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Quando se comemoram 450 anos da sua vinda para Portugal e quando
tanto se fala da problemática do ensino, vem a propósito
um juizo sobre o contributo que os jesuítas têm dado
à educação da juventude.
Vieram para ir evangelizar "os novos mundos descobertos",
mas D. João III quis que alguns ficassem porque também
a juventude do reino precisava de ser educada e a Universidade
de Coimbra reformada. O próprio rei teve um mestre jesuíta.
Se é certo que acção da Companhia de Jesus
se destacou em campos vários - Política, Missionação,
Arte, Ciência e Cultura, é particularmente importante
o papel que desempenharam no ensino secundário e superior,
marcando até hoje gerações sucessivas de
alunos.
O sinal do seu êxito educativo está nos muitos colégios
disseminados por várias partes do mundo: foram os primeiros
a criar uma rede escolar orgânica em todo o império
português desde o século XVI. Mais que considerar,
porém, o aspecto quantitativo da sua influência educativa,
importará vermos as razões do seu sucesso. Polémica
como tem sido sempre a sua actividade, interrogamo-nos: é
virtude intrinseca da sua dinâmica ou mera conjugação
de circunstâncias mais ou menos artificiosas?
Surgem num contexto sociocultural agitado. O mundo amplia-se,
o comércio alarga-se a outras terras e outras gentes e
desloca o eixo da alta finança do Mediterrâneo para
o Atlântico. Levantam-se questões cientìficas
novas e revolucionárias técnicas de navegação.
A burguesia liberal é quem dita as regras da economia.
Em séculos anteriores a mesma burguesia procurou a cultura
universitária para estudar o Direito Romano e com isso
ajudar o Soberano a organizar o Reino. Agora lêem-se os
clássicos porque o latim é instrumento de acesso
à Magistratura, à Diplomacia, às Ciências
Experimentais, à Filosofia, à Teologia; ao saber,
que é o verdadeiro poder, e permite olhar mais lucidamente
os problemas novos - científicos, morais, religiosos, sociais,
culturais: Como medir a longitude? Geocentrismo ou heliocentrismo?
Que liberdade para os gentios? Evangelizar impondo ritos ou assimilando
costumes? Que modelo de relações, para não
sermos os "cafres da Europa", como dizia o P. António
Vieira? Que leis para as gentes e terras descobertas? Aculturação
com que limites?
É um surto de crescimento que, como todas as crises, envolve
contradições e antíteses: a visão
optimista do homem e da vida, por um lado, por outro, o sentimento
de prudência, insegurança, o pessimismo sobre o presente
e o futuro. "Nem Deus está seguro no Sacrário",
diz ainda o P. António Vieira.
Neste clima de desnorte, os jesuítas têm o mérito
de saberem com clareza e determinação o que querem
e para onde caminham. Reconhecendo as aspirações
humanistas da juventude burguesa, propõem-se um objectivo:
educá-la para os valores cristãos na fidelidade
à Igreja e ao Papa, "para maior glória de Deus".
Afrontando mesmo, seja os colonos do Brasil que escravizavam os
índios, seja a Inquisição e os seus responsáveis,
seja o próprio Rei quando o conflito se abre entre a Igreja
e o Estado. Tal objectivo realiza-se através dum método
rigoroso e pormenorizado - a Ratio Studiorum, regulamento
pedagógico, verdadeiramente o 1º. programa de estudos,
definindo conteúdos e processos, espécie de regra
para professores e alunos, que tem em vista, sobretudo, desenvolver
a expressão oral e escrita, em latim, através de
emulação entre os alunos, récitas, teatro,
sabatinas, debates.
Porquê e para quê este culto da palavra? Na Grécia,
perante os filósofos que se contradiziam na definição
da substância primordial de que é feito o mundo,
os sofistas voltam-se para o homem e o que é exclusivo
dele, a palavra; cairam no relativismo mas descobriram o homem
como a medida de todas as coisas e a palavra como a morada do
ser. É assim em épocas de desorientação;
quem sabe organizar o discurso torna-se o guia providencial.
A Companhia de Jesus encontrou resposta adequada para as eternas
questões da pedagogia: Ensinar o quê? Como? Ensinar
a usar eficientemente a língua universal do tempo, o latim,
como instrumento não só de exposição
mas também de organização do pensamento;
dando ao ensino uma feição lúdica e rigorosa;
racionalizando o tempo lectivo; dispondo de abundantes instrumentos
didácticos; atendendo mais aos dotes pessoais do que ao
saber memorizado; cuidando do trato pessoal e do conhecimento
psicológico dos alunos; escolhendo os reitores, prefeitos
de estudos e mestres segundo critérios de rigorosa ortodoxia.
