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A sociedade em progressivo
processo de socialização

Escreveu-se, em tempos, que a Encíclica Mater et Magistra representava, por parte da Igreja, a consagração do socialismo. Se é certo que se pode falar de doutrina social da Igreja, esta é sobretudo um conjunto de normas que têm que ver com o homem e a sua inserção na sociedade à luz dos princípios da antropologia e da moral cristãs. Está longe das intenções da Igreja a formulação de uma doutrina política, ainda que, em nome daqueles princípios, afirme o seu dever de intervir criticamente em algumas decisões políticas.

Não sendo pois a doutrina social da Igreja uma tomada de posição sobre as grandes soluções políticas - os socialismos ou os capitalismos - é, no entanto, o confronto entre a consciência cristã e a realidade histórica concreta, aliás sempre em movimento.

Na Mater et Magistra, o Papa João XXIII reconhece que a socialização (não o socialismo) é um fenómeno típico do nosso tempo (n.s 63 a 72). Por socialização entende-se um processo sociológico de integração crescente dos indivíduos e dos grupos e de participação dos mesmos em actividades comuns, muitas vezes por iniciativa e sob o controle do Estado.

Sendo o homem, por natureza, um ser social, a sua tendência é para se associar em grupos que lhe possibilitem o desenvolvimento e a consecução dos objectivos que se propõe. Em virtude do desenvolvimento sempre crescente das técnicas, é maior a necessidade que o homem experimenta de se associar a outros homens, tornando, em muitos casos, a sua vida dependente dessas formas de associação. É o caso, por exemplo, dos seguros, da saúde, do ensino, dos transportes, etc. Estes grupos sociais já não se organizam apenas dentro de um mesmo país, mas, dada a facilidade das comunicações e a consequente interdependência dos povos, sente-se a necessidade de organizações supra-nacionais e a criação de zonas económicas e políticas, como é o caso da Comunidade Europeia.

O processo corresponde, pois, à própria natureza do homem, mas tem riscos, como é o caso do socialismo estatal ou o dos abusos da intervenção dos poderes públicos, o das nacionalizações indiscriminadas e o da dissolução do indivíduo no grupo.

A socialização bem entendida permite o crescimento das relações de convivência entre os homens. Dá oportunidade a um maior desenvolvimento económico e cultural e assim capacita o homem para uma mais perfeita realização pessoal.

É positivo ainda que, em virtude da socialização, o homem tome consciência de que pertence a uma grande família constituída por toda a humanidade, qualquer que seja a sua raça, a cor da pele ou o estado de desenvolvimento em que se encontre. Esta consciência de unidade deve promover, por seu lado, a troca de valores materiais e culturais, contribuindo eficazmente para o desenvolvimento solidário de todos os povos. A afirmação de que o mundo se tornou numa aldeia global lança desafios ao homem para uma solidariedade efectiva, à imagem do que acontece nos pequenos povoados que são as aldeias.

Este processo de socialização, que é uma das características do nosso tempo, tem, como tudo, o seu preço, na medida em que limita, até certo ponto, alargando-a aliás a outras dimensões, a liberdade individual, enquadrada nas liberdades dos outros e regulada pelas normas exigidas pelo viver em sociedade. Se recebemos benefícios sociais, também temos o dever de contribuir para os benefícios dos outros e para o bem colectivo. A formação da Comunidade Europeia, que traz benefícios incontestáveis para os seus membros, implica também uma limitação das soberanias nacionais, à imagem daquilo que se passa dentro da mesma sociedade, com as liberdades individuais. Os nacionalismos exagerados estiveram na origem de muitas guerras e, por isso, sempre foram condenados pela Igreja.

A socialização, se não for bem entendida e vivida conscientemente pelos cidadãos, pode representar um perigo de despersonalização. Muitas pessoas deixam de ser elas próprias, para pensarem e agirem de acordo com as opiniões mais frequentemente veiculadas pelos meios de comunicação social. O condicionamento social determinado pelos mass-media é demasiado forte para que a maior parte das pessoas se lhe tornem imunes, o que traz como consequência a indesejável massificação.
Gonçalves Moreira
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Jornadas Diocesanas para Leigos, Religiosas e Padres

O Jubileu do Ano 2000

A Igreja Diocesana vai iniciar um movimento intenso de preparação para celebrar o Grande Jubileu do Ano 2000. Diz o Papa: «O Ano 2000 convida a encontrarmo-nos, com renovada fidelidade e mais profunda comunhão, nas margens deste grande rio: o rio da Renovação, do Cristianismo e da Igreja, que corre através da história da humanidade a partir do sucedido em Nazaré e depois em Belém, há dois mil anos. É verdadeiramente aquele «rio» que com os seus «braços», segundo a expressão do Salmo, alegra a cidade de Deus» (Tertio millennio adveniente, 25).

