Domingo XVIII do Tempo Comum - Ano B

3 de Agosto de 1997

Trabalhai pelo alimento
que dura até à vida eterna

Uma Leitura Dos Textos Bíblicos

«A Igreja venerou sempre as divinas Escrituras como venera o próprio corpo do Senhor, não deixando jamais, sobretudo na sagrada Liturgia, de tomar e distribuir aos fiéis o pão da vida, quer na mesa da Palavra de Deus, quer da do Corpo de Cristo» (Conc. Vat. II, Const. Dogm. Dei Verbum, 21).

1ª Leitura - Ex 16, 2-4.12-15: «Farei que chova para vós pão do céu»

No cap. Anterior, apresenta-se o povo sedento junto da fonte de água amarga que Moisés torna potável. Aqui, faminto. Aliás estas tradições estavam arraigadas no coração do povo, porquanto aparecem em duplicado (cf. Nm 11 e 20).

O termo hebreu traduzido por «pão» tem um sentido geral de «alimento». Tem havido diversas explicações naturais para o maná. A mais corrente, é tratar-se da secreção de uma árvore do Sinai, a «Tammarix mannifera», cujas gotas se solidificam no solo com o frio da noite e possui um sabor doce. Mais do que no milagre, o autor sagrado apresenta uma confissão de fé: Deus mostra-se como pai providente, socorrendo o seu povo (bebida, alimento, defesa dos inimigos, dos animais, orientação no caminho). O mesmo se aplica relativamente às codornizes (que na Primavera regressavam e, exaustas, pousavam na península do Sinai).

O texto dá uma interpretação popular do nome do maná. A literatura rabínica viu nele o alimento dos futuros tempos messiânicos.

Para compreender melhor este texto, leia-se Dt 8, 1-10.

2ª Leitura - Ef 4, 17.20-24: «Revesti-vos do homem novo, criado à imagem de Deus»

O texto começa de forma solene: «digo e testifico no Senhor». A exortação dirige-se aos novos convertidos: entre a vida no paganismo e em Cristo há um contraste profundo. A vida em Cristo impõe exigências sérias que Paulo exprime com as seguintes imagens: «abandonar a vida de outrora», o «homem velho e corrompido», «renovar a mente e o espírito». A linguagem da carta é influenciada pelas imagens da liturgia baptismal, nomeadamente a do vestido (sublinhando o possível costume de mudar de veste ao sair da água): «revesti-vos do homem novo». Na realidade, o baptismo marca o início de uma vida nova, de uma nova criação.

Evangelho - Jo 6, 24-35: «Quem vem a Mim, nunca mais terá fome; quem crê em Mim, nunca mais terá sede»

O discurso de Jesus sobre o pão da vida aparece, no evangelho de João, vinculado estreitamente ao acontecimento da multiplicação dos pães. O discurso orientará agora a busca para o pão verdadeiro que é Jesus.

Há que passar do sinal material e da concepção de um messianismo político, a um conhecimento mais profundo da missão de Jesus: que dá «a vida eterna». O pano de fundo do discurso está no relato de Ex 16 (1ª leitura). Mas, diferentemente de Moisés, Jesus exige uma «obra»: a fé incondicional em Deus e em Cristo. Para João, não há dicotomia entre fé e obras. A fé é a obra fundamental do homem.

Ante o apelo à fé, há uma reacção adversa: pedem-se sinais. Então Jesus manifesta-se como o profeta parecido com Moisés e indica que se cumpriram as expectativas messiânicas. O maná do deserto era um alimento material, prefiguração do verdadeiro alimento que é o ensino de Jesus. Leia-se Dt 8, 3.

Contudo, parece que a multidão não entende. O discurso vai tomar novo impulso a partir deste mal-entendido: o que é dado e Aquele que se dá.

Homiliário Patrístico

Procurar Jesus por Jesus

Depois do milagre misterioso, o Senhor pronuncia um discurso com a intenção de alimentar aqueles mesmos que já tinha nutrido; de saciar com as suas palavras as inteligências daqueles a quem já tinha saciado o estômago com os pães. Serão eles capazes de compreender? Se eles não compreenderem, recolha-se o discurso para que dele não se perca um único fragmento. Fale-nos, pois, e nós o escutaremos.

