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Paz social e luta contra a droga foram alguns dos temas abordados pelo Papa João Paulo II num discurso dirigido aos bispos da Bolívia em «ad limina», Roma.
Perante as crescentes atitudes de intolerância e de falta de diálogo, o Papa afirmou que a paz social é um valor muito importante e delicado e que não pode ser posto em perigo. E, por isso, merece atenção, admiração e vontade de contribuir para a sua manutenção, favorecendo adequadas medidas de promoção e de desenvolvimento, especialmente em favor daqueles que não são capazes de viver níveis mínimos de vida, humanamente aceitáveis.
João Paulo II referiu-se ainda à produção
e tráfico de droga salientando que é indispensável
proclamar e difundir a cultura da vida. E enalteceu a atitude
da sociedade boliviana de se ter empenhado na luta contra o narcotráfico
que gera comportamentos sem escrúpulos, característicos
de autênticos comerciantes da morte.
«Estou convencido que o maior contributo que os chefes espirituais e as organizações religiosas possam dar na mediação para superar os conflitos é permanecerem fiéis ao espírito autêntico da sua religião e ensinar, com a palavra e com o exemplo, as virtudes da justiça, do perdão e do amor» - afirmou o arcebispo John Foley, presidente do Conselho Pontifício para as Comunicações Sociais, num encontro sobre o tema geral «A diplomacia preventiva: a terapia da mediação». No encontro, participaram diversas personalidades, entre as quais o Secretário Geral da ONU e o Secretário da Organização para a Unidade Africana.
Mons. Foley falou do papel dos chefes espirituais
e das organizações religiosas na obra de mediação
ou na tentativa de prevenir qualquer tipo de conflito. E recordou
alguns casos de decisiva acção da Santa Sé
para evitar uma guerra entre a Argentina e o Chile na disputa
sobre o Canal de Beagle, a imparcialidade de João Paulo
II na guerra das Falkland-Malvinas em 1982 que opôs a Argentina
ao Reino Unido, o contributo do representante especial do Papa
para a trégua na recente disputa de fronteiras entre o
Equador e o Perú, o papel dos bispos católicos em
Moçambique, Benin e Zaire, o sacrifício do arcebispo
católico Óscar Romero e do pastor baptista americano
Martin Luther King e os esforços do arcebispo anglicano
sul-africano Desmond Tutu, prémio Nobel da Paz.
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Um mundo em mutação permanente
Faz parte da experiência de cada um, por menos atento que esteja ao que se passa à sua volta, a verificação das transformações contínuas que sofre a nossa sociedade. Nunca, como hoje, se pôde dizer com tanta propriedade que o que ainda há pouco foi já não é e o que agora é em breve já não será.
Esta aceleração da história deve-se ao progresso incessante das ciências e das técnicas e à multiplicação das informações, que hoje se processam à escala mundial e que são facilmente acessíveis a quem quer que seja e onde quer que viva, seja embora a mais remota aldeia do interior do país.
As Transformaçõs a que assistimos atingem as ideias, fazem e desfazem rapidamente a opinião pública, modificam os costumes e influem nas estruturas económicas e políticas. Estas mutações operam-se, por vezes, com uma aceleração de tal ordem que podemos falar mais de revolução do que de uma evolução social. Quem passou pelas escolas, mesmo de nível superior, se não tiver o permanente cuidado de se actualizar, sente-se, em pouco tempo, perfeitamente desfasado do seu tempo. A vida de hoje exige de nós uma permanente aprendizagem. Também a Igreja, que tem por missão ser fiel a uma tradição, não está imune à influência destas transformações, que frequentemente desorientam e perturbam muitos espíritos, habituados em ter na Igreja um apoio sólido para as suas convicções.
Na verdade, em face de todas essas permanentes transformações e dos problemas novos que surgem como sua consequência, é preciso buscar o essencial das coisas, o imutável, e isso, sendo embora muito pouco, quer na filosofia quer na teologia, é indispensável que esteja presente ao pensamento, para não se perder o rumo, na busca do mundo novo em construção, onde o homem possa ver assegurado o seu lugar de dignidade. No que se refere à filosofia, vai por aí uma grande desorientação, porque simplesmente se nega que haja algo de essencial, que unifique os conhecimentos. Quanto à teologia, a Igreja continua a fazer um esforço, por vezes mal entendido, de conservar religiosamente o essencial da revelação, da palavra que Deus quis comunicar ao homem, palavra que é salvadora, isto é, que liberta o homem de seguir os caminhos errados que o conduzirão ao fracasso da sua vida.
A Europa demorou séculos a passar da Idade Média para a Modernidade. Hoje, alguns países, e dentro do mesmo país, alguns agrupamentos sociais, fazem o mesmo percurso em poucos anos, com todos os inconvenientes que isso envolve para a assimilação dos novos valores, com a agravante de se perderam os antigos, quer os desajustados aos novos tempos, quer mesmo aqueles que deveriam ser conservados para além de todas as mudanças, pelo que representam de conformidade com o imutável. O nosso país é um exemplo disso, não só em certas regiões do interior, mas em todo o seu conjunto, após dezenas de anos de estabilidade artificial, no que se refere por exemplo, à prática da democracia e da liberdade. Certas liberdades, as nossas evidentemente, entendem-se como um absoluto, no esquecimento de que a vida em sociedade exige o respeito pela liberdade dos outros.
