| Pacheco de Andrade |
Fosse por ser época de Páscoa, fosse por uma recordação que não se extingue - e já lá vão dez anos que ele partiu para Deus - era de alegria, não de tristeza nostálgica, o ambiente em que todos ressuscitaram episódios, reavivaram cenários de que o principal protagonista foi aquele que, durante anos e anos, esteve ali como pastor que conhecia os seus paroquianos pelo nome, lhes sabia a data de nascimento, os acompanhava nos momentos mais marcantes da vida de cada um, estava a par das horas de felicidade e tristeza que iluminavam ou ensombravam os lares de que ele era o pároco. Mais do que pároco. Uma pessoa de família que vivia com todos eles as mesmas alegrias, os mesmos problemas, as mesmas esperanças, os mesmos sofrimentos e, também, os lutos que deixavam um vazio...
Para mim, aquele domingo de lembranças foi um regresso ao passado, ao convívio com um amigo com o qual passei horas sem fim, em conversas que se alongavam e nunca se repetiam. Um amigo que me acolheu como se acolhe um irmão. Senti-o quando entrei em Canaveses, ido da cidade e com a assustada surpresa de quem, pela primeira vez, vai viver numa aldeia. Depressa me fui habituando àquela boa gente, porque, ali, as pessoas eram simples, e de uma fidalguia de sentimentos e de trato que nunca esquecerei. O Padre Aires tinha passado por lá, foi em Canaveses que se estreou como pároco, e a sua maneira de paroquiar, perdoe-se-me a imagem, era andar com o Evangelho no bolso, para o dar aos seus paroquianos, em gestos e em palavras, em qualquer momento e qualquer lugar, fosse em casa, na estrada, no campo, no desempenho das tarefas, sempre num desafio a que todos crescessem por dentro, como pessoas e como cristãos. Como diria o Padre Manuel Bernardes, era o «pão partido em pequeninos». E por todo o lado.
Naquele domingo em que muitos nos encontrámos, em Constance, para lembrarmos o Padre Aires, foi lançado um livro com o expressivo título: «Padre Aires, Pai e Amigo».
Quase todas as páginas são de palavras
suas que, já cego, foi ditando a um paroquiano que ele
encaminhou para o seminário, e que é, hoje, o Padre
António Augusto, SCJ. A amizade e o sentido de gratidão
deste jovem sacerdote foram os olhos do Padre Aires. Assim, foi
possível que ficasse, para todos nós, a sua mensagem.
Nela perdura o testemunho de alguém que encarnou a fé,
no dia-a-dia, e que deixou ficar, para aqueles que ainda o amam,
a memória de uma vida. Sobretudo, o exemplo do pastor que
agasalhou sempre o seu rebanho, e que este, em gesto de gratidão,
perpetuou num busto de bronze, que devia estar ao lado da igreja
que o Padre Aires tantos anos serviu.