Última Página:

À escuta do Tempo

"O fracasso da nossa cultura não reside sermos demasiado egoistas, mas em cada um não se amar a si próprio".
Erich Fromm

Vem um pedagogo e escreve uma obra com este título sugestivo - Escola, Quem és tu? Vem um Secretário de Estado e faz esta afirmação algo agastado: "Não peçam tudo à escola". Quer o conteúdo do livro quer a irritação do governante têm um denominador comum: à escola cabe uma função específica e exclusiva - fornecer ao adolescente conhecimentos e instrumentos de análise que são o seu capital intelectual. E nada mais; ainda que o título do livro muito mais sugira.

É suposto, sem dúvida, que isto é o essencial para formar o homem livre, a pessoa responsável, o cidadão participativo. Mas a escola, por definição, renuncia a controlar este resultado. E tem consciência de que, em qualquer caso, tal resultado é aleatório: a educação escolar nem sempre produz gente bem educada. Dir-se-ia mesmo que cada vez menos.

Jean-Marie Domenach faz um diagnóstico pessimista da situação do ensino secundário na Europa - está moribundo. Nascido do humanismo renascentista não foi capaz de se adaptar aos progressos da ciência e da técnica, não acompanhou as mudanças sociais, políticas e artísticas. Desajustado da realidade vivida pelos estudantes, o humanismo clássico, diz Domennach, começou a ser minado pelos mestres da suspeita, de Nietzsche a Marx e a Freud e, desacreditado pelas filosofias existencialistas e estruturalista, acabou às mãos da contestação estudantil em Maio de 1968. E com ele também a escola e a relação pedagógica foram abaladas. Vem depois, o boom da comunicação social, nomeadamente da Televisão, em concorrência com a escola tradicional. E nunca mais esta soube responder adequadamente à pergunta - Quem és tu?

Preconiza Domenach que, mais importante do que simplesmente acrescentar, retirar ou previlegiar certas matérias nos curricula do ensino secundário, há que: Primeiro - valorizar as grandes obras do património da humanidade; segundo - constituir um ideal de homem a partir das grandes personagens do passado: terceiro - atender à transformação social e à plena integração europeia. E aqui estala a polémica, sobretudo quanto às primeiras proposições. A terceira, por progressista, considera-se que, precisamente, anula o passadismo da primeira e da segunda.

À falta de referências sólidas, numa sociedade que "destruiu as suas ligações com uma ordem antiga baseada na religião" (Domenach), quer a escola como instituição quer os próprios educadores perdem muitas vezes o norte e deixam-se envolver em ventos que já não são os da história; sopram dos lados dum futurismo inconsequente mascarado de clarividência. Que grandes obras do passado - dizem- se as maiores estão ainda a ser geradas no ventre do futuro? Que tipo de homem? A idade média formava o cavaleiro e o clérigo; no renascimento educava-se o humanista e preparava-se o legista; no sec. XIX, o gentleman e o homem de negócios. Hoje, o homem livre só se tem a si mesmo como modelo. A escola nova, de facto, aponta sobretudo ao desenvolvimento da personalidade individual - actividade, criatividade, não-directividade... e também ausência de ideal cultural. O que fica desta "educação" é uma escola-fábrica-de-diplomas e um individualismo precoce insensível a valores.

Alguns pedagogos, porém, vêm sentindo, no exercício quotidiano da docência, o vazio inconsequente da sua relação pedagógica: as equações do 2º. grau, as causas da Revolução Francesa, a constituição da célula, os verbos irregulares não tornam o homem mais humano; são factos, não são valores. Educar para os valores será a saída para a reabilitação da escola e a edificação do homem. Por definição, é este - sempre foi - o conteúdo do acto educativo: transformar para melhor. Não há educação sem valores e já ninguém acredita na educação neutra. Mas a questão desdobra-se em outras: para além da sua função informativa e instrutiva, que pode (deve) a escola ensinar enquanto entidade educativa? Que valores? Ensinar como?

A metodologia praticada pela escola nova corresponde, sem dúvida, a uma atitude de respeito pela pessoa do adolescente; ele não é mais uma entidade passiva, massa a moldar segundo (ou sem) quaisquer critérios. Mas, que conteúdos? Liberdade e pluralismo são compatíveis com a educação para os valores? "A liberdade, em si própria, nada é sem um fim, sem um corpo de valores que a orientam e limitam" (Domenach). E o valor humano mais excelente é essa capacidade de equilibrar a orientação e limitar a própria liberdade; é a consciência inibitória.

Numa escola confessional, sem prejuizo da elaboração pessoal da matriz valorativa de cada um, há referências claramente definidas para tal equilíbrio. Na escola pública, deverá haver, pelo menos, os valores consensualmente vigentes na comunidade em que se vive. Ponto é que a comunidade saiba claramente o que quer.

