Da parte das autoridades russas, parece não
existirem especiais resistências, tratando-se apenas de
ver qual seria o momento mais oportuno. Mas,, para que mais esta
viagem papal pudesse assumir toda a sua dimensão histórica,
ela deveria significar uma efectiva aproximação
da Sede Apostólica de Roma e do Patriarcado de Moscovo.
Ora, até agora, não obstante os esforços
desenvolvidos sobretudo da parte de Roma, subsiste um Clima de
tensão que não assegura as condições
indispensáveis para um frutuoso encontro do Papa eslavo
com Aléxis II.
Velhas e novas rivalidades
Moscovo vê com desagrado as relações privilegiadas de Roma com o Patriarcado Ecuménico de Constantinopla, que - não obstante inegáveis dificuldades - se vão exprimindo duas vezes ao ano com as visitas de delegações de cada uma das Igrejas às celebrações da outra (S. Pedro e Santo André), culminando com a visita ao Vaticano do Patriarcado Bartolomeu I, no ano passado.
A nomeação de um bispo católico para Moscovo, logo em 1991, foi recebida pela Igreja Ortodoxa Russa como uma afronta (tanto mais que Mons. Tadeusz Kondrusiewicz é um polaco da Lituânia). Roma apressou-se a esclarecer que não se tratava de um bispo titular de Moscovo, mas simplesmente, de um administrador apostólico para a cura pastoral dos católicos de rito latino da Rússia Europeia, e nomeou mesmo outro administrador apostólico para os católicos latinos da parte asiática da Federação russa.
A verdade é que o caso continua a alimentar
tensões com o clero ortodoxo de Moscovo, que não
vê com bons olhos o dinamismo pastoral revelado pela reduzida
comunidade católica, nomeadamente nos meios juvenis e universitários,
e através dos meios de comunicação (imprensa
e rádio). Tentativas de colaboração ecuménica
são interpretadas como mero proselitismo visando a conversão,
e rejeitadas pela raiz.
Encontrar-se a meio caminho?
Um encontro pessoal entre o Papa e o Patriarcado Russo poderia ser decisivo para a criação de condições para uma aproximação ecuménica. Verificando a frieza dos ambientes eclesiásticos de Moscovo, surgiu a ideia de promover tal encontro a meio caminho, em qualquer parte, aquando de uma das viagens de João Paulo II. A celebração dos 1000 anos da Abadia beneditina de Pannonhalma, na Hungria, em Setembro próximo, oferecia uma ocasião única, para o efeito. Criado em 996 pelo príncipe Géza, e sucessivamente engrandecido por ordem do filho, o rei santo Estêvão, este mosteiro, admirável exemplar da arte românica, foi ao longo dos séculos um importante centro de irradiação espiritual e cultural na nação húngara e mesmo de toda a Europa central, onde constitui como que uma ponta avançada da presença do cristianismo de tradição latina nos confins do mundo eslavo.
O Dom Abade de Pannonhalma dirigiu, pois, a Moscovo e a Roma, com toda a sua solenidade, os respectivos convites. O Vaticano moveu toda a sua diplomacia, não poupando nenhum contacto que pudesse abrir caminho ao desejado encontro. Em vão. A mês e meio dessas celebrações (que contarão com a participação do Papa, a 6 de Setembro), a recusa do convite da parte de Moscovo parece, infelizmente, irremediável.
O que não nos impede de continuar a alimentar a esperança evangélica de que as distâncias que subsistem venham a dar lugar à cordialidade e ao diálogo. O desejo de ver concretizado este passo de aproximação em relação à Igreja Ortodoxa de Moscovo estava decerto presente ao espírito de João Paulo II quando, há 15 dias, presidindo em São Pedro à Liturgia Eucarística de rito ucraniano-bizantino, afirmou, comovido, em língua ucraniana:
«Não podemos descansar enquanto as divisões
existentes entre nós desde há tantos séculos
não derem lugar à unidade. Cristo reza incessantemente:
Pai, faz que todos sejam um só! Não devemos abandonar
a esperança de que a oração do nosso Redentor
e Mestre produza plenos frutos. Não devemos abandonar a
esperança de que os últimos anos do segundo milénio
possam levar a novas aproximações...
JOSÉ ROMANO
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