A Pastoral litúrgica e sacramental (1)

João Paulo II aos Bispos da Provença

Desde o pontificado de Paulo VI que as visitas dos bispos de todo o mundo "ad limina apostolorum» têm sido aproveitadas para um encontro em que o Sucessor de Pedro e cabeça do colégio episcopal se associa às preocupações pastorais e doutrinais dos seus irmãos no episcopado, apoia a sua acção e, por vezes, os chama à atenção - e na pessoa deles, às respectivas Igrejas - para determinados aspectos da vida eclesial. Embora dirigindo-se a um grupo particular de Bispos, o Papa não se limita a focar problemas e temáticas de exclusivo interesse regional. Frequentemente aproveita essas ocasiões para abordar questões de alcance mais amplo e, mesmo, universal. É o caso da alocução que João Paulo II dirigiu aos bispos franceses da Provença Mediterrânica em 8 de Março de 1997 e que teve como tema "a pastoral litúrgica e sacramental».

Entre os temas tratados, destacamos a eclesialidade da liturgia, a arte de celebrar e a pastoral do matrimónio e da penitência. Como sublinha, quase a concluir, o Papa abordou «estas questões para encorajar os esforços consideráveis feitos nas dioceses desde o II Concílio do Vaticano». Porque «uma pastoral litúrgica esclarecida constitui uma tarefa de primeiríssimo plano na missão da Igreja, a fim de abrir ao maior número de fiéis os caminhos da comunhão na graça da salvação».

Dado o interesse deste acto de Magistério do Pastor Universal, queremos partilhar com os leitores de VP as suas partes mais significativas, traduzindo de La Maison-Dieu, n. 210 (1997) 137-144.

A liturgia manifesta a Igreja

«3. A pastoral litúrgica tem por função guiar os padres e os fiéis na sua participação no acto central confiado por Cristo à sua Igreja, que é a actualização do mistério pascal da Paixão e da Ressurreição. "Foi, com efeito, do lado de Cristo adormecido na Cruz que surgiu ‘o admirável sacramento de toda a Igreja’" (SC, n. 5). Há que repetir incessantemente que a Eucaristia faz a Igreja e faz dela o sinal de Cristo.

Uma concepção correcta da liturgia tem em conta que ela deve manifestar claramente as notas fundamentais da Igreja. Em primeiro lugar, a unidade da congregação em que os baptizados se encontram para celebrar o mesmo Senhor. A este respeito, importa que a unidade ritual seja perceptível pelas diferentes gerações de fiéis, pelos diferentes meios, pelas diferentes culturas. Não deve haver aqui oposição entre universal e particular. É certo que, nas cidades e aldeias, de país para país, as assembleias têm características próprias, mas a celebração litúrgica deve permitir a cada qual perceber que não está a realizar uma acção privada, simples reflexo do grupo presente, mas que a Igreja é "o sacramento da unidade" (SC, n. 26). É o Senhor que congrega e a Igreja vai ao seu encontro "até que Ele venha" realizar em plenitude o desígnio benevolente do Pai: "Reconduzir todas as coisas sob um único Chefe, Cristo" (Ef 1, 10). Deste modo pode perceber-se, na mais modesta das assembleias, a catolicidade na qual todos são chamados a participar.

O sentido do sagrado deve ser salvaguardado com um discernimento atento, evitando quer "sacralizar" exageradamente determinado estilo litúrgico, quer privar os ritos ou as palavras sagradas do seu sentido próprio que consiste em significar o dom de Deus e a sua presença santificante. Viver a acção litúrgica na santidade, é acolher o Senhor que quer realizar em nós, o que nós nunca poderíamos fazer só com as nossas forças.

É claro que a nota apostólica decorre da missão confiada aos Apóstolos, da participação deles no sacerdócio único de Cristo na função ministerial de que foram investidos em favor de todo o Corpo eclesial que participa do sacerdócio universal. Apostólica, a Igreja é-o também porque jamais se afasta da sua vocação missionária. Tudo o que os fiéis realizam em ordem a cumprir a sua missão no coração do mundo é apresentado a Deus, na acção litúrgica, para o glorificar. E a acção litúrgica conduz a retomar a missão, com o amparo da graça vivificante de Cristo, nos caminhos próprios da vocação de cada qual.

A liturgia comunitária ajuda os membros da Igreja una, santa, católica e apostólica, a viver o mistério de Cristo no tempo. Nunca será de mais insistir na importância da reunião para a Missa, no Dia do Senhor. As primeiras gerações cristãs tinham-no entendido bem: "Nós vivemos sob a observância do Dia do Senhor, [dia] em que a nossa vida se ergueu por Ele e pela Sua morte, […] como poderíamos viver sem ele?" (Santo Inácio de Antioquia, Aos Magnésios, 9, 1-2). A frequência hebdomadária da Eucaristia dominical e o ciclo do ano litúrgico permitem ritmar a existência cristã e santificar o tempo, que o Senhor ressuscitado abre para a eternidade feliz do Reino. A pastoral velará por que a liturgia não seja isolada do resto da vida cristã: porque os fiéis são convidados em cada dia a prolongar a sua prática litúrgica comum pela oração privada quotidiana; esta caminhada espiritual dá um novo impulso ao testemunho da fé dos cristãos vivida no dia-a-dia, e também ao serviço fraterno dos pobres e do próximo em geral. A pastoral litúrgica, que não se pode deter às portas da Igreja, propõe a todos a realização da unidade entre a sua vida e o seu agir.»

