| Última Página: | ||
Há muitas questões que hoje se põem na vida do Mundo e sobre as quais a Igreja ainda não tem firmada uma doutrina. Há mesmo áreas muito delicadas e sensíveis que brotam dos avanços das ciências e que abrem problemas intrincados e novos que exigem que muito tempo passe até que se esteja suficientemente esclarecido sobre esses, digamos, «fenómenos naturais». Assim sobre muitas questões da vida humana.
Não devia haver medo na Igreja de dizer o que não se sabe nem se é capaz, ainda de bem avaliar.
Também não pode a Igreja basear e impor, só na base da Fé, posições de doutrina sobre questões de Biologia Humana controversas e incompletamente entendidas. E isso porque são problemas complexos que envolvem mais que uma área do conhecimento, e exigem, por isso, que se levem em consideração uma variedade de valores e de normas que brotam de todas as áreas da experiência humana, e não só associados ou vinculados a um particular sistema filosófico-teológico. É uma questão de verdade.
Não duvido que a Santa Sé tem Comissões de especialistas que aconselham o Papa. Mas não se viu o que aconteceu com o Papa Paulo VI quanto à contracepção? E não se reconhece as correcções doutrinárias de Pio XII durante 1951? Creio, no entanto, que cada conferência Episcopal Nacional deveria constituir um «grupo permanente de reflexão» sobre os problemas da Vida, independentemente dos organismos de iniciativa oficial coo são as comissões de ética. Naturalmente que teólogos, filósofos, historiadores, biólogos, médicos em pleno exercício da prática clínica, obstetras e ginecologistas, pediatras, psiquiatras, gneticistas, sociólogos e juristas deveriam integrar esses «grupos de reflexão».
Não é verdade que qualquer novo avanço filosófico e teológico sobre a vida humana resulta dos progressos das diversas ciências que estudam o homem são e doente? E não é natural que essa actualização de conhecimentos leve a mudanças, e ao desenvolvimento, senão à correcção, de doutrinas, evoluindo à medida que o saber, melhor fundamentado, também evolui?
A Igreja tem já uma dura experiência no caso Galileu, entre outros, do que é tomar como mal «qualquer» mudança em áreas de conhecimento em que Ela própria não faz a investigação daquele saber específico.
Mas eu acho que há entre nós uma acentuada e intolerante mentalidade «inquisicional», ou «fundamentalista», contra quem ouse discordar no que quer que seja da posição oficial da Igreja sobre matérias que não obrigam o cristão, em consciência, a seguir. Operam-se marginalizações evidentes, senão quando até amaças se levantam...
Se eu tenho consciência cristã, sei onde a Igreja é Santa e em que matérias é infalível, e a que livremente me obrigo, com confiança e alegria.
Mas se é «testemunho» que me pedem sobre matérias da lei natural e do homem onde eu como médico tenho experiência, sou obrigado a saber o que a Igreja defende, mas não sou obrigado a repeti-lo contra a minha consciência e experiência profissional.
Um cristão fiel à Igreja, enquanto leigo responsável e adulto, não é, ou não deveria ser, um mero divulgador tautológico.
| Levi Guerra |
| Início |
A nossa assembleia dominical merece um cuidado muito particular de todos, mas especialmente de quantos se dedicam à animação da celebração litúrgica: acólitos, leitores, salmistas, coros, organistas e directores do canto e da música.
Ainda, recentemente, uma Carta circular da Comissão litúrgica do Comité central para o Grande Jubileu, vem lembrar que não há guia mais seguro, tradicional e, ao mesmo tempo, pedagógico para viver este primeiro ano preparatório do grande Jubileu, centrado na Pessoa do Verbo incarnado, que a própria Liturgia. E se ela não esgota toda a actividade da Igreja, mas deixa espaço para outras formas de apelo à fé e à conversão, para a catequese, para o compromisso activo em obras de caridade, de piedade e de apostolado, é contudo a fonte e o cume de toda a acção da Igreja, contribuindo em sumo grau para que os fiéis exprimam na sua vida e manifestem aos outros o mistério de Cristo e a genuína natureza da verdadeira Igreja. A Eucaristia dominical é, pois, a forma mais excelente de celebrar Jesus Cristo, mas contribui para aprofundar o conhecimento e infunde nos fiéis a virtude do testemunho de Jesus. Por isso, já não é pouco que, neste ano preparatório, as celebrações eucarísticas de Domingo sejam especialmente cuidadas, no que respeita, à Palavra e ao silêncio, ao Canto e à Música, aos gestos, atitudes e movimentos, ao ambiente, ao ritmo, equilíbrio e harmonia, em suma, a uma autêntica estética litúrgica e espiritualidade.