Para preparar os novos tempos augurados pela passagem do milénio, temos de nos voltar para os ensinamentos do último Concílio que constitui, sem dúvida, «como que um anúncio dos tempos novos» (TMA nº 20), e perscrutar e aprofundar, segundo o Papa, a «enorme riqueza de conteúdos» e um «tom novo, antes desconhecido, da apresentação conciliar destes conteúdos». «... a melhor preparação para a passagem bimilenária não poderá exprimir-se senão pelo renovado empenho na aplicação, fiel quanto possível, do ensinamento do Vaticano II à vida de cada um e da Igreja inteira» (TMA nº 20). Muitos julgarão levianamente o Concílio como algo que pertence ao passado, mas, na realidade, uma observação mais profunda quer das mentalidades quer das formas de vida e das relações entre pessoas e instituições ad intra e ad entra, mostram bastante quanto o Concílio é, ainda, um grande projecto por realizar. O Papa entende, por isso, e justamente que «com o Concílio, como que se inaugurou a preparação imediata para o Grande Jubileu do ano 2000, no sentido mais amplo da palavra» (TMA nº 20). Poderíamos, por isso, sugerir um grande «slogan», com o Concílio a caminho do terceiro milénio.

Para que não fiquemos por frases feitas ou belos discursos, precisamos, todos reflectir sobre os conteúdos e linhas de força desta preparação e acertarmos um programa de acção quer para a diocese quer para as paróquias e comunidades. Nesse sentido, S. Ex.cia Rev.ma, o Senhor D. Júlio Tavares Rebimbas, convidou, pessoalmente, o Ex.mo Senhor Bispo de Ciudad Rodrigo, D. Julián López Martin, para nos ajudar nesta tarefa. Estará entre nós nos próximos dias 26, 27 e 28 de Outubro parra falar aos leigos, religiosas e padres.

Os temas serão os seguintes: Sentido, actualidade e oportunidade deste Jubileu, O Programa deste Jubileu; Iniciação cristã e renovação da Igreja.

O dia 26 de Outubro destina-se aos leigos. A sessão abre-se às 9.30 horas e encerra-se às 16.30 horas. O dia 27 destina-se às religiosas (organização da FNIRF). O dia 28 destina-se aos padres e diáconos, com início às 10 horas e termo às 17 horas.

A inscrição será 1.200$00. Se alguém desejar almoçar na Casa Diocesana deverá acrescentar 1.000$00. A cada participante será entregue uma pasta de documentação e um crachá de identificação. A fim de ajudar na dificuldade que alguns possam sentir perante a língua (o castelhano), o SDL porá nas mãos dos participantes a tradução, em português, das Conferências.

As inscrições deverão ser feitas, quanto antes e até ao dia 22 de Outubro, para Secretariado Diocesano de Liturgia - Seminário de Vilar - Casa Diocesana - R. Arcediago Van-Zeller, 50 - 4050 Porto - Tel. 600 08 24.
S.D.L.
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NOTÍCIAS DO MUNDO

Sucessor de Tutu

Winston Dunghane é o novo arcebispo anglicano da Cidade do Cabo, substituindo Desmond Tutu. A tomada de posse do novo chefe da Igreja Anglicana teve lugar há pouco, na Cidade do Cabo. Como arcebispo anglicano, Dunghane tem a difícil tarefa de continuar o trabalho do seu antecessor, nomeadamente na defesa do respeito pelos direitos humanos no país.

Mártir cigano

Zeferino Jiméz Malla, «o Pelé», assassinado durante a guerra civil de Espanha, vai ser beatificado no próximo ano. Trata-se de um cigano e será o primeiro mártir de etnia cigana a ser beatificado. No Museu Clareatiano de Barbastro encontram-se recordações de 61 mártires beatificados em 1992 e ainda do compromisso cristão feito por este mártir cigano. Na mesma data será beatificado também o bispo mártir da diocese de Barbastro, D. Florêncio Asensio Barroso.