S.D.L

A Pastoral litúrgica e sacramental (2)

Celebrantes e animadores
ao serviço da "surpresa de Deus"

Continuamos neste número a tradução da alocução de João Paulo II aos Bispos da Provença Mediterrânica, publicada em La Maison-Dieu, n. 210 (1997) 137-144.

«4. A liturgia, que manifesta a natureza própria da Igreja e que é uma fonte para a missão, é dada pela própria Igreja para dar glória a Deus: ela tem, por isso, as suas leis que convém respeitar, na distinção dos diferentes papéis desempenhados pelos ministros ordenados e pelos leigos. Tem prioridade aquilo que volta os fiéis para Deus, que os congrega e que os une entre si e com todas as outras assembleias. O Concílio é claro a este respeito: "Os pastores têm o dever de velar atentamente não só para que se observem na acção litúrgica as leis para uma celebração válida e lícita, mas também para que os fiéis nela participem de forma consciente, activa e frutuosa" (SC, n. 11).

Os celebrantes e os animadores devem ajudar a assembleia a entrar numa acção litúrgica que não é uma mera produção deles, mas um acto de toda a Igreja. É preciso, pois, deixar o primeiro lugar à palavra e à acção de Cristo, àquilo a que se pôde chamar a surpresa de Deus. A animação não tem por função exprimir ou prescrever tudo; ela respeitará uma certa liberdade espiritual de cada um na sua relação com a palavra de Deus e com os sinais sacramentais. O acto litúrgico é acontecimento de graça cujo alcance ultrapassa a vontade ou o saber-fazer dos actores, chamados a ser humildes instrumentos na mão do Senhor. É a eles que compete fazer perceber o que Deus é para nós, o que Ele faz em nosso favor; levar os fiéis de hoje a discernir que entram na história da criação santificada pelo Redentor, no mistério da salvação universal.»

A arte de celebrar

«5. Num plano mais concreto, acrescentarei que importa velar pela qualidade dos sinais, sem por isso cair no "elitismo", pois que os discípulos de Cristo de qualquer cultura devem poder reconhecer nas palavras e gestos a presença do Senhor à sua Igreja e os dons da Sua graça. O primeiro sinal é o da própria reunião. Reunida, a comunidade proporciona de algum modo a hospitalidade a Cristo e aos homens por Ele amados. A atitude de todos conta, porque a assembleia litúrgica é a primeira imagem que a Igreja, convocada para a mesa do Senhor, dá de si mesma.

Em seguida, é na Igreja que é proclamada de modo autêntico a palavra de Deus, uma palavra venerada porque palavra viva e habitada pelo Espírito. Deve haver o máximo cuidado com a leitura dos diversos ministros da palavra, que deverão começar por interiorizá-la a fim de que ela chegue aos fiéis como uma verdadeira luz e uma força para o presente. A homilia supõe por parte dos padres uma meditação e uma assimilação tais que possam levar a discernir o sentido da palavra e permitir uma adesão efectiva, que se prolonga por um compromisso diário.

Os cantos e a música sacra desempenham um papel essencial para reforçar a comunhão de todos, por uma forma tão sensível de acolhimento e assimilação da palavra de Deus, pela unidade da imploração. É conhecida a importância bíblica do canto, portador da Sabedoria: "Psallite sapienter", diz o Salmista (Sl 47/46, 8). Velai por que se escolham e se criem cânticos belos, que assentem em textos válidos e que estejam de acordo com um conteúdo significativo. De modo ainda mais geral do que o canto propriamente dito, a música litúrgica tem a capacidade sugestiva de entrelaçar o sentido teológico, o sentido da beleza formal e a intuição poética. Convém também acrescentar aqui que, ao lado da palavra e do canto, o silêncio, quando bem preparado, tem um lugar indispensável na liturgia; ele permite a cada qual desenvolver no seu coração o diálogo espiritual com o Senhor.

No vosso país, que dispõe de um precioso património religioso, não é preciso sublinhar que os lugares e os objectos do culto são naturalmente sinais expressivos, quer sejam herança do passado ou criações contemporâneas, porque a fé oferece à cultura e à arte um real dinamismo criativo. A este propósito, tenho a declarar o meu vivo apreço pelo cuidado prestado a numerosos edifícios de culto, catedrais ou igrejas paroquiais, pelas autoridades do Estado e pelas colectividades locais. Não vos poupeis a esforços para fazer viver as igrejas das aldeias, mesmo quando os seus habitantes são pouco numerosos. Que a liturgia seja sempre a verdadeira razão de ser destes monumentos, porque, como se disse, tal como as pedras estão ajustadas umas às outras, também os homens o estão quando se unem para louvar a Deus.

