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Temos de convir que não basta ser juiz para se presumir indiscutível integridade moral; e nem todos os catedráticos são sábios. Na marginalizada prostituta e no desclassificado analfabeto estão, tantíssimas vezes, tesouros de acrisolada virtude e de oculta sabedoria.
Estas obviedades conduzem-nos então a validar o critério da maioria como o melhor dos critérios possíveis. Corre-se, porém, o risco de, tomando-o como critério óptimo, o corrompermos ao aplicá-lo a todas as decisões humanas.
Vem isto a propósito da moda de usar o telefone para auscultar opiniões e com isso criar-se um simulacro de consciência colectiva; se é que não se trata pura e simplesmente de um expediente para ganhar dinheiro. Já vimos destinar os lucros destas chamadas telefónicas a instituições de assistência; mas não é essa a prática geralmente seguida a fica-nos a interrogação sobre se não é esta mais uma preversão do chamado quarto poder dos meios de comunicação social.
Mas o cerne da questão é mais profundo. É sabido que estas sondagens supõe-se exprimirem a chamada opinião pública; por outro lado, condicionam-na ou, melhor dizendo, verdadeiramente criam-na e, economizando o processo de recolha de dados, aceleram e precipitam a decisão. Uma amostra populacional dividida em duas partes, exprime opiniões que se contradizem; sendo uma maioritária e contradizendo a outra, essa se toma como verdadeira extrapolando-se para o universo inteiro. É o que se faz nas sondagens telefónicas do sim ou não. Pressupõe-se um critério de verdade que não existe; de facto, o que se mostra é que algumas pessoas pensam dum modo e outras doutro. É a única inferência que se pode fazer, o que não prova corrupção nenhuma nem o contrário. Afirmar que alguns homens são corruptos e outros não são, ambas, afirmações verdadeiras.
Trata-se, pois, de um processo falacioso porque infundamentado, ocioso porque inconsequente mas perigoso porque cria uma aparência de verdade. Já os gregos distinguiam entre opinião ingénua - doxa - e opinião racionalmente fundamentada - episteme - considerando aquela o ponto fraco da democracia, degradando-se esta em demagogia quando se abusa da doxa.
E não falemos já de que tais opiniões telefónicas são irresponsáveis porque anónimas e pura abstracção estatística sem qualquer espécie de controlo. Quem são os opinantes? Quem representam? Com que legitimidade? A que interesses corresponde a formulação das perguntas? Quem responde quando se questiona se os homossexuais devem casar? Ou se a Ministra agiu intencionalmente ao importar sangue contaminado? Ou se o aborto é legítimo?
Se a rua é a soberana fonte de decisões para quê a lei? Tudo isto põe em questão a ética dos inquéritos e dos votos e a necessidade de controlo daqueles para defesa da verdade e da democracia. Na escolha política, o voto legitima-se, abrange todo o universo e as consequências do voto recaem também sobre o votante; no inquérito opinativo com juizo ético as consequências envolvem terceiros e deixam impune o opinante anónimo. Não menos necessária que uma comissão de bioética impõe-se a criação de uma comissão socio-ética já que esta, e mesmo o simples bom senso, parece terem desertado da consciência dos opinion makers.
Se há matéria em que não têm aplicação os métodos estatísticos é no juízo ético. E não só. Também ninguém se lembraria de fazer um inquérito entre os passageiros dum avião para decidir quem deve ser o piloto.
| Ernesto Campos |
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Do Relatório da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos
Os relatórios quinquenais revelam modestas tentativas em ordem à difusão da Liturgia das Horas entre os leigos. Em algumas igrejas, sobretudo urbanas, começa a tornar-se prática comum fazer preceder a Missa pela recitação comunitária de Laudes ou de Vésperas. A Liturgia das Horas é também recitada por leigos nos encontros pastorais e de formação. [ ]
Tornou-se prática geral e pacífica, um pouco por toda a parte, a catequese de preparação para os sacramentos da Iniciação cristã e do Matrimónio. Depois de uma resistência inicial, a pouco e pouco foi-se tomando consciência do significado de uma tal exigência. Para isso contribuiu, também, certamente, a sua regulamentação nos Directórios Sacramentais. Com a sua difusão generalizada, a prática ganhou acolhimento e credibilidade.
Nota-se, entretanto, em alguns lugares, a permanência de uma diversidade de critérios e de modalidades, por vezes excessiva e não inteiramente justificável, o que em parte torna vãos os esforços dos pastores mais comprometidos. A Congregação, quando o caso se verifica e se apresenta a ocasião, não deixa de recomendar a atenta vigilância dos bispos para que não seja posta em causa a seriedade, nem comprometida a eficácia deste instrumento pastoral.