A comunidade nacional, e a sua juventude, sabe o que quer quanto ao aborto? Não quanto a fazer-se às 6 ou às 16 semanas, mas quanto à sua legitimidade; e quanto à legitimidade de o Estado legislar sobre isso? Aí está o valor da vida sobre o qual a escola não ensina nada.
Ernesto Campos
Início


FURTO E TRÁFICO INTERNACIONAL DE OBRAS DE ARTE

Seminário internacional, no 50º aniversário da Polícia Judiciária

No passado mês de Outubro, comemorando o seu 50º aniversário, a Polícia Judiciária organizou um seminário, do dia 10 ao dia 12, sobre o furto e tráfico de obras de arte. Tal iniciativa merece o aplauso de todos pela quantidade de intervenções e de representações e pela qualidade de algumas apresentações. Como não podia deixar de ser, o tema centrou-se sobre o furto e tráfico. Estiveram presentes diversas instituições que lidam com os bens culturais: para além das polícias portuguesas, polícias de outros países europeus, instituições estatais (IPPAR, IPM, Direcção das Alfândegas), instituições eclesiásticas (Comissão Nacional de Arte Sacra e do Património Cultural da Igreja e várias comissões diocesanas), instituições privadas (Associação Portuguesa de Antiquários, Associação Portuguesa de Livreiros Alfarrabistas, Bancos, etc.). Foi levantada a complexa problemática referente à defesa do património móvel (escultura, pintura, azulejaria, objectos de valor, etc.), com excepção (inexplicável!) de arquivos e bibliotecas. Todos concluíram que para a defesa do nosso património é absolutamente necessário e urgente um registo completo das peças, com fotografia a cores e, dada a celeridade com que os traficantes de hoje actuam, informatização.

Este problema da inventariação e informatização, de que tanto se fala (e tão pouco se faz…) é mais geral, infelizmente, do que à primeira vista poderia parecer. Tanto a Igreja, como o Estado, como outras instituições privadas e indivíduos que possuem ou lidam com bens culturais, ainda não tomaram suficientemente a sério o assunto. Nota-se, ultimamente, alguma movimentação neste campo, nomeadamente, por parte da Igreja que, com parcos recursos, humanos e financeiros, vai tomando consciência, instada por diversos quadrantes, nomeadamente pela Santa Sé, da importância de conhecer o seu património e de o utilizar também de forma pedagógica e de o defender.

Percebeu-se, neste seminário, que, até na própria defesa, se torna imperioso juntar as diversas instituições responsáveis e debater, em conjunto, os problemas de cada uma delas, a fim de, no respeito da identidade e das finalidades de cada, concertar uma acção comum. Se as instituições se ignoram e teimam caminhar paralelamente ou de costas voltadas e se o Estado se arroga, passando por cima de todos, a legislar sobre uma matéria que não domina, são os bens culturais de um povo, a sua identidade cultural e espiritual, que saem prejudicados. As mais recentes iniciativas do Estado têm ido, infelizmente, nesta linha.

O problema da defesa do património cultural não diz só respeito a Portugal. Aliás, os casos de roubos de obras de arte em Portugal não têm grande expressão comparados com os de outros países europeus (também não possuímos um património tão extenso como outros países europeus, nomeadamente, Itália, Espanha, República Checa, etc.). Isto não significa que possamos ficar de braços cruzados, pois que o roubo (ou, pior ainda, a danificação) de uma só obra de arte que seja representa um grave prejuízo cultural e o fenómeno continua em expansão, com novas motivações e processos cada vez mais sofisticados.

Já há alguns anos que se iniciou, na diocese do Porto, a inventariação dos bens culturais e a sua informatização. Para além da estrita obrigação de todos os responsáveis pelas instituições eclesiásticas de procederem à catalogação do seu património, por determinação da Santa Sé, do Bispo da diocese e da Conferência Episcopal, segundo o modelo proposto pelo Secretariado Diocesano de Liturgia, o mesmo Secretariado tem passado pelos encontros de padres, contactado comissões de leigos, a fim de esclarecer dúvidas, prestar esclarecimentos e propor ajudas para a sua execução. Este processo complexo e longo continua. Fazêmo-lo não apenas para defender - o que por si mesmo já se justificaria - a nossa identidade religiosa (os bens culturais da Igreja são a memória histórica de um Povo crente e, inseparavelmente, de uma Nação), mas por uma motivação verdadeiramente pastoral. Com efeito, os bens culturais da Igreja são uma fonte permanente de evangelização, estímulo para uma constante inculturação e modelos de criação artística. Aprender a lidar com os bens culturais da Igreja significa aprender uma forma excelente de evangelização, de pastoral.
S.D.L.
Início


Primeira Página Página Seguinte