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| Os problemas resolvem-se se, em vez de os pormos no meio da mesa e nos colocarmos, uns tantos de cada lado, como negociadores, pusermos de um lado os problemas e doutro todos os que os querem resolver. |
| Jean Monet |
Assistimos há dias a um debate sobre Empresa, Emprego e Exclusão. Estava gente da área dos trabalhadores sociais e gente do mundo empresarial. Uns a dizer - Solidariedade é preciso; outros a responder - Não temos nada com isso.
A nossa cultura assimilou esta visão maquiavélica, este modo de olharmos as coisas de ângulos diferentes, e com este olhar vesgo criámos na própria vida social divisões e abismos que nos afligem mas não somos capazes de transpor.
Excluídos são todos os que têm de ficar às portas da cidade - desempregados, deficientes, doentes, idosos, minorias étnicas, fragilizados de vária espécie. Os que podem fruir de plenitude dos bens da vida não ignoram a existência destes marginalizados, mas sentem-se impotentes para promover uma cultura de inclusão. Desde logo porque também o seu universo está dividido. Dum lado pensa-se que o empresário existe para produzir riqueza... e exclui o não produtivo; do outro, opina-se que, se a empresa não adoptar uma prática de solidariedade, está condenada a pagar a exclusão que gera.
Discute-se ainda se a empresa é verdadeiramente uma comunidade no sentido sociológico que a palavra tem. Está fora de dúvida que contém elementos comunitários indiscutíveis: há comunidade onde houver bem comum; é uma organização de pessoas... que todas "comem à mesma mesa" pois que vivem todas do que o trabalho humano produz. Falta, todavia, um outro elemento - a intimidade que se gera na vivência em comum; a comunidade se-lo-á tanto mais quanto mais for geradora de intimidade.
Na concepção liberal, a empresa assume-se como um conjunto de bens tendentes a um fim produtivo com propósito de lucro. Na perspectiva da Economia Social fala-se de "livre empresa colectiva, com finalidade não lucrativa, operando no quadro dum humanismo de inspiração convivial, solidarista e libertária" (Albert Pasquier). Que saída?
Pierre Maurois chamou à Economia Social um terceiro sector que se apresenta como força nova e dinâmica; e Michel Rocard reconhece-lhe "um particular papel de experiência e exemplaridade" para o novo tempo. Experiência que corresponderá a uma prática mais do que a um conceito preciso; e, enquanto tal, se apresentará como exemplo novo, distinto da economia liberal e da economia estatizante e colectivista e próximo da doutrina social da Igreja: o ter e o ser ao serviço do desenvolvimento harmonioso da pessoa e da comunidade.
Já se disse que uma revolução ou é moral ou não é revolução nenhuma. A revolução moral a fazer passa pela reconversão de cada um, de tal modo que não se leve a inteligência para dentro da fábrica deixando o coração cá fora; de tal modo que não se caia na esquizofrenia de extremar dois campos de acção - um de produção de riqueza, outro de solidariedade, um de economia social, outro de economia de mercado.
Desde há mais de dez anos que se fala numa Lei de Bases da Economia Social e na Carta da Economia Social. Afinal só se conseguiu o rendimento mínimo garantido. É ainda o Estado-Providência a exercer o seu papel de protector social: não contribui, todavia, para uma mudança de mentalidade que fomente uma verdadeira cultura de inclusão. Se calhar, o segredo está na fórmula tão simples como genial do P.e Américo: " que cada freguesia trate dos seus pobres".
| Ernesto Campos |
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Muito antes de ser uma função que teremos de desempenhar com alguma frequência, ler em voz alta deverá ser um exercício permanente e deverá mesmo tornar-se um prazer. Não se trata, pois, de mera questão de alfabetização, saber ler, mas de uma verdadeira actividade artística. Requer dom e exercício bem orientado e persistente.
