Conclusões do fórum "O Rosto da Igreja no Rosto da Cidade"

Marketing ou Evangelho?

Decorreu no dia 1 de Maio, no auditório da Universidade Católica, à Foz do Douro, o fórum «O Rosto da Igreja no Rosto da Cidade». Reunidos para fazer o balanço da jornada, os responsáveis apresentaram, algumas conclusões que constituem pistas para ulteriores debates deste fórum. É esse texto que «VP» publica na íntegra.

1. A presença e o inte-resse de cerca de 290 cristãos leigos de todas as Paróquias da Cidade ajudam a perceber que o Encontro da Igreja na Cidade a este nível corresponde a um anseio.

Entre os participantes contavam-se oito Párocos e outros tantos Padres da Cidade e seu Aro. Esta representatividade mais uma vez leva a reflectir sobre o modo de dar continuação à estrutura Assembleia de Párocos que vem da década de 70.

O acolhimento e incansável colaboração da Universidade Católica e dos Pro-fessores Universitários sur-giram como um bom exemplo das potencialidades a explorar na mútua abertura en-tre a Igreja na Cidade e a Escola das Ciências Humanas.

2. A Igreja deve oferecer à Sociedade um rosto que seja historicamente o reflexo da sua alma.

Para além da estrutura que é a Paróquia é de desejar uma evolução na organização da Igreja e na forma de se apresentar à Cidade.

Numa sociedade que é um processo de culturas e linguagens e espaço de grupos humanos diversos social e culturalmente, também a linguagem e a acção da Igreja devem ser diversificadas. A Pastoral do Acolhimento, o espaço da homilia e de todas as formas de formação na Fé merecem, neste contexto, toda a atenção.

3. A Igreja deve (in)formar a opinião pública. Os cristãos realizam-se e revêem-se nas pequenas comunidades - revelaram os Grupos de Trabalho. Entretanto, pressente-se a necessidade de ultrapassar os limites das pequenas/grandes comunidades locais e paroquiais de forma que a Igreja dê testemunho de um rosto compatível com a Cidade. O carácter transparoquial de alguma acção de Igreja, posto em destaque nalgumas intervenções, foi saudado como desejável e muito positivo. A Igreja não tem que se confinar ao domínio do privado. O testemunho de forma directa e persuasiva é a sua razão de ser.

4. Impõe-se por parte dos crentes uma atitude positiva e sadia em face da sua grande herança comum e uma "grandeza de alma" ou "magnanimidade" perante as críticas a que o Cristinanismo está sujeito.

Face à cultura actual não há razão para os católicos terem qualquer complexo de culpa. As inquisições civis e os atentados à liberdade dos filhos da modernidade, nomeadamente do marxismo e do nazismo, foram incompa- ravelmente mais graves que os fenómenos da Inquisição e da tardia admissão da liberdade religiosa. Ser contra a Igreja e ser contra o mundo são duas formas de violência e duas formas de atentar contra a Cultura. Frente ao pluralismo moderno e frente às deficiências da vivência do cristianismo, a Igreja deve voltar à limpidez do Evangelho e da razão humana. Deve fazê- -lo em atitude dialógica em que o cristianismo se apresente como proposta válida.

5. Sem ignorar a emotivi-dade nem prescindir da afec-tividade que é necessário enquadrar, na pessoa e na Igreja, não se pode perder de vista que o cristianismo é a síntese entre o Evangelho e a razão-racionalidade. É urgente procurar uma expressão religiosa para o nosso tempo. Importa fazê-lo de forma pedagógica, aliando a emoção à racionalidade para se não cair na alienação. As emoções sem a razão não têm estabilidade nem futuro e são necessariamente redutoras das potencialidades do cristianismo.

6. A Igreja deve ter sempre uma palavra sobre o Homem, qualquer que ele seja. Importa que se interrogue quais são hoje os lugares de sentido para as pessoas - pobres, jovens, crianças, reformados - e se ela está neles. Mais do que pela família, é pela Escola, pelo emprego e pelo grupo de amigos que passa hoje a socialização e es-truturação da personalidade das novas gerações.

7. É a cidade um espaço físico, um espaço social e um espaço cultural, atravessado por uma cultura fragmentada e fragmentária. Mas a vida humana é um fenómeno global que pede à Igreja algumas iniciativas ao mesmo tempo variadas e aglutinadoras.

Assim, são de saudar iniciativas como o Catecumenato de Adultos a dar os primeiros passos, sob a responsabilidade das Vigararias. No domínio da Estética e da Cultura deverá a Igreja na Cidade participar cada vez mais nos concertos de Música Sacra e de Música Religiosa que lhe são oferecidos sobretudo no Natal, na Páscoa e no Verão.

Será para desejar que a médio prazo se possam concretizar Conferências Quaresmais feitas para a Cidade por pessoas que as sai bam fazer com competência e qualidade. Também se vai sentindo a necessidade da existência da Comissão Justiça e Paz, para analisar de maneira independente, e por ventura um de cada vez, questões e fenómenos como Habitação, Emprego, Juventude, Educação... A Universidade Católica neste campo poderá dar um contribu-to específico através de um observatório social que forneça uma observação empírica suficientemente pro-vada.

Com isto, não queremos introduzir o marketing nas actividades da Igreja. Simplesmente reflectir no sentido de que a identidade perene da Igreja transpareça num rosto verdadeiro, adequado, inteligível e por isso possível de ser amado.


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