Última Página:


Economia e Ética


Hoje fala-se repetidamente de ética (talvez porque poucos a cultivem e a respeitem), nos mais diversos níveis da actividade humana, desde a investigação científica (ciência com ou sem consciência), até à actividade empresarial, onde, há alguns anos atrás, era timbre ser fiel à palavra dada, ainda que isso representasse algum prejuizo material.

A necessidade da existência de princípios éticos aceites universalmente é reconhecida como indispensável para um convívio social e internacional pacífico. E aí está a Declaração Universal dos Direitos do Homem como expressão básica dessa convicção. Foi neste sentido que Hans Küng escreveu há pouco uma obra a que deu o título de Projecto de uma ética mundial, começando por afirmar que é impossível sobreviver sem uma ética mundial. A certo passo, afirma: Os pontos de vista que pude acumular mediante os meus estudos e também nas minhas viagens por todos os lugares culturais e económicos do mundo e nos encontros com pessoas das mais diversas religiões, raças e classes sociais, juntamente com as conclusões que pude extrair de tudo isso, é o que apresento aqui com toda a concisão: a necessidade de uma ética para o conjunto da humanidade. E explicitando melhor o seu pensamento: Um mundo único precisa de um empenho ético fundamental: esta sociedade mundial única não precisa, por certo, de uma religião ou de uma ideologia unitárias, mas sim de alguma espécie de normas, valores, ideais e fins obrigatórios e imperantes.

Estou certo de que o mesmo se deve dizer ao nível do convívio social dentro do mesmo país. As leis, só por si, quando sujeitas apenas à vontade das maiorias flutuantes, não são suficientes para um convívio pacífico entre os cidadãos. É imperioso que acima das leis haja normas de conduta ética, aceites por todos e às quais se submeta a própria legislação. A isto se pode chamar uma ética social de consenso.

No 1º. Congresso Português de Ética Empresarial, a fazer fé no que apareceu escrito nos jornais, afirmou-se sem rebuço: As pessoas eticamente correctas vão ser, no futuro, uma minoria. Corre-se o risco de serem uma classe à margem. Um outro congressista afirmou, por seu lado: sabemos que agimos com ética se sentimos satisfação com o que fizémos. Como se tivéssemos comido um doce. Se o acto foi bom para o exterior, isso já é secundário. E ainda outro: não acredito em códigos de ética. E nem interessa saber se se trata de pessoas da área socialista ou até filiadas no partido, porque, para uma grande parte, o partido é como um clube, já que nada têm a ver com a ideologia que devia sustentar o partido.

É certo que tanto o liberalismo económico como as várias formas de socialismo, ainda que com perspectivas diferentes, estavam de acordo em afirmar que a interpretação científica do desenvolvimento económico e as suas leis eram suficientes para determinar os objectivos e os métodos para alcançar aquele desenvolvimento. Sendo suficientes as leis internas do processo, não havia lugar para considerações éticas.

Os socialismos de obediência marxista mostraram-se desumanos, ineficazes e faliram. O liberalismo económico, igualmente desumano, tem sempre forma de ultrapassar as condenações a que tem estado sujeito, porque se fundamenta na liberdade do homem. O progresso espectacular de alguns países de economia liberal, em contraste com a pobreza dos regimes socialistas, veio de alguma forma absolutizar as virtudes da economia de mercado livre, fazendo esquecer tudo o que o processo tem de desumano na sua lógica interna.

O capitalismo, escrevia há tempos Simone Veil, é um modelo incompleto e limitado, que não consegue resolver os problemas sociais, dos quais era porta voz o comunismo; daí, os perigos da involução social nos próximos anos, tanto nas relações entre os países ricos e os países pobres, como no interior das sociedades ricas, com a formação de novos abismos entre classes sociais ricas, cada vez mais elitistas, e grandes massas da população afastadas do poder e do bem estar.

O modelo capitalista da economia de mercado, se é certo que favorece a liberdade dos mais capazes, (e, se conseguirmos manter a liberdade, dizia Leo Valiani, é sempre possível recomeçar) tende, pela sua lógica interna, a subalternizar, ou mesmo escravizar todos os outros. A única razão de ser da produção é o homem e o seu desenvolvimento. Ora, neste tempo de confusão entre meios e fins, o homem, para este regime económico, é apenas meio para atingir o fim que se propõe a produção, que é o lucro.

Não se pode pôr em dúvida a eficácia, para o desejado desenvolvimento, a nível nacional e internacional, da economia de mercado. Mas esta tem de ter em conta a dignidade do homem a quem deve servir. E para isso não basta procurar apenas o lucro utilizando, por vezes, uma competitividade desumana.

