no burlesco e na palhaçada... sem desprimor para os palhaços.

Um desses resolveu parodiar em plena semana santa a última ceia de Cristo, para fazer crítica sóciopolítica. E porque a coisa feria o bom senso e bom gosto, ao que se diz, lá foi reformulada e adiada para se tornar menos intragável. Mas não melhorou, nem em humor nem nos efeitos. Triunfou afinal o egotismo do autor, que não foi capaz de destruir o aborto que criou. É pecha generalizada este olhar turvo que, ao contrário de Jano, se dirige só para o próprio umbigo... que narcisicamente acha bonito. O resultado foi o que se viu: um rotundo falhanço como crítica, uma pantominice que, de tão grosseira, nem ofende, é só lamentável.

O espírito humano é o diálogo do sim e do não, de um poder de iniciativa e um poder de inibição. A exacerbação de um ou outro gera desequilíbrios e conflitos. A lição de Jano bifronte é a sábia prudência de olhar em várias direcções e tirar a bissectriz. Não de trata de autocensura nem de heterocensura. Trata-se de pudor intelectual e de consciência inibitória, que só essa nos qualifica como seres con-viventes. E trata-se do, tantas vezes ausente, reflexo comunicativo, isto é, capacidade de se colocar na pele do destinatário da mensagem, criando a empatia indispensável para que a mensagem passe; adaptar-se à situação e ao receptor é a regra de ouro da comunicação. Foi isso que falhou.

No género cómico há várias modalidades. O humor é uma delas e distingue-se por se situar num plano superior da vida intelectual e afectiva como privilegiada expressão de simpatia humana. É a sua face luminosa, em que o objecto de humor se ri saudavelmente de si próprio. A outra face, nocturna e menor, dissolve-se numa contrafacção equívoca: não tem graça, só faz pena.

Kant definia que o riso resulta da contradição entre a expectativa e a realidade; não é uma definição perfeita, porque quando a realidade é ameaçadora ou simplesmente menos sedutora que a expectativa não faz rir, deprime. A expectativa fundamental da vida é que de hora a hora Deus melhora(o mundo); se não fosse assim porque quereríamos continuar a viver? No caso vertente, a realidade que nos foi servida é uma frustração; nada melhorou no mundo, mas também não há ameaça nenhuma; há apenas o equívoco de que a alarvidade compensa. De facto, há quem ria: cada um é o seu humor, como dizem os ingleses.

Mas, independentemente deste caso, mais triste que risível, um juizo sobre o humor que geralmente se faz conduz-nos a uma igualmente triste conclusão: é que o humor depende do modo como cada um assimila os estímulos que pretendem fazer rir; depende sobretudo de quem ri.

A musa da comédia andou por aí a saber onde havia um cómico capaz de fazer rir o pai dos deuses. Quando lhe indicaram o pantomineiro oficial da corte, a musa ainda insistiu:

- Mas é realmente bom?

Reponderam-lhe:

- Não, mas as pessoas riem-se.

Temos o humor que merecemos.

Ernesto Campos