Livreiros católicos

Mais de 100 participantes, estiveram reunidos no primeiro congresso de Editores e Livreiros Católicos da Europa, que decorreu de 5 a 8, em Praga. Representantes de 17 países, entre os quais Portugal (com a Multinova) tentaram encontrar novas formas de exercerem a sua actividade, tendo sido apontado como exemplo o francês. Os editores e livreiros católicos de França, e todos os outros não católicos mas que editam temas religiosos, publicam uma revista quadrimestral designada «Écritures Actualité de l'Edition religieuse», que tem uma tiragem de 400 mil exemplares. Vários foram os testemunhos apresentados pelos editores europeus, desde o desemprego que aflige a ex-RDA, até às campanhas orquestradas contra a Igreja Católica, um pouco por toda a Europa, e contra algumas das suas figuras, como o caso da Áustria, contra o cardeal de Viena. A actividade dos editores católicos representa hoje quase 5% de toda a actividade editorial na Europa, com maior importância na Itália e no Leste.

Congresso sobre estudantes estrangeiros

Decorreu de 17 a 19 em Roma, o 1.º Congresso sobre a Pastoral dos Estudantes Estrangeiros, promovido pelo Conselho Pontifício para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes, com o tema «o papel da Igreja no mundo dos estudantes estrangeiros». O congresso procurou definir e coordenar melhor a actividade da Igreja no acolhimento e assistência pastoral aos estudantes, durante a sua estadia em países estrangeiros. O número de estudantes fora do seu país é de mais de um milhão, distribuídos pelos cinco continentes. Os Estados Unidos, com quase meio milhão, é o país que acolhe mais estudantes, sendo seguidos pela França, Alemanha, Japão e Austrália.

"Família e Vida"

O Conselho Pontifício para a Família decidiu dotar-se de uma revista intitulada "Família e Vida", que substitui o homónimo boletim de informação. A frequência de encontros inetrnacionais sobre múltiplos aspectos relativos à família e à defesa da vida tornou necessário um instrumento de comunicação que promova mais um amplo intercâmbio de informações cientifícas. O último numero da revista "Família e vida" apresenta o documento que o Dicastério Pontifício para a Família fez publicar há alguns meses, sobre sexualidade humana. A Revista destina-se às Comissões das Conferências Episcopais, Comissões Diocesanas, movimentos em favor da vida e associações familiares.
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Olhar os feridos da vida

Constituiu, para muitos católicos franceses (e não só), momento fortemente apelativo, o encontro do Papa com grupos de pessoas consideradas marginais, tipo mendigos, drogados, homossexuais, doentes da sida, prostitutas, etc., na Basílica de São Martinho de Tours, no último dia da sua recente visita à França, Frases do género: «uma sociedade é julgada pelo olhar que lança sobre os feridos da vida e pela atitude que adopta para com eles;» ou: «a atenção para com os pobres deve marcar o compromisso temporal do cristão», proferidas naquele ambiente, devem ter soado aos ouvidos de todos como música celestial.

É um facto que a sociedade actual se encontra mais informada e mais desperta para estes problemas humanos. No entanto, também é verdade que nem sempre o conhecimento dos problemas, adquirido através dos meios de comunicação social, impulsiona a lutar pela sua resolução: muitas vezes, torna as pessoas ainda mais insensíveis a eles, sentindo-os ou como banais ou inevitáveis, sem necessidade ou possibilidade de resolução.

Mas João Paulo II aponta soluções: «Perante o aumento do número de excluídos, é preciso encontrar novas formas de vida pessoas e colectivas, que permitam superar as crises (...) e estabelecer novas formas de solidariedade, tanto no interior de cada sociedade, como entre as nações».

Para entrar no Reino (citamos ainda o Papa), é preciso «compreender activamente, de forma a aliviar os sofrimentos e romper a solidão dos irmãos e irmãs desfavorecidos».

É animador ouvir este grito. Mas torna-se doloroso confrontá-lo com a realidade, onde mal se assinalam os discípulos de Cristo. Continuamos a querer olhar para Deus que não vemos, ignorando a Sua presença nos irmãos que vemos. Olhamos em direcção errada. Erro fatal. Daí a oportunidade do convite do Santo Padre: olhai para os feridos da vida!
João Caniço
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