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Moral da história

" A natureza quer que as crianças sejam crianças antes de serem homens. Se tentarmos inverter esta ordem, produziremos um fruto precoce mas imaturo e sem gosto, que apodrece antes de amadurecer. Teremos jovens doutores e crianças velhas. A infância tem o seu próprio modo de pensar, ver e sentir. É insensato querer sobrepor-lhe o nosso". J. J. Rousseau
Este ensinamento de que a criança não é um homúnculo - que devemos ao filósofo francês do Séc. XVIII, Jean Jacques Rousseau - costuma dizer-se que marca o limiar da pedagogia moderna e vem a propósito da efeméride celebrada em 2 de Abril: o aniversário do nascimento de Hans Christian Andersen há 192 anos e o Dia Internacional do Livro Infantil.

Vem-nos dos primórdios da civilização o hábito de contar às crianças histórias de medos e mitos, de fadas e dragões, de cavaleiros e princesas, na tradição oral das amas, das mães e das avós. Mas é só quando se chega ao Séc. XIX que podemos encontrar literatura infantil e juvenil propriamente dita, isto é, dirigida e expressamente escrita para o universo das crianças e dos jovens.

Factores sociais, como a transição da família patriarcal para a família nuclear, estarão certamente na origem do fenómeno da literatura infantil. Mas não lhe será estranha, outrossim, a nova imagem da criança que Rousseau introduziu na nossa cultura. De resto, o autor do Emílio, em carta a Madame d'Epinay, como que fixa avant la lettre as balizas do que virá a ser esta literatura para crianças; e até antecipadamente intui uma psicologia educacional que Piaget virá a sistematizar nos nossos dias.

Os escritos para crianças, preconiza Rousseau, servirão para "formar o coração e o espírito"; deverão poder ser entendidos pela criança que os ouve ou lê; hão-de partir dos factos que a criança experimenta; basear-se-ão numa moral da acção e não numa moral formal; terão de adequar-se aos progressos e às faculdades do seu espírito; evitarão o ensino directo e intencional.

Só teríamos de actualizar a terminologia e ler sensibilidade e inteligência onde Rousseau escreveu "coração e espírito". Na génese da personalidade, a empatia precede a compreensão e esta a interpretação. É como quem diz, antes que a criança compreenda e interprete a história que ouve, é essencial que goste de a ouvir. O "entender" é, para a criança, escutar imaginativamente a voz que se lhe dirige e incorporá-la; e, nessa ressonância interior, encontrar a resposta criadora. Mas esse ludismo imaginante, que a história contada provoca, não deve fechar a porta aos factos observáveis pela criança; deve permitir-lhe sonhar, isto é, imaginar a partir do real concreto, que é, para ela, muito mais maravilhoso do que para o adulto.

E quanto à "moral da história", há-de ser ainda pela relação empática com as personagens, pela sensibilidade e pela emoção, que a criança se identificará com os modelos que a narrativa propõe. Modelos que cristalizarão as coordenadas do seu universo mágico e o ritmo do seu desenvolvimento; não ao jeito de farisaico moralismo ou de insípido didactismo mas com a função de despertar o sentido do Bem, do Belo, e da Verdade, através do autenticamente humano que o sonho também é.

Perguntamo-nos muitas vezes que é que a criança deve ler; e poucas vezes nos perguntamos que é que a criança quer ler ou ver ou ouvir. A verdadeira moral da história estará algures entre estes dois pontos extremos: o primeiro emana do narcisismo do adulto, ignorante de que a criança não é um homúnculo; o segundo está implícito na consigna evangélica "Se não vos fizerdes como crianças..."
Ernesto Campos
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Sinais de Comunhão (II)

A Liturgia da Palavra

Por vezes ainda vemos alguns cristãos a participarem na Eucaristia acompanhando através do seu Missal as orações e as leituras tanto do Próprio como do Ordinário da Missa. No passado esse foi o meio encontrado pelos apóstolos da Liturgia para ajudar os fiéis a unirem-se efectivamente com o Sacerdote e com a acção litúrgica que se desenrolava no Altar numa língua desconhecida e de forma mais ao menos oculta e secreta. Para alguns fiéis, com dificuldades auditivas, essa ajuda mantém intacto o seu valor. Hoje, porém, como no Pentecostes, «todos ouvem proclamar nas suas línguas as maravilhas de Deus» e, por isso, o recurso a esses meios do passado não passa de pura inércia. A menos que se pretenda «controlar» o Padre, não vá ele ter a veleidade de se desviar do que vem no livro!

Em algumas igrejas generalizou-se a distribuição aos fiéis de folhetos com os textos próprios da Missa dominical. Por vezes, trata-se do Boletim Paroquial com outras notícias e subsídios criteriosamente escolhidos em ordem à melhor participação na Liturgia e na vida da paróquia ou comunidade local. Mas, em muitos outros casos, são publicações genéricas, com uma difusão supra-paroquial, fornecendo os textos litúrgicos, eventualmente com algum comentário.

Não ignoramos o bem que esses subsídios pode fazer, sobretudo antes e depois da celebração. Com a sua ajuda muitos fiéis, enquanto aguardam o início da Missa, já se vão recolhendo e imbuindo do espírito da Liturgia em que vão participar; outros levam-nos consigo e ao longo da semana alimentam a sua vida de piedade com os textos insuperáveis da Palavra de Deus e da oração da Igreja. Mesmo durante a celebração, essas folhas podem ajudar a assembleia a participar num canto menos conhecido.

Mas também não há quem não lhes veja inconvenientes. Esses folhetos, não podendo fornecer toda a riqueza do Missal e do Leccionário (tendo em conta as muitas possibilidades de escolha e adaptação previstas pelas normas litúrgicas vigentes), acabam por contribuir para o empobrecimento da celebração. Com um papel nas mãos, os fiéis (sobretudo as crianças) tendem a distrair-se e a distrair os outros. Se não houver um permanente serviço de arrumação, instala-se nas igrejas uma desordem dispersiva, com papéis em desalinho por toda a parte. Sobretudo, há a tendência a «desligar-se» da acção comum: em vez de prestar atenção ao leitor, olha-se para o papel; em vez de sintonizar o espírito com a voz do Orante que preside à comunidade, cada qual faz as suas «rezas»; em vez duma assembleia, obtém-se uma multidão de indivíduos, cada qual isolado no seu mundo interior, seguindo individualmente aquilo que devia ser uma acção comunitária.

A Liturgia da Palavra é a primeira mesa posta aos fiéis. Mediante o ministério do leitor, realiza-se a primacial e indispensável Comunhão da Missa: muitos formam um só Corpo ao ouvirem, em directo e simultâneo, a única Palavra que salva e a que se submetem - «obedecem» - na fé. Mas será que ouvem? Que mal se lê a Palavra de Deus nas nossas Eucaristias! Hoje os leigos que se preparam com seriedade para proclamar a Palavra de Deus de forma clara e audível - felizmente já os há - ainda constituem excepção. E é com pesar que registamos o facto de serem escassas as inscrições no Curso de Leitores da Escola Diocesana de Ministérios Litúrgicos. A situação piora se tivermos em conta que a leitura em público por parte dos ministros ordenados está bem longe de ser sempre exemplar.

Deste modo continua a alastrar como uma chaga o contra-testemunho de leituras negligentes, obscuras, desarticuladas, inapreensíveis. E assim se dificulta ou até impede a Comunhão na Palavra. Deus bem quer falar; o Seu povo bem quer ouvir; mas o porta-voz lê só para si e nega-se a Deus e ao povo, não permite o Diálogo salvífico, frustra a Comunhão.
S.D.L.
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