Estas transformações atingem o quer há de mais profundo no homem e de fundamental para a vida, que são os valores. Os mais optimistas afirmam que os valores humanos não desapareceram, mas que apenas têm hoje um novo lugar numa escala de valorização. É certo que toda a gente entende que sempre se deve afirmar a verdade. Mas o que é a verdade? Não é, em grande parte dos casos, apenas aquilo que me convem no momento? E a justiça? E a lealdade? E a liberdade? E uma simples ética que permita o convívio social? Tratar-se-á apenas da transformação que prepara um mundo novo? Então não podemos esperar muito desse novo mundo.
Parece certo que o homem é herdeiro dos genes dos animais que estão na origem da sua espécie: a lei da sobrevivência, da competição pelo território, pela comida e pelo sexo, da violência contra os inimigos. Como escreve Alberoni, come quem está armado, quem sabe disparar, quem tem o poder, quem comanda. Come e reproduz-se, difunde os seus genes.
Mas o homem, pela sua razão, tem capacidade para se elevar acima desses instintos animalescos e para organizar a sua vida pessoal ou social, em termos que correspondam ao seu estatuto de ser racional. E é isso que tem feito, apesar de todos os retrocessos, ao longo da sua história, que é a história da cultura que ele próprio criou. Tudo o que se afasta deste caminho cultural, baseado na razão, no amor de que só o homem é capaz, na liberdade, é retrocesso cultural. Uma nova civilização não pode construir-se na base de outros conceitos, sob pena de causar a destruição do homem. Se, como diz Alberoni, apenas sobrevivem os filhos de Caim, porque Abel está irremediavelmente morto, então é o mesmo homem que está irremediavelmente morto.
Se o homem não se sente servidor da verdade, em busca permanente do bem, mas procura apenas afirmar-se a si próprio, à sua verdade e à sua fé, procura impor-se e triunfar, segundo a Vontade de Poder de Nietzsch, como lembra ainda Alberoni, então não podemos esperar nada da civilização que se prepara. Por isso se disse já que o homem do século XXI ou será religioso ou não será simplesmente.
| Gonçalves Moreira |
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Música e Canto para uma celebração que evangelize
1. Música, canto e celebração não são realidades separadas e autónomas. As finalidades da liturgia e do canto na celebração fundem-se e harmonizam-se. São elas: a glória de Deus e a santificação dos fiéis.
2. A música e o canto para a liturgia - embora importantes e necessários, no plano da expressão simbólica litúrgica - não são fim em si mesmos; o seu objectivo não é o mero gozo estético; nem podem ter em vista apenas o espectáculo. Estão ao serviço:
- do mistério que se celebra;
- da acção ritual que o exprime;
- da Palavra anunciada e rezada.
3. A celebração litúrgica não se reduz a mera oportunidade ou pretexto para a execução de música e canto sacros. Na celebração, música e canto são em si mesmos liturgia, oração de acção de graças e glorificação
4. A música e o canto da celebração são sinal litúrgico. São chamados a assumir a função de ícone sonoro do Mistério celebrado; este sinal sonoro-artístico deve respeitar as diversas funções e os vários momentos rituais, promovendo a sua expressão mais adequada.
5. Música e canto nascem e florescem - como a fé - da escuta da Palavra de Deus. São a foz natural do rio da Palavra revelada, incarnada e rezada. Por força do Sacerdócio comum dos fiéis, o orante-cantor é sempre liturgo em Cristo, com Cristo e por Cristo, o Orante por excelência, que introduziu neste mundo o hino que eternamente ressoa nas moradas eternas.
6. Toda a celebração é prolongamento do acontecimento salvífico por excelência: da Incarnação à Ascensão do Verbo. Na assembleia celebrante, Deus Pai faz ressoar a Palavra eterna e salvífica do Filho, através das palavras (cantadas) e dos demais sinais sagrados do Rito. A música do silêncio tem aqui um lugar igualmente essencial: é o seio fecundo em que a Palavra é acolhida e adorada. O canto da Palavra potencia a resposta à Palavra divina, não só no Rito, mas também na vida renovada que se lhe há-de seguir.
7. Só são evangelizadores a música e o canto que possuam o timbre da espiritualidade. Foi o Espírito quem fez escrever a Palavra de Deus; foi Ele quem tornou possível a Incarnação do Verbo; foi Ele quem O ressuscitou e glorificou; o mesmo Espírito animou e anima a missão evangelizadora; e é sempre o mesmo e único Espírito, activo na celebração, que transforma a Palavra e o Rito em «Espírito e Vida»: é Ele também que harmoniza os diversos carismas e serviços da celebração e, concretamente, dá o tom e tonifica a música e o canto autenticamente litúrgicos.
8. A assembleia litúrgica é sempre manifestação da Igreja, «sacramento e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano» (LG 1). A comunidade eclesial que canta na celebração do encontro com o seu Senhor confirma-se na sua identidade e unidade e torna-se mais crível enquanto sinal da presença visível e salvífica de Jesus Morto, Ressuscitado e Vivo para sempre.
9. Música e canto inserem-se no caminho mistagógico que permite aos fiéis introduzir-se na experiência do mistério da salvação de Cristo, para participar na vida da comunidade com a consciência do seu sacerdócio comum e empenhar-se no mundo como «testemunhas e ... instrumentos vivos da missão da própria Igreja, segundo a medida dos dons de Cristo» (LG 33).
10. Música e canto evangelizados, penetrados pelo Espírito, tornam-se música e canto da celebração e da evangelização. Uma assembleia litúrgica que celebrou activa, consciente e frutuosamente na alegria e no entusiasmo do canto, uma vez terminada a acção litúrgica apresentar-se-á ao mundo como comunidade evangelizada e evangelizadora, que sabe cantar com a vida e com a voz as maravilhas de Deus que celebrou no Rito.
| S.D.L. (adaptação de um texto de G. Liberto, Liturgia 29 [1995] 851-853) |
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