Em discurso aos trabalhadores e empresários de Barcelona, dizia há tempos o Papa: Economia e técnica não têm sentido sem referência ao homem a quem devem servir. De facto, o trabalho é para o homem e não o homem para o trabalho; e por isso também a empresa é para o homem e não o homem para a empresa. E na Centesimus Annus: A Igreja reconhece a justa função do lucro, como índice do bom andamento da empresa... Mas o lucro não é o único índice das condições da empresa. Pode acontecer que os balanços económicos estejam correctos e que ao mesmo tempo os homens, que constituem o património mais valioso da empresa, sejam humilhados e ofendidos na sua dignidade. Isto, além de ser moralmente inadmissível, não pode deixar de trazer reflexos negativos para o futuro, mesmo ao nível da eficácia económica da empresa.
Gonçalves Moreira

Início



O SACRISTÃO

Um ofício importante numa comunidade

Um dos ofícios e ministérios mais importantes nas comunidades e nas igrejas é o do sacristão ou da sacristã. Trata-se, frequentemente, de um serviço discreto, embora decisivo para o funcionamento da igreja e para o desenrolar da celebração. O seu protagonismo não é tão visível e sensível como o do leitor, do acólito ou do músico e, muito menos, o do presidente. Mas, sem ele, esses ministérios não actuavam digna e eficazmente. É ele quem abre a igreja, convoca os fiéis, prepara os paramentos, o altar, a credência, o pão e o vinho, a água, o incenso, os livros, o órgão, organiza as procissões, a recolha dos dons, acende as luzes e liga os microfones tarefas demasiado importantes para serem deixadas à improvisação do momento. É, com efeito, um ofício tão discreto quão importante: quando há não se nota, quando se dispensa faz falta.

Com efeito, muitas são as coisas que se encomendam a um sacristão, sobretudo nas paróquias:

manter a limpeza, a ordem, a guarda, a conservação e o funcionamento dos espaços, dos objectos, das vestes, dos livros e dos diversos instrumentos;

preparar as celebrações, sobretudo, do ponto de vista material, mas de modo nenhum secundário, pois que, por ser exterior, condiciona o funcionamento e o desenvolvimento dos ritos e de toda a celebração: paramentos, livros, pão, vinho e água, iluminação e megafonia, toque dos sinos, música ambiente, abrir e fechar as portas, lâmpada do Santíssimo, flores;

por vezes, assume outros serviços mais burocráticos, como o registo de baptizados e casamentos, etc.;

e pode acontecer que tenha de suprir, até, a falta do acólito, leitor ou cantor.

Ser sacristão requer, por isso, qualidades e uma preparação ampla e diversificada.

O Cerimonial dos Bispos atribui ao sacristão tarefas importantíssimas: preparar as celebrações (com o mestre de cerimónias); cuidar de tudo quanto é necessário à celebração; tocar os sinos; criar um ambiente de recolhimento na sacristia e no vestiário [sacristia et secretario] (secretário = lugar onde os ministros, em dias solenes, se paramentam e dão início à procissão de entrada); guardar as alfaias e os bens culturais da igreja; estar atento e ser zeloso pela limpeza, asseio e ornamentação da igreja; enfim, providenciar para que tudo, na igreja, manifeste amor e reverência para com Deus e seja sinal de piedade, festa e alegria para o povo de Deus. (cf. C. B., nº 37-38).

Nem qualquer pessoa serve para sacristão. Não basta estar desempregado para se ser bom sacristão. Tampouco são precisos títulos académicos. Mas com certeza que é preciso preparação, sensibilidade humana, litúrgica e cristã. Partindo das qualidades humanas, dever-se-ia dar-lhes formação específica. Não basta certamente que saibam as cores dos paramentos do dia ou como se tocam os sinos. Há toda uma sensibilidade litúrgica e espiritual que seria favorecida se os sacristães pudessem frequentar algum curso sistemático, periódico ou intensivo. Dar formação aos ministros que animam as celebrações da comunidade é um investimento certo que dará frutos em pouco tempo para o bem das comunidades. Nesses cursos, o sacristão conhecerá a Introdução geral do Missal Romano, os Preliminares dos diversos Rituais e, sobretudo, para além das rubricas, aprofundará o porquê das coisas, o sentido e o espírito da liturgia, dos ritos, do ano litúrgico, etc..

O sacristão é, frequentemente, a primeira imagem de uma igreja (se a imagem é má, será a última). Os sacristães são mais que pessoas que acendem velas. Com o seu trabalho escondido e eficiente, realizam um precioso apostolado: a ordem, a limpeza e o silêncio na igreja são o primeiro cartaz de bom acolhimento; a sua presença discreta e atenta marcam o sinal de uma comunidade disponível para os outros; o atendimento paciente e bem humorado aproxima as pessoas da comunidade e de Deus. Deste modo, preparam as pessoas que acodem à igreja para o encontro verdadeiro e profundo com Deus. Assim, realizam um autêntico ministério.
S. D. L.

Início


Primeira Página Página Seguinte