A leitura em voz alta leva-nos ao domínio das palavras, na sua articulação e musicalidade; à fruição dos seus sentimentos e ideias; ao domínio da frase, no seu ritmo, entoação e estilo; à posse plena, exterior e interior, de um texto. O nosso ouvido tem uma capacidade perceptiva superior à simples leitura visual. Quantas vezes, a leitura em voz alta corrige o texto escrito, dissipa dúvidas, purifica o estilo! Ler em voz alta é um exercício pedagógico bastante importante para não ser abandonado.
O texto escrito, prosa ou poesia, exige uma extraordinária capacidade criativa, frequentemente, superior ao canto. As palavras esperam que o leitor desenterre a sua musicalidade e as una numa justa e expressiva harmonia. Comparando o leitor com o cantor, Ernesto Lagouré dizia que o primeiro é o solista, ao passo que o segundo compendia toda a Orquestra. A maioria das pessoas pensa, erradamente, que é mais difícil cantar do que proferir um texto. A explicação pode vir do facto de se ser mais exigente com o canto do que com a leitura em público ou mesmo a declamação
Não deixa, pois, de ser curioso que haja quem pense que, pelo facto de saber juntar letras e palavras ou de, todos os dias, ler o jornal, saiba ler em voz alta. O Dr. Júlio Couto, no seu livro, A Arte de Dizer (edição do SDL), cita uma história curiosa, bem a propósito. O deputado Ribot teve uma importante intervenção na Assembleia Nacional Francesa. Apresentou um documento da máxima gravidade para ser discutido e aprovado. Mas como era mau leitor, a Assembleia, ao ouvi-lo, bocejava e, no fim, nem sequer reagiu. Briand que estava a seu lado, perante a generalizada apatia, não se conteve. Tomou o texto, subiu à tribuna e começou por declarar: «Este documento que acabamos de ouvir não pode ser ignorado, devemos ouvi-lo atentamente». Recomeçou, então, a lê-lo, com os dotes da sua consumada arte de dizer. Despertou a Assembleia da sua sonolência, arrancando um aplauso e, o que era mais importante, uma aprovação por aclamação.
Pior seria concerteza a presunção daqueles que entendem que a leitura em público não merece qualquer preparação, mesmo próxima (pois que o ler para eles não tem segredos) e sujeitam-se a transmitir um texto desconhecido que lhes foi entregue cinco minutos antes. O resultado é bem conhecido. É que de facto há uma importante distinção entre o saber ler (isto é, ser alfabetizado) e o ler em público ou em voz alta. E é a ignorância deste facto que leva muita gente a descuidar a leitura em público, bem como uma adequada preparação e ao infeliz atrevimento, por vezes mascarado até de virtude, de aceitar tal tarefa em qualquer circunstância.
É certo que qualquer formação verdadeiramente humanista é incompleta sem esta educação na leitura em voz alta. Com alguma frequência, assiste-se à triste realidade de ouvir pessoas muito inteligentes que transmitem deficientemente as suas ideias de forma oral. Georg Berr constatava que "um ignorante que sabe expressar-se bem, é mais ladino do que um inteligente, cuja expressão oral é defeituosa". Também não faltam pessoas abonadas em diplomas e extensos curricula que são uma verdadeira negação na arte de dizer ou de ler em público, porque hoje a Escola, sobrecarregada de matérias, não aborda assunto tão essencial para a vida, convivência e relações humanas.
Os textos bíblicos da Liturgia deverão tornar-se Palavra viva, Palavra Incarnada. Esta é uma responsabilidade inexcusável e inadiável para a Igreja. E nenhum pastor ou fiel deverá descansar enquanto tal não acontecer na sua comunidade. Não deverá acontecer com os textos sagrados o mesmo que aconteceu com o texto do citado Ribot. Mas, na realidade, o que acontece? Uma gravação da liturgia da Palavra pode ser bem elucidativa: tosses e outros barulhos que, à primeira vista, podem parecer desinteresse pela Palavra de Deus, quando, na realidade, não passa senão de desinteresse pela leitura.
Não haverá nada a fazer para alterar significativamente esta situação? O SDL oferece um Curso para leitores com a duração de três anos porque está convencido que o aspecto mais deplorável das nossas celebrações litúrgicas são os maus leitores.
| S.D.L. |
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