Jesus respondeu-lhes: «Em verdade, em verdade vos digo: vós procurais-me não porque vistes sinais, mas porque comestes dos pães». Vós procurais-me pela carne, não pelo espírito. Quantos só procuram Jesus pelas vantagens temporais! Há quem recorra aos padres para ter sucesso numa questão; há quem se refugie na Igreja porque é oprimido por um poderoso; há quem queira uma intervenção perante alguém junto do qual tem escassa influência. Por um motivo ou por outro, a Igreja está sempre cheia de gente desta. Difícil é que se procure Jesus por Jesus.

«Vós procurais-me não porque vistes sinais, mas porque comestes dos pães. Preocupai-vos não com o alimento que perece, mas com o que permanece para a vida eterna». Vós procurais-me por qualquer outra coisa; deveis antes procurar-me por mim mesmo. Já começa a sugerir a ideia de que este alimento é Ele próprio, como aparecerá claro por aquilo que se segue: «e que o Filho do homem vos dará».

(S. Agostinho, In Io. Ev. tr. 25, 10)

Sugestões Litúrgicas

1. A temática do êxodo enriquece neste Domingo o nosso encontro com o Verbo Alimentador e Alimento. Já no relato do milagre (= sinal) da multiplicação tinham aparecido significativas referências pascais. Agora é toda a 1ª leitura que renova para nós a experiência do deserto permitindo-nos, assim, acolher a riqueza da revelação evangélica. Decisivo, hoje, é o tema da fé em Jesus, o Enviado do Pai que desceu do céu para dar a vida ao mundo.

2. Este é o primeiro domingo de Agosto, marcado em quase todas as nossas assembleias por uma grande mobilidade de pessoas. Também os colaboradores mais fiéis no serviço da Liturgia podem rarear nestes domingos, o que obriga a uma preparação mais previdente das celebrações e das pessoas, de modo a não afectar o nível qualitativo da vivência litúrgica do Dia do Senhor.

3. Ocorre nesta semana a festa da Transfiguração do Senhor. Eis uma celebração a valorizar, tanto quanto possível, pela riqueza do seu mistério, também Ele penetrado pela perspectiva do êxodo: a divinização do homem de que a Eucaristia é o Sacramento por excelência tem como condição a escuta e a contemplação do Filho dilecto em quem o Pai se compraz (relação entre a Liturgia da Palavra e a Liturgia Eucarística).

2. Leitores:

1ª Leitura - Não é difícil. Deve permanecer o tom narrativo, salientando as vozes do povo e de Deus. Lembre-se o leitor que a pressa é inimiga de uma boa leitura.

2ª Leitura - Destaque-se a primeira frase. O resto do texto deverá ser dito num tom de veemente exortação.

4. Sugestão de cânticos:

Entrada: Deus, vinde em meu auxílio, F. Silva, NCT 87; cantai ao Senhor, F. Santos, BML 75, 62; Dai a paz, Senhor, M. Faria, NCT 214; Salmo Resp.: O Senhor deu-lhes o pão do Céu, M. Luís, SR(B) 120; Aclam. ao Ev.: Nem só de pão, adapt. NCT 239; Comunhão: Do céu nos deste, Senhor, F. Santos, BML 103, 25; O Senhor alimenta, F. Silva, NCT 267; Eu sou o pão da vida, M. Luís, NCT 261; Eu sou o pão vivo, Carlos Silva, NCT 263.

