O Pe. Domingos Oliveira (Pároco de Lordelo do Ouro, que, com os párocos de Ramalde - Pe. Almiro Mendes - e de S. Nicolau - Pe. Agostinho Jardim - preside à Mesa da Assembleia de Párocos) abriu a sessão, lembrando a urgência de dar à "Igreja que está na cidade do Porto um rosto cujos contornos sejam expressão da sua identidade e vitalidade" e também "capaz de ser instância de sentido para seduzir o cidadão deste tempo."
D. José Augusto Pedreira, Bispo auxiliar, também presente, referiu-se, na senda do Vaticano II, à "capacidade de associativismo dos fiéis" e do clero como "uma das exigências postas à Igreja para responder aos novos desafios da evangelização dos homens e mulheres do nosso tempo", sendo este fórum um exemplo e fruto desse associativismo.
O tema proposto foi abordado em várias etapas, cabendo ao Prof. Teixeira Fernandes, da Fac. de Letras da Universidade do Porto, reflectir sobre "a construção social do espaço urbano", um espaço onde emerge a dictomia entre o espaço físico, social e cultural e no qual "as estruturas condicionam a vida das pessoas"; por isso, "a massificação das cidades tem contribuido para a criação de zonas desumanizadas".
Referindo-se ao "espaço
cultural", o dr.Teixeira Fernandes falou da "busca de
sentido numa cultura do fragmento" e situou a "cultura
urbana", associando-a ao "fenómeno da secularização".
Desenvolvendo o seu pensamento, referiu-se à "Igreja
como estrutura de significação", apresentou
os "rostos da cidade e a multiplicidade de rostos da Igreja",
questionando: "Quais são hoje os lugares de sentido?
Está aí a Igreja?".
O dr. António José da Silva, homem com passado na Comunicação Social e docente na Universidade Fernando Pessoa, referiu-se, por sua vez, "à importância da imagem e do imaginário na sociedade de hoje", uma sociedade em que, "mais do que em qualquer outra época da História, a Igreja tem de questionar-se acerca da imagem que dá ao mundo e acerca da imagem que os homens fazem dela".
"A identidade perene da Igreja" - disse - "deve transparecer num rosto que, em cada espaço e em cada época da História, seja verdadeiro, inteligível, adequado e, por isso, possível de ser amado", e seja, "em cada época e em cada espaço, o rosto de Cristo."
E como surge aos homens de hoje o rosto de Cristo? Por vezes, devido aos "conflitos", os cristãos "chegam a esquecer e a deformar a originalidade e a integralidade" do rosto de Cristo, um rosto com várias facetas que "brilham mais à luz de um tempo ou de um espaço", mas "não vêm anular as outras. Não há perspectivas contraditórias no rosto de Cristo, mas perspectivas complementares e modeladoras de um rosto integral."
Aqui e ali, a Igreja apresenta ainda "imagens deformadas (...) que persistem na sociedade portuguesa. O facto de algumas serem fruto de uma espécie de mitologia cultural não nos dispensa de perguntar porquê. Porque é que, para muitos, a imagem da Igreja é ainda a Igreja do poder, do dinheiro, do moralismo hipócrita e do funcionalismo?"
O dr. A. José da Silva concluiu afirmando que "a Igreja não pode ter vários rostos, mas tem que diversificar a sua linguagem e a sua acção nesta sociedade que é um processo de culturas e linguagens e espaço de grupos humanos tão diversos, social e culturalmente.
Apesar deste pluralismo na linguagem
e na acção, há um traço que tem de
marcar o seu rosto neste espaço e neste tempo: o espírito
de Serviço. Serviço na Solidariedade, na Cultura
e no Anúncio."