Este o ponto fraco; acusam os jesuítas de avessos à
crítica e à criatividade, desconfiados da curiosidade
intelectual, resistentes a toda a inovação. Os seus
maiores detractores são curiosamente os que com eles mais
conviveram. Contraditoriamente; afinal é quem critica que
(se) acusa de falta de sentido crítico.
E outro aspecto, cremos que não suficientemente acentuado. No fim do Sec. XVI e primeira metade do Sec. XVII, com a ocupação filipina, a produção literária portuguesa era muitas vezes escrita em castelhano; o português estava quase reduzido a língua regional. O estudo intensivo do latim terá reduzido a expansão do espanhol; e foi a Língua Portuguesa que beneficiou... e resistiu. Também isso lhes devemos.
| Ernesto Campos |
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Este homem não é o profeta Ezequiel: é um bom cristão, pai de família. Contudo, quando sobe ao ambão, acontece-lhe algo que já aconteceu ao profeta: «Mas, quando Eu falar contigo e abrir a tua boca, então lhes dirás: Assim diz o Senhor Javé ».(Ez. 3, 27).
Seja quem for, leitor ou a leitora, ou seja qual for a leitura
bíblica que deva fazer, esse homem ou essa mulher encontram-se,
subitamente, numa situação semelhante: Deus fala-lhe,
Deus abre-lhe a boca, Deus dá-lhe a missão de falar
aos homens em Seu nome.
1. «Quando eu falar contigo ». O leitor não pode deixar de ser o primeiro «ouvinte» da Palavra de Deus. Como poderia ser doutro modo se ele quer falar em nome de Deus? Talvez tenha receio ou esteja deveras preocupado porque se dá conta, justamente, de que as palavras que vão sair da sua boca, não são banais, mas têm um peso enorme e são portadoras de vida. Por isso, desde há vários dias, preveniu-se e trabalhou intensamente para dizer bem essa leitura: preparou-a cuidadosamente e meditou-a frequentemente. Assimilou a leitura. Sabe-a de cor, senão com a mente, certamente com o coração.
Como é possível que alguém se atreva a realizar tão importante ministério, sem preparação, passando os olhos pelo texto, a correr, durante 10 minutos antes? Ou que convicção pode ter um leitor, mesmo que seja tecnicamente bom, quando aceita o convite dentro da própria celebração? Ninguém duvide: um bom leitor não aceitaria
2. « E abrir a tua boca ». Este leitor é o senhor Fulano ou senhora Fulana Pouco importa! Eis que Deus que ninguém conhece a voz, que « nunca ninguém viu» (Jo. 1, 18), para nos falar, abre a boca de um de nós. Para nos falar, Deus escolhe a nossa linguagem, na sua rica variedade de palavras, expressões, estilos, sonoridades E serve-se da nossa voz, com a sua paleta diversificada de entoações, extensões, tonalidades e coloridos Sem a nossa boca, sem o nosso coração Deus não poderia falar ao seu povo.
Para isso, o leitor precisa de adquirir uma técnica e uma sensibilidade.
É corrente e generalizada a convicção de que se sabe ler. Aliás, dizer a alguém que não sabe ler ou que não lê bem pode soar a insulto, numa sociedade que se diz alfabetizada. Evidentemente que há uma diferença abissal entre ler uma notícia ou um artigo de jornal para um amigo ou vizinho e proclamar ou declamar um texto para um numeroso auditório. Para além de qualidades que são quase inatas, há técnicas que devem ser adquiridas e, permanentemente, desenvolvidas.
Para além da necessidade de uma preparação técnica, se quisermos mecânica (respiração, articulação, pronunciação), há toda uma mais complexa e difícil formação da sensibilidade que implica um conhecimento e domínio dos estilos bíblicos e litúrgicos.
E para além de tudo isto, há, ainda, os mil e um problemas que a celebração litúrgica põe ao leitor (acústica, megafonia, etc.) e que não é possível aqui enumerar. Tudo isto para que uma voz se faça ouvir.
A formação de leitores é urgente e requer mestres preparados na Arte de Dizer.