 

XVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM

3 de Agosto

Leitura do Livro do Êxodo Ex 16, 2-4. 12.15

Naqueles dias, toda a comunidade dos filhos de Israel começou a murmurar no deserto contra Moisés e Aarão. Disseram-lhes os filhos de Israel: «Antes tivéssemos morrido às mãos do Senhor na terra do Egipto, quando estávamos sentados ao pé das panelas de carne e comíamos pão até nos saciarmos. Trouxeste-nos a este deserto, para deixar morrer à fome toda esta multidão». Então o Senhor disse a Moisés: «Vou fazer que chova para vós pão dos céus. O povo sairá para apanhar a quantidade necessária para cada dia. Vou assim pô-lo à prova, para ver se segue ou não a minha lei. Eu ouvi as murmurações dos filhos de Israel. Vai dizer-lhes: 'Ao cair da noite comereis carne e de manhã saciar-vos-ei de pão. Então reconhecereis que Eu sou o Senhor, vosso Deus'». Nessa tarde apareceram codornizes, que cobriram o acampamento, e na manhã seguinte havia uma camada de orvalho em volta do acampamento. Quando essa camada de orvalho se evaporou, apareceu à superfície do deserto uma substância granulosa, fina como a geada sobre a terra. Quando a viram, os filhos de Israel perguntaram uns aos outros: «Man-hu?», quer dizer: «Que é isto?», pois não sabiam o que era. Disse-lhes então Moisés: «É o pão que o Senhor vos dá em alimento».

 

Salmo Responsorial Salmo 77 (78), 3.4bc. 23-24.25-54 (R. 24b)

O Senhor deu-lhes o pão do céu.

Nós ouvimos e aprendemos,
os nossos pais nos contaram
os louvores do Senhor e o seu poder
e as maravilhas que Ele realizou.

Deu suas ordens às nuvens do alto
e abriu as portas do céu;
para alimento fez chover o maná,
deu-lhes o pão do céu.

O homem comeu o pão dos fortes!
Mandou-lhes comida com abundância
e introduziu-os na sua terra santa,
na montanha que a sua direita conquistou.

 

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Efésios Ef 4, 17.20-24

Irmãos: Eis o que vos digo e aconselho em nome do Senhor: Não torneis a proceder como os pagãos, que vivem na futilidade dos seus pensamentos. Não foi assim que aprendestes a conhecer a Cristo, se é que d'Ele ouvistes pregar e sobre Ele fostes instruídos, conforme a verdade que está em Jesus. É necessário abandonar a vida de outrora e pôr de parte o homem velho, corrompido por desejos enganadores. Renovai-vos pela transformação espiritual da vossa inteligência e revesti-vos do homem novo, criado à imagem de Deus na justiça e santidade verdadeiras.

 

Aleluia. Aleluia.

Nem só de pão vive o homem,
mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.

 

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João Jo 6, 24-35

Naquele tempo, quando a multidão viu que nem Jesus nem os seus discípulos estavam à beira do lago, subiram todos para as barcas e foram para Cafarnaum, à procura de Jesus. Ao encontrá-l'O no outro lado do mar, disseram-Lhe: «Mestre, quando chegaste aqui?» Jesus respondeu-lhes: «Em verdade, em verdade vos digo: vós procurais-Me, não porque vistes milagres, mas porque comestes dos pães e ficastes saciados. Trabalhai, não tanto pela comida que se perde, mas pelo alimento que dura até à vida eterna e que o Filho do homem vos dará. A Ele é que o Pai, o próprio Deus, marcou com o seu selo». Disseram-Lhe então: «Que devemos nós fazer para praticar as obras de Deus?» Respondeu-lhes Jesus: «A obra de Deus consiste em acreditar n'Aquele que Ele enviou». Disseram-Lhe eles: «Que milagres fazes Tu, para que nós vejamos e acreditemos em Ti? Que obra realizas? No deserto os nossos pais comeram o maná, conforme está escrito: 'Deu-lhes a comer um pão que veio do céu'». Jesus respondeu-lhes. «Em verdade, em verdade vos digo: Não foi Moisés que vos deu o pão do Céu; meu Pai é que vos dá o verdadeiro pão do Céu. O pão de Deus é o que desce do Céu para dar a vida ao mundo». Disseram-Lhe eles: «Senhor dá-nos sempre desse pão». Jesus respondeu-lhes: «eu sou o pão da vida: quem vem a Mim nunca mais terá fome, quem acredita em Mim nunca mais terá sede».