Importa referir que o espírito deste Jubileu não aponta tanto para realizar algo de extraordinário (embora tal não se exclua), como sobretudo para viver o ordinário de forma extraordinária. Ao propor esta forma de celebrar este Grande Jubileu, o Papa aponta para a recepção mais plena do Concílio, o grande acontecimento deste século, que significa uma especial passagem do Espírito pela sua Igreja. No plano da celebração litúrgica há ainda muito a fazer para aplicar, em todos os lugares, o espírito (senão a letra) da reforma do Concílio. Ora a Eucaristia dominical foi, desde sempre, e é o grande sinal da Igreja de Cristo, convocada pela Palavra de Deus e convocante, pela acção do Espírito Santo. A preparação dos tempos litúrgicos, promovida pelo Secretariado Diocesano de Liturgia, tem em vista levar a toda a diocese uma ajuda efectiva para que se melhore a qualidade das nossas celebrações litúrgicas dominicais, respondendo, de forma adequada e eficaz, aos objectivos deste primeiro ano preparatório do Jubileu.
A Igreja, hoje, não pode descansar na mera transmissão da mensagem, mas deverá, se quer ser escutada, cuidar do modo, da forma de a transmitir. Aliás, quando o Papa fala de nova evangelização não quer dizer que se trate de novo evangelho, mas de novas formas de comunicação. Cuidar da qualidade das celebrações é já um imperativo inadiável e que, por defeito, explica, em grande parte, o afastamento e a desafeição de muitos pela missa dominical. O preceito dominical continua válido, é certo, mas já não é, e sê-lo-á cada vez menos, operativo.
Embora sem padres não possa haver missa, isso não basta. O próprio padre tem de ter consciência que apenas preside (e deverá fazê-lo com o zelo de quem presta um serviço de qualidade) a uma assembleia toda ela celebrante (sujeito da acção litúrgica) e que, por isso, não deve fazer (ou atrapalhar) tudo. Há uma série de serviços e ministérios necessários à acção litúrgica que se não devem dispensar e que exigem qualificação e preparação. A proclamação da Palavra de Deus exige bons leitores e não a mera função de ler. A acção litúrgica requer acólitos capazes de fazer dos gestos, atitudes e movimentos, verdadeiros e belos sinais sagrados e não meros ajudantes. O canto e a música necessitam de bons executantes integrados na oração do povo de Deus. Toda a acção litúrgica pede um trabalho de preparação, um cuidado e uma sensibilidade que se aprendem e se cultivam. Só deste modo o mistério celebrado tem os meios para se exprimir e atrair.
Nos dias 15 e 22 de Fevereiro, das 15 às 17 horas, equipas do SDL irão ajudar à preparação dos tempos litúrgicos em Penafiel (Igreja Matriz), S. Tirso (Colégio de Sta. Teresa), Porto (Seminário de Vilar) e S. João da Madeira (Centro Paroquial).
| S.D.L. |
| Início |
Elisabeth Kubler-Ross, médica suiça a trabalhar há muitos anos em hospitais dos Estado Unidos, tem-se dedicado a estudar o comportamento dos doentes em fase terminal e a ajudar os moribundos a passar o momento decisivo da sua morte. Publicou já numerosas obras, cujo mérito é de tal maneira reconhecido pela comunidade científica que lhe têm sido atribuídos inúmeros títulos de doutor honoris causa por outras tantas universidades. Pode mesmo dizer-se que não há no mundo inteiro outro cientista que tenha recebido tantos títulos honoríficos.