Depois de um breve interlúdio musical interpretado por um grupo de jovens (constituído por Teresa Silva, João Pedro Leite, Filipe Pina, Paulo Meireles, Luís Meireles, João Rui e Tiago Carvalho), foi a vez do Cónego Dr. Arnaldo Pinho se referir ao que considera as "tarefas fundamentais da Igreja" neste tempo em que "se impõe por parte dos crentes uma atitude positiva e sadia em face da sua grande herança, contrariando, de maneira crítica, os críticos radicais do Cristianismo, quase todos, hoje, pessoas de má fé e ressabiadas, entre as quais se encontram alguns padres e leigos pouco indentificados com a Igreja",
Citando Santo Inácio de Antioquia, o dr. Arnaldo de Pinho referiu que «quando o Cristianismo é mal visto pelo mundo, a façanha que lhe cumpre realizar não é mostrar eloquência de palavra, mas grandeza de alma», palavras capazes de iluminar a questão fundamental deste fim de século.
Nesta perspectiva, "frente a um mundo individualista e às ideologias que confiscam valores cristãos sem os ligar à sua fonte, devem os cristãos retomar a ideia genuína de serviço à liberdade dos homens, cooperando com todos os homens de boa vontade."
Assim, a posição dos cristãos face à cultura dominante deverá traduzir-se em três atitudes que passam pela "palavra evangelizadora", pela "acção solidária" e pelo "silêncio sagrado".
A "palavra evangelizadora, qualquer que seja a sua instância - catequese, homília, conselho ou teologia - tem de voltar à limpidez do Evangelho e da razão humana atendendo a dois fins: formar e edificar na fé."
Por sua vez, a "acção solidária começa por ser solidária do que melhor há no homem e nos homens melhores para, só depois, ser acção solidária com os mais marginais - ricos ou pobres - e nesse desiderato há que ter em conta a criatividade (a não repetição dos modelos) e a humanização permanente da vida."
Finalmente, frente a "uma cultura utilitária e dispersa, os nossos condidadãos estão sujeitos a um sequestro estético, em que além de não lhes ser permitido contemplar a natureza, raramente se lhes dá acesso à beleza ou à dimensão sagrada". Acontece ainda, segundo afirmou o dr. Arnaldo de Pinho, que, devido a "uma limitada concepção do que deve ser a celebração cristã, não se iniciam os homens no silêncio diante do sagrado,e, não raro, se imita o profano."
Então, frente a esta situação,
o "Cristianismo é chamado a dar acesso ao sagrado
e dar vez ao silêncio", forma de abrir o homem a "uma
cultura da esperança, numa época de busca de sentido".
Essa será "a maior tarefa dos cristãos neste
tempo de fim de século".
Durante a tarde, e após uma síntese dos temas abordados ao longo da manhã, feita pelo dr. Abílio Aranha, os participantes subdividiram-se em doze grupos que se debruçaram sobre as "atitudes da consciência cristã face à cultura dominante" e procuraram descobrir "acções evangelizadoras" capazes de "dar rosto" à Igreja deste tempo.
Como disse o Pe. Domingos Oliveira, numa cidade como o Porto, além dos trabalhos de base realizados nas Paróquias e Comunidades, "urge dar à Igreja um rosto cujos contornos sejam expressão da sua vitalidade, um espaço onde as pessoas possam encontrar um sentido para a vida". Afinal, encontrar um rosto que seja (re)conhecido pelos homens do nosso tempo, sinal da expressão religiosa para estes dias, fazendo-o com preocupação pedagógica. Dessa acção surgirão iniciativas que mostrem a presença, a unidade e a posição da Igreja face aos grandes problemas deste fim de milénio e que deixem claro o pensar e o sentir da Igreja como instituição integrada numa garnde cidade e na respectiva cultura.
Como disse o dr. Arnaldo de Pinho, "não se trata hoje de discutir com os ateus ou os descrentes, nem tão pouco cair nas malhas da estéril crítica à Igreja ou mesmo à política - deixemos esse radicalismo para os profissionais de nada -, mas de caminhar no sentido e,junto daquilo que pode conferir tanto à fé como à descrença a legitimidade - única válida - de trabalhar com o homem para o amadurecimento das suas expectativas e esperanças."
As conlusões do fórum, formuladas no plenário que encerrou a jornada, foram analisadas pelos intevenientes e serão publicadas na "Voz Portucalense" da próxima semana.
| Bernardino Chamusca |
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