Ser prevenção

1. Deve saudar-se o facto salutar, embora de irregular frequência, de a Prevenção Rodoviária Portuguesa ter decidido elaborar uma campanha de apelo aos cidadãos para que se evitem os acidentes de trânsito, tão frequentes e tão mortais em todo o mundo, mas particularmente no nosso país, que é, como se sabe, o campeão europeu dos acidentes e, pior do que isso, dos mortos na estrada, que todos os anos atingem números ainda superiores aos dois mil mortos anuais, o que para o nosso nível de motorização por mil habitantes e por quilómetro de estrada, constitui um número elevado e preocupante, particularmente por constituir talvez a principal causa de morte não natural no nosso país. Poucos pensarão seriamente nisso: morre-se muito mais em resultado de acidentes de viação do que, por exemplo, por sida, que é justamente considerado um dos maiores flagelos do nosso tempo.

O slogan utilizado pela campanha da PRP faz proclamar por personalidades conhecidas da opinião pública, em que são englobados políticos, desportistas, actores, jornalistas, gentes da moda e do espectáculo, entre outros menos "mediáticos", o seguinte dogma (as frases publicitárias constituem as fórmulas modernas de uma indiscutida e indiscutível dogmática): prevenção rodoviária somos nós.

Aparte a formulação, cuja correcção de sentido é claramente distorcida (ninguém é prevenção, chamar a alguém isso só se fosse por alcunha), a frase parece significar aquilo que não significa: algo como "a prevenção rodoviária está nas nossas mãos", ou "depende de nós", ou "todos somos responsáveis pela prevenção rodoviária". Tomadas as palavras neste sentido, deve dizer-se que é sempre positivo alertar as pessoas para a tremenda responsabilidade que lhes cabe nesta quase carnificina que são os acidentes rodoviários, onde talvez a maioria dos mortos sejam jovens, a cuja morte pouca importância geralmente se atribui. Basta ver as badaladas que soaram sobre o acidente acontecido no passado domingo num estádio de futebol, do qual se especulou até à exaustão, ou daqueloutro lamentável e hediondo crime verificado num posto da Guarda, que encheu páginas de jornais e os tempos de antena. Poucos dias antes tinham-se verificado vários acidentes, que frequentemente acontecem nos mesmos locais chamados "fatídicos", ou "curvas da morte", mas nunca em seu tempo corrigidos, como competia às entidades responsáveis, acidentes com um elevado número de mortos, geralmente gente jovem, e deles pouco se disse e quase tudo se esqueceu.

2. Ora, se aceitamos de caras que a prevenção rodoviária é uma responsabilidade de todos nós (ainda que não sejamos nós, por muito que a frase pareça publicitariamente criativa), tal responsabilidade deve ser antes de mais assumida pelas entidades responsáveis. Não nos cansaremos de repetir, por muito que a nossa voz seja pouco ouvida, que uma importante parte das responsabilidades no gravíssimo fardo de acidentes rodoviários que carregamos às costas se deve tanto a factores imputáveis à incúria, ao desleixo, à precipitação dos condutores, como a outros factores que ultrapassam a sua responsabilidade, e que devem também ser imputados às estruturas de decisão, a uma estrutura viária mal concebida e mal sinalizada, a uma inadequada legislação, à falta de educação e de civismo e mesmo a uma actuação das autoridades que se pauta mais pelo espírito da repressão do que pelo da pedagogia.

Refiram-se alguns casos: há tempos, em plena auto-estrada de saída do Porto, verificou-se uma colisão em cadeia que englobou umas dezenas de viaturas. Veio a televisão. Um agente encartado da autoridade policial declarou logo solenemente que o acidente se deveu a "excesso de velocidade" (é sempre a justificação quando não há ou não se quer descobrir as outras). No dia seguinte, veio a saber-se que, afinal, um camião qualquer tinha derramado impunemente óleo ao longo de cerca de um quilómetro. Não há prudência que resista e não há responsável que assuma a culpabilidade.