Em suma, a liturgia é um meio extraordinário para evangelizar o homem, com todas as suas qualidades de espírito e a acuidade dos seus sentidos, com as suas capacidades de intuição e a sua sensibilidade artística e musical, que traduzem o seu desejo de absoluto melhor do que os discursos.

Para que a liturgia seja bem realizada e fecunda, a formação dos celebrantes e dos animadores deve ser seguida com cuidado, como o fazem as vossas comissões diocesanas de pastoral litúrgica. Não deixeis de chamar a atenção das equipas de animação litúrgica para que apostem em celebrações preparadas numa colaboração positiva entre padres e leigos.

S.D.L.

A Pastoral litúrgica e sacramental (3)

O Matrimónio e da Penitência

A situação cultural e eclesial da França não coincidem, certamente, com as de Portugal. Mas nem por isso deixam de ser muitos os pontos de contacto. E os influxos continuam, embora atenuados em confronto com o que se passava em tempos não muito distantes. Por tudo isso - e pelo âmbito geral em que o Santo Padre se situou nesta alocução - concluímos aqui a tradução da parte principal do discurso de João Paulo II aos Bispos da Provença Mediterrânica, publicada em La Maison-Dieu, n. 210 (1997) 137-144.

«6. O que acabo de recordar acerca da pastoral litúrgica no seu todo deve ser prolongado por algumas reflexões sobre a pastoral dos sacramentos, que não está reservada apenas a alguns especialistas. Toda a Igreja de Cristo tem a responsabilidade de acolher com amor os irmãos e irmãs, mesmo que afastados da prática regular. Para desempenhar plenamente a sua missão de intendentes dos mistérios de Deus, os padres contam com a colaboração de leigos que aceitam constituir equipas de preparação para o Baptismo ou para o Casamento, bem como assegurar, no quadro da catequese e do catecumenado, a preparação para a Eucaristia e para a Confirmação.

Para os pastores e comunidades, trata-se de, ao receber os pedidos das famílias, dos adolescentes ou dos adultos, discernir o sentido da sua diligência, nas situações reais em que as pessoas se encontram. Se a abordagem parece frequentemente hesitante ou formalista, é bom mostrar-se aberto, confiar na presença do Espírito nas próprias pessoas que pedem os sacramentos; os sacramentos são propostos como dons de graça para todos, como apelos à conversão, e não como a plenitude ou o selo de uma maturidade na fé que teria de ser previamente adquirida.

A pastoral dos sacramentos não é separável do conjunto da missão de evangelização: ela leva a organizar ocasiões de proposta da fé e de iniciação à vida cristã; ela quer favorecer o progresso espiritual daqueles que vêm bater à porta da Igreja, transmitindo-lhes o chamamento do Senhor sem deixar de lhes manifestar claramente as exigências evangélicas. É desejável também que as paróquias e os movimentos se preocupem com manter contactos com as pessoas para as quais a recepção dos sacramentos corre o risco de não passar de actos isolados e alheios à vida quotidiana.

Sem poder alargar-me aqui sobre o modo de abordar os diferentes sacramentos, gostaria de vos convidar a aprofundar especialmente a reflexão sobre o sacramento do matrimónio, na sua dimensão de sinal da Aliança e do amor fiel de Deus. A crise do matrimónio e da família requer uma renovação do sentido cristão deste sacramento, que deveria levar os casais a testemunhar uma concepção autêntica do matrimónio, à imagem da relação de Deus com a humanidade.

Também referis que o sacramento da penitência está a passar por uma grande desafeição. Isso tem a ver com muitos motivos, nomeadamente de ordem cultural, como o individualismo actualmente difuso, ou ainda com mal-entendidos acerca das exigências morais, sobre o sentido do pecado e da relação com Deus. É um serviço a prestar não renunciar a fazer reflectir seriamente os nossos irmãos e irmãs, à luz do Evangelho que revela "Deus rico em misericórdia" (Ef 2, 4). A aposta é essencial para homens e mulheres a quem, por vezes, o pecado acabrunha, mesmo que não sejam capazes de o nomear, e que recuam perante a confissão, desconhecendo o dom admirável que o Pai nos concedeu por Cristo Salvador, e negligenciando a necessidade, para uma consciência com o peso duma falta grave, de recorrer ao sacramento do perdão antes de receber a Eucaristia. Que os padres não minimizem o alcance do ministério da reconciliação, sem dúvida exigente, mas fonte de paz e de alegria para aqueles a quem se revela o amor misericordioso de Deus».

Recordando afirmações suas datadas de 1984, João Paulo II concluiu o seu discurso insistindo em que «há que ter presentes, do modo mais equilibrado, a parte de Deus e a parte do homem, a hierarquia e os fiéis, a tradição e o progresso, a lei e a adaptação, o particular e a comunidade, o silêncio e o impulso coral. Deste modo, a liturgia da terra religar-se-á à do céu, onde […] se formará um só coro […] para elevar a uma só voz um canto de louvor ao Pai por Jesus Cristo».

S.D.L.