Não há por certo ninguém interessado pelos doentes terminais que não conheça as cinco fases pelas quais passam quase todos, a partir do momento em que se lhes afigura evidente a proximidade da morte. Foi Kubler-Ross que identificou essas fases.
Há dias, encontrei mais um livro desta cientista, em tradução francesa do alemão, que me chamou a atenção pelo seu título: La mort est un nouveau soleil. Numa época em que a morte, embora aparecendo constantemente nas televisões, nas suas formas mais violentas, é ocultada e se considera pornográfico falar dela, é uma médica, laureada pelas maiores universidades do mundo, que tem a coragem de afirmar que a morte é um novo sol. E afirma que escreve como cientista, não como crente, (que nem sei se é), insistindo em que as suas descobertas são cientificamente honestas. Teve por isso que se confrontar com alguns cientistas que, agora, após as suas descobertas, a consideram desarranjada.
Se se parte, como tantos fazem, do preconceito materialista de que o homem não é mais do que um composto de átomos e de energia, a morte do corpo é a morte do homem todo, não podendo haver mais vida para além desta que se vive no tempo. Para Kubler-Ross, convicta das suas investigações, a morte é apenas uma passagem para uma outra forma de vida, numa frequência diferente desta. O momento da morte, afirma, é uma experiência única, bela, libertadora, que se vive sem medo nem angústia. É que, como ela pensa demonstrar, a morte não é o fim, mas antes um começo radioso. E continua: a experiência da morte é quase idêntica à do nascimento. E isto, diz ainda, não é um problema de fé, mas de conhecimento experimental. (Não posso deixar de recordar a prática da Igreja de chamar ao dia da morte dos santos o dies natalis, isto é, o dia do seu nascimento).
As afirmações de Kubler-Ross baseiam-se no estudo de vinte mil casos, no mundo inteiro, de homens que haviam sido declarados clinicamente mortos e que foram trazidos de novo para a vida, alguns de forma natural, outros só depois de uma reanimação. As sua observações não dependem dos países ou das culturas das pessoas inquiridas, da sua idade ou das suas convicções religiosas.
Ela distingue três etapas, a partir do momento em que o doente é considerado clinicamente morto.
A primeira é comparada ao fenómeno da borboleta quando sai do seu casulo. A alma liberta-se do seu corpo e passa a utilizar apenas a energia psíquica, que lhe permite perceber tudo o que se passa à volta do seu corpo, sem barreiras materiais, incluindo o próprio pensamento das pessoas.
Numa segunda etapa, a pessoa toma consciência de que, tendo embora abandonado o seu corpo, continua a ser ela própria e que possui todas as suas faculdades intactas: os surdos ou mudos ouvem e falam, os cegos vêem e mesmo quem perdeu algum membro por ter chegado ao limiar da morte em consequência de um qualquer acidente, vê-se de novo na posse de todos os seus membros.
Nesta segunda etapa, há a percepção de que não existe mais nem o tempo nem o espaço. Outra constatação é a de que nenhum ser humano pode morrer só, porque, diz Kubler-Ross, as pessoas que vós mais amastes e que morreram antes de vós vos esperam e acolhem. E acrescenta: o que a Igreja conta às crianças a propósito do seu anjo da guarda é baseado em factos, porque está provado que cada ser, desde o seu nascimento até à morte, é acompanhado por seres espirituais.
Depois da passagem por um túnel, um portal ou uma ponte, o que difere de acordo com os factores culturais de cada pessoa, entra-se num estado de claridade absoluta. Progressivamente a pessoa sente-se penetrar do amor maior, indescritível e incondicional que se possa imaginar. É nesta Luz, em presença de Deus, de Cristo, ou de outro Alguém, qualquer que seja o nome que lhe derdes, que deveis ver toda a vossa vida passada na terra, desde o primeiro ao último dia, o da vossa morte.
Ora tudo isto se passa no próprio momento em que as ondas cerebrais não podem ser registadas... ou quando os médicos verificam já não haver nenhum sinal de vida.
Vale a pena continuar.
| Gonçalves Moreira |
| Início |
| Primeira Página | Página Seguinte |