Existe uma curva, ali para os lados de Amarante, no novíssimo (e antiquadíssimo) IP4, onde em dois dias seguidos se verificaram dois acidentes mortais. No dia seguinte, aparte a correcta sinalização de "conduza com cuidado", depara o viandante com uma limitação de 60 no início de uma recta, e com uma brigada de trânsito a fotografar os automóveis em situação que não constituía qualquer espécie de perigo. Menos mal (ou pior mal?) que não faltavam almas generosas que nos avisassem pelos sinais de luzes da presença da "autoridade". Mas será esta a forma educativa de proceder?

Que queremos significar com isto? Que a repressão gera a sua própria contestação, geralmente por processos engenhosos e fabricados por códigos que ninguém inventou mas todos usam. Não os podemos censurar. Que a repressão é a pior forma de educação para o civismo, ao contrário do que se pode deduzir das formas como foi apresentado o "novo" código da estrada. Que a rede viária é responsável por um número elevado de acidentes, que resultam da sua construção mal estudada ou mal resolvida, de uma sinalização que em muitos casos atinge o paroxismo do ridículo, de uma vigilância que é tão insuficiente (são as próprias autoridades a afirmá-lo) como inadequada, vazia de sentido pedagógico e de orientação positiva para o civismo e para o cumprimento das normas oportunas.

Conto um episódio: à saída do aeroporto de Istambul, metrópole da Turquia que tem quase tantos habitantes como Portugal inteiro, apesar de se tratar de um país onde a deseducação viária se aproxima da nossa, numa auto-estrada de três vias, o condutor do autocarro guiava, como sempre aqui vemos fazer, pela fila central. Colocado estrategicamente, o agente policial apenas se evidenciou para lhe indicar a fila da direita, coisa que o condutor acatou como lhe competia. Nunca vi fazer isto entre nós. Prevaleceu a pedagogia sobre a repressão. A boa acção policial não é a repressiva, mas a educativa. É isso que nos falta. Também nunca vi, por exemplo, os agentes policiais mandando acender os faróis quando a visibilidade é fraca ou quando chove, sabido como é que noutros países tal obrigatoriedade fez baixar de forma notável os acidentes.

3. Temos muitas vezes acentuado aqui a péssima sinalização das nossas estradas. Uma má sinalização desacredita toda a outra, seja ela boa ou má. E neste domínio há situações verdadeiramente caricatas. A revista do "maior clube português" quase todos os números apresenta situações inconcebíveis mas reais. Damos também nós mais alguns exemplos. Desde os sinais escondidos que ninguém vê e ninguém corrige, até às patéticas indicações de "trânsito local", que devem ser únicas no universo inteiro, desde os sinais que serviram uns tempos e ficaram lá abandonados até que a morte os leve, desde a sinalização vertical que contradiz a horizontal e vice-versa, com tudo depara um pobre mortal por essas estradas fora. Resta-nos depois saber o que vale e o que não vale.

O resultado de tudo é o desrespeito, causador da maior parte dos acidentes. De quem é a culpa? De todos. Quem acarreta com as culpas? As vítimas e os inocentes, nunca as autoridades.

Por isso qualquer campanha que alerte para a necessidade da prevenção é bem-vinda, já que procura a interiorização de valores ou gerar factores de alteração de comportamentos. De preferência se disser as coisas com clareza e sem demagogia: a demagogia é o pior inimigo do esclarecimento. É por isso que normas apresentadas a brincar por actores cómicos que ninguém sabe quando riem, quando pretendem fazer rir sem graça nenhuma ou quando querem falar sério, são certamente o processo menos adequado para se levar a cabo uma campanha deste tipo, que deve ser de esclarecimento e não de propaganda.

Esta última campanha parece querer ser de esclarecimento. Desejamos sinceramente que seja.
C. F.


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