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A Liturgia da "Nova Era" e os seus equívocos

No encontro dos presidentes de Comissões Episcopais da América Latina para a doutrina da fé, realizado em Guadalajara, o Cardeal Ratzinger pronunciou uma notável conferência sobre a «situação actual da fé e da teologia» (cf. Osservatore Romano de 27-10-1996). Segundo ele, «o relativismo converteu-se no problema central da fé na hora actual». Eis como o Cardeal-Prefeito da Congregação para a Doutrina da fé sintetiza o seu diagnóstico:

«Encontramo-nos, no fim de contas, numa situação singular: a teologia da libertação tinha tentado dar ao cristianismo, cansado dos dogmas, uma nova práxis mediante a qual finalmente se daria a redenção. Mas essa práxis deixou atrás de si ruína em vez de liberdade. Resta o relativismo e a tentativa de nos conformarmos com ele. Mas, o que assim se nos oferece é tão vazio que as teorias relativistas procuram ajuda na teologia da libertação para, a partir dela, poderem ser levadas à prática. O New Age («Nova Era») diz, por fim: deixemos a experiência falida do cristianismo; voltemos antes novamente aos deuses, que assim vive-se melhor».

Não é este o espaço adequado para fazer uma mais que oportuna resenha desta lúcida, atenta e bem documentada intervenção. Entretanto julgamos oportuno referir as incidências detectadas dessa crise na vivência da Liturgia católica. A propósito do movimento religioso New Age que «fornece um modelo totalmente antirracionalista de religião, uma moderna "mística" na qual o absoluto não pode ser crido mas somente experimentado», denuncia Ratzinger: «A redenção está no desenfrear do Eu, na sua imersão na exuberância do vital, no retorno ao Todo. Busca-se o êxtase, a embriaguez do infinito, que podem acontecer na música embriagadora, no ritmo, na dança, no frenesim de luzes e sombras, na massa humana. ... Os deuses regressam [...]. Se a "sóbria ebriedade" do mistério cristão não nos pode embriagar de Deus, então há que invocar a embriaguez real de êxtases eficazes, cuja paixão arrebata e nos converte ­ ao menos por um momento ­ em deuses, e nos deixa perceber num instante o prazer do infinito e olvidar a miséria do finito».

O ilustre conferencista denuncia uma atitude de «pragmatismo cinzento» a que se assiste na vida quotidiana da Igreja, em que «a realidade da fé se consome e degrada no mesquinho». Isso verifica­se, precisamente, no campo da liturgia. Damos-lhe a palavra: «As diversas fases da reforma litúrgica deixaram que se introduzisse a opinião de que a liturgia se pode mudar arbitrariamente. A haver algo invariável, seria somente o caso das palavras da consagração; tudo o mais se poderia mudar. O pensamento seguinte é lógico: se uma autoridade central pode fazer isso, por que não também uma instância local? E se o podem fazer as instâncias locais, por que não, na realidade, a própria comunidade? Esta deveria poder exprimir-se e encontrar-se na liturgia. Após a tendência racionalista e puritana dos anos setenta e, mesmo dos oitenta, hoje sente-se o cansaço da pura liturgia falada e deseja-se uma liturgia vivencial que depressa se aproxima das tendências do New Age: procura-se o embriagador e extático em vez da "logikê latréia", da "rationabilis oblatio" [culto espiritual], de que fala Paulo e, com ele, a liturgia romana (Rm 12, 1)».

O cardeal Ratzinger admite que pode haver algum exagero nesta apreciação e que nem é essa a situação normal das nossas comunidades. «Contudo, as tendências aí estão. E por isso é preciso ser-se vigilante, para que não se introduza subrepticiamente um Evangelho diferente ­ a pedra em vez do pão ­ daquele que o Senhor nos confiou».

A conferência termina, contudo, com uma nota de optimismo. Porque, apesar de tudo, «a fé completa e serena do Novo Testamento e da Igreja de todos os tempos» resiste e continua a ter chances. Qual é o seu segredo? «Porque a fé está de acordo com o que o homem é. ... No homem aninha-se um anseio inextinguível em direcção ao infinito. Nenhuma das respostas tentadas é suficiente; só Deus, que se fez a si mesmo finito para abrir a nossa finitude e nos conduzir para a amplidão da sua infinitude, responde à pergunta do nosso ser. Por isso, também hoje a fé cristã ­ e a liturgia, acrescentamos nós ­ encontrará o homem. A nossa tarefa é servi-la com ânimo humilde e com todas as forças do nosso coração e do nosso entendimento».
S.D.L.
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