A Fracção do Pão(4)

A reforma litúrgica e o Missal de Paulo VI

A reforma litúrgica conciliar e pós-conciliar deteve-se neste importante rito da Missa e lançou as bases para a sua recuperação. Na realidade, os anos passaram e a sua aplicação ficou-se pelos livros, esperando ainda a sua realização celebrativa (tentaremos noutro artigo apresentar algumas propostas).

O Capítulo II da Instrução Geral do Missal Romano refere-se à estrutura, elementos e partes. Quanto à estrutura, o documento é claro: «A Missa consta, por assim dizer, de duas partes: a liturgia da palavra e a liturgia eucarística Há ainda ritos próprios, a abrir e a concluir a celebração» (nº 8). Esta formulação é precisa e claríssima: recupera a unidade ritual da Missa. No nº III, estuda detalhadamente as partes e os ritos iniciais e conclusivos.

No apartado referente à Liturgia Eucarística (C), nº 48 a 56), após referir a estrutura da liturgia eucarística, recebida do Senhor, em quatro partes (Preparação das oferendas [tomou o pão e o cálice]; Oração Eucarística [pronunciou a acção de graças]; Fracção de um só pão [partiu o pão]; Comunhão [deu-o aos seus discípulos]), fica-se por três títulos, unindo Fracção e Comunhão. E, muito embora o nº 56 destaque a Fracção, entre os outros ritos preparatórios da Comunhão, não o realça bastante como o fará depois.

É talvez importante comparar a ordenação desta parte da liturgia eucarística proposta pela reforma do Vaticano II, com a anterior.

Na anterior, isto é segundo o Missal de S. Pio V, após o Pai nosso e o embolismo, «(o celebrante) genuflecte, levanta-se, toma a Hóstia, segura-a com as duas mãos sobre o cálice e parte-a a meio, dizendo: «Pelo mesmo nosso Senhor» (trata-se da conclusão do embolismo). E a metade que tem na mão direita, coloca-a sobre a patena. Depois, da outra metade que ficou na mão esquerda, parte uma partícula, dizendo: «Que convosco vive e reina» A outra metade que tem na mão esquerda, junta-a à parte que está na patena, (o pouco que resta da fracção fica dissimulado, porque volta a unir as duas partes como se fossem uma só hóstia) e conservando a pequena partícula com a mão direita sobre o cálice, sustentado-o pelo nó com a mão esquerda, diz em voz alta ou canta: «Por todos os séculos». Com a mesma partícula, faz por três vezes o sinal da cruz sobre o cálice, dizendo: «Que a paz do Senhor esteja sempre convosco». Lançando essa partícula no cálice, diz em voz baixa:: «Haec commixtio». Segue-se o Cordeiro de Deus (completamente separado da Fracção) e três orações preparatórias da Comunhão (a primeira das quais é a oração a implorar a paz e unidade da Igreja e a que, às vezes, segue o gesto da paz).

A Ordenação actual do Missal deu uma grande volta a tudo isto. Mantém-se o Pai nosso (a que o sacerdote não tem de dizer em voz baixa o Amen, mas retoma a última frase) e o embolismo, com a doxologia aclamativa pelo povo. Segue-se o rito da paz (oração e gesto). A Fracção recupera um lugar de destaque com dois elementos principais: o gesto de partir um só pão por aquele que preside [em caso de necessidade, ajudado por outros presbíteros (Cf. IGMR 195; Cerim. Bispos 162: «O Bispo dá início à Fracção do pão» ) - nunca pelos diáconos ou outros ministros] e o canto da Fracção, [o «Cordeiro de Deus», cantado pela assembleia, pelo cantor ou pelo coro, não pelo presidente (Cf. IGMR. 113), salvo na missa sem participação de povo (Cf. IGMR 226)]. Feita a Fracção que se prevê que seja longa (Cf. IGMR 56 e ), segue-se a comunhão que realiza a finalidade da mesma (com a preparação pessoal do sacerdote e dos fiéis e o convite).

No actual Missal, a Fracção não é uma mera cerimónia perdida num conjunto de gestos e orações preparatórias da comunhão, mas um verdadeiro rito estruturado: o rito mais saliente entre a oração eucarística e a comunhão. A Instrução Geral do Missal Romano reclama-o abundantemente: «É muito para desejar que os fiéis recebam o Corpo do Senhor com hóstias consagradas na própria Missa» (nº 56 h ). «Convém que o pão eucarístico seja confeccionado de modo que o sacerdote, na Missa com participação do povo, possa realmente partir a hóstia em várias partes e distribuí-las pelo menos a alguns fiéis o gesto da fracção do pão - assim era designada a Eucaristia na época apostólica - manifesta de modo mais expressivo a força e o valor de sinal de unidade de todos em um só pão e de sinal de caridade, pelo facto de um só pão ser repartido entre os irmãos» (nº 283); « o sacerdote toma a hóstia, parte-a sobre a patena e deita um fragmento no cálice, dizendo em silêncio: Esta união (Haec commixtio). Entretanto o coro e o povo cantam ou recitam: Cordeiro de Deus (Agnus Dei) (cf. nº 56 e)» (nº 113); « Esta invocação pode repetir-se o número de vezes que for preciso, enquanto durar a fracção do pão» (nº 56 e). À vontade da Igreja de restaurar aquele rito que deu nome à celebração da Missa deve corresponder a acção inteligente e firme da pastoral litúrgica, sempre atenta e providenciando, como diz o Papa, «ao crescimento orgânico de uma árvore tanto mais vigorosa, quanto mais lança em profundidade as suas raízes no terreno da Tradição».
S.D.L.
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