Por outro lado, colhe-se com satisfação o dado de
que vão sendo várias as Dioceses que deram início
a uma revisão das modalidades da dita catequese,
quer porque as formas tradicionais se revelaram inadequadas, quer
porque importa fazer face a novos desafios.
Relativamente ao Baptismo, a problemática que mais emerge no esquema do formulário do relatório quinquenal é a da dimensão comunitária da celebração, a do catecumenato dos adultos, a dos encontros de preparação com os pais e do protelamento do Sacramento.
Aparece bem patente como a renovação em torno do Baptismo fez descobrir o seu carácter eminentemente comunitário, superando certas práticas que o confinavam mais exclusivamente a um acontecimento da família.
A dimensão comunitária do sacramento do Baptismo exprime-se desde a sua preparação. Sobretudo em terras de Missão e onde, ou por falta de sacerdotes ou devido às distâncias, as comunidades foram reestruturadas e levadas a comprometerem-se mais na sua própria animação, o Baptismo tornou-se um acontecimento verdadeiramente comunitário. Frequentemente, há equipas especiais com a responsabilidade de preparar os padrinhos e os pais para o Baptismo das crianças, ou até mesmo para examinar a admissibilidade dos respectivos pedidos.
Nesse contexto, levanta-se a questão das exigências acerca da futura educação cristã das crianças. Por vezes, por excessos opostos, surge algum mal-estar e criam-se perplexidades. A preocupação por assegurar esse compromisso dos pais e padrinhos leva, por vezes, a adiar, se não mesmo a negar, o Sacramento a quem não dê suficientes garantias. [ ] A Congregação, na linha da Instrução Pastoralis Actio da Congregação para a Doutrina da Fé, de 20 de Outubro de 1980, convida à prudência pastoral para ir ao encontro dos sinais de fé, por fracos que estes sejam. A excessiva exigência, sobretudo nos ambientes onde campeia o secularismo, poderá acabar por apagar os ditos sinais, ao passo que a compreensão e o acolhimento dos pedidos de Sacramentos poderão favorecer a abertura para com a Igreja e dar início a um diálogo de catequese
| S.D.L. |
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O respeito por toda e cada pessoa humana, a solidariedade activa o destino universal dos bens e a promoção da paz - foram as quatro directrizes fundamentais da luta contra a fome apontados pelo Cardeal Ângelo Sodano, no Sábado em Roma, na cimeira da FAO sobre a segurança alimentar.
O Cardeal Secretário de Estado, que chefiava a delegação da Santa Sé neste Encontro Mundial, sublinhou bem a dimensão ética e espiritual do desafio que constitui a fome do mundo: "O desafio da hora actual para assegurar a segurança alimentar a todos os homens de todos os continentes não é unicamente um desafio de ordem económica e técnica, mas sobretudo de ordem ética e espiritual. É uma questão de solidariedade..."
O primeiro desses princípios -explicitou o Cardeal Sodano - é o respeito para com toda e qualquer pessoa, quem quer que seja, pois cada um, criado à imagem e semelhança de Deus, é depositário de direitos inalienáveis.
O segundo princípio recordado pelo representante da Santa Sé na Cimeira da FAO foi a solidariedade: "Se toda a pessoa humana tem a dignidade inalienável, temos de lhe prestar socorro quando está em situação de necessidade."
"Para nós, crentes, isso constitui um dever explícito que nos foi dado por Cristo" - sublinhou o Cardeal Sodano que, muito sugestivamente, recordou que este princípio cristão inspirou a melhor tradição moral e jurídica em Itália, onde há mais de 800 anos, no famoso Decreto de Graciano, se chegou a estabelecer a seguinte norma: "Alimenta aquele que morre de fome, porque se não o alimentares, estás a matá-lo".
O terceiro princípio a ter sempre em conta é o destino universal dos bens da terra. "Quaisquer que sejam as formas de propriedade, adaptadas às legítimas instituições dos povos, consideramos que se deve ter sempre em conta esta destinação universal os bens. É por isso que o homem, no uso que deles faz, nunca deve considerar as coisas que possui legitimamente como pertencendo-lhe apenas a ele; deve olhar os bens também como comuns: no sentido de que possam aproveitar não só a si próprio mas também aos outros".
Finalmente, a Santa Sé considera que a promoção
da paz deve ser também um princípio inspirado
de toda a atenção: muitas vezes as pessoas morrem
de fome por causa da guerra. "A tragédia africana,
na região dos Grandes Lagos recorda-nos claramente que
o flagelo da fome e da miséria só poderá
ser eliminado se se restabelecer a paz entre os povos".
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