3. «Então lhes dirás ». Este leitor e esta leitora não falam de si. Não estão no ambão para tomarem a palavra. É a sua voz que ouvimos, masculina ou feminina, grave ou aguda, firme ou doce. Mas a Palavra é de Deus. Este leitor, esta leitora não escolheram as palavras, nem as imagens, nem o estilo. Deverão conhecê-los e assimilá-los para poderem transmitir correctamente. Estão ao serviço de um Deus que se quer fazer ouvir e não tem outros meios para isso a não ser as nossas vozes.
4. «Assim diz o Senhor Javé ». O segundo Concílio do Vaticano, na Constituição sobre a Sagrada Liturgia, n.º 8, fala dos diferentes modos pelos quais Cristo se torna presente na Assembleia litúrgica: está presente na sua Palavra, pois é Ele que fala quando na Igreja se lêem as Sagradas Escrituras.
A Escola Diocesana de Ministérios Litúrgicos oferece aos leitores uma preparação razoável e adequada. Poderão os leitores prescindir dela?
| S.D.L. |
| Início |
A iniciativa pertenceu a uma obra católica de larga tradição, fundada por um cardeal que no seu tempo desenvolveu um notável esforço pastoral de evangelização da cultura. Cusanuswerk (assim se chama esta obra em homenagem ao seu fundador), preocupa-se em fazer uma ligação entre fé e cultura. Com esta preocupação está organizada em toda a Alemanha, acompanhando o desenvolvimento daqueles estudantes que revelam singulares capacidades científicas e que desejam fazer uma caminhada de fé em consonância com as descobertas que vão fazendo nos ramos do saber em que se estão a especializar. Aqueles que vieram a Portugal representam por isso grupos de estudo e de reflexão disseminados pelas zonas da Alemanha onde estão implantadas importantes centros universitários, desde Karlsruhe, Trier e Aachen, na parte maios ocidental, até Berlim e Leipzig, na ex-Alemanha de Leste.
Todos os jovens que integraram esta visita ao nosso país fizeram um estudo que incidiu sobre uma realidade em Portugal, no domínio económico, religioso, cultural, científico ou turístico. O empenho na realização deste estudo foi uma condição necessária para poderem participar nesta iniciativa. A seriedade com que cada um revelava ter estudado o seu dossier impressionou quem pôde acompanhar de perto as comunicações feitas ao grupo antes de se iniciar as visitas. Ao mesmo tempo que davam conta do seu trabalho de investigação prévia, forneciam aos colegas elementos para uma melhor compreensão das realidades com que estavam a contactar. A mesma seriedade manifestava-se também na sequência que estes jovens estudantes davam às visitas realizadas. No fim de cada dia, faziam reuniões de balanço e de levantamento de questões, reservando também tempo para a oração em grupo e para o silêncio contemplativo.
O programa da visita a Portugal incluiu contactos com distintas realidades. Visitaram fábricas, feiras, vindimas, cidades e aldeias. Conheceram as delícias do nosso sol e da nossa gastronomia. Inseriram-se na vida da comunidade paroquial de Carregosa, perto de Oliveira de Azeméis, onde ficaram alojados durante um fim de semana em diferentes famílias. Participaram em manifestações culturais da nossa cidade do Porto e em Lisboa. Contactaram com instituições alemãs a actuar no nosso país. Foram recebidos na Assembleia da República. Dialogaram com um grupo de padres e de leigos da nossa Diocese, manifestando um vivo interesse pela situação da nossa Igreja. Num encontro havido na Casa Diocesana de Vilar, puderam conhecer aquilo que se estava a fazer entre nós n o âmbito da pastoral universitária, interessaram-se pela situação e pelo estilo de vida dos pastores, colheram informações sobre a formação ministrada nos seminários diocesanos e sobre a presença da Igreja no mundo da comunicação social.
A nós, que estamos muito pouco habituados
a ver iniciativas pastorais vocacionadas para o encontro entre
a fé e a cultura, ficou o estímulo a que nos deixemos
contagiar por este exemplo vindo da Alemanha. Tanto mais que,
da parte dos germânicos, foi manifestado o desejo de futuros
contactos com a Igreja em Portugal. Numa altura em que as fronteiras
se esbatem, importa criar laços e experiências eclesiais
com os quais se possa contribuir para uma União Europeia
fiel seu património espiritual e tecida pela identidade
cristã que modelou o velho continente.
| M. R. |
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