O modelo de Jesus e de Judas
Uma história, a que não se pode dar mais crédito que a uma simples lenda popular, contada e recontada nas sessões de catequese em países como a Itália, refere que o célebre pintor Leonardo Da Vinci terá sentido alguma dificuldade em seleccionar um modelo para Jesus e outro para Judas na pintura da sua obra A Última Ceia. Segundo uma das versões da lenda, para modelo de Jesus foi seleccionado um jovem de 19 anos. A figura de Judas terá sido a última a ser pintada, sete anos depois da de Jesus. Como subsistia a dificuldade, Leonardo da Vinci escolheu o mesmo modelo que serviu de inspiração para pintar a figura de Jesus. O jovem tornara-se um homem mais escuro de pele, de cabelo longo emaranhado. Lia-se-lhe no rosto não já a expressão de candura, mas traços de maldade, com forte expressão de um carácter fraco, viciado, indiciador de completa ruína moral.
A caminho da Páscoa, podemos perguntar, dando como boa a lenda, o que levou Leonardo da Vinci a escolher o mesmo modelo para pintar Jesus e Judas. É uma boa questão para nos ajudar a preparar o momento importante desta Quaresma: a celebração do Sacramento da Reconciliação. Aquele jovem de 19 anos era portador de um aspecto externo que levou o célebre pintor a escolhê-lo para modelo de Jesus. Naquele rosto, Da Vinci viu algo de transcendente que o levou até Deus. Assim acontece com cada baptizado. Se a vida nova que lhe foi dada no Baptismo se mantiver, ela transparece no próprio rosto. A presença viva de Deus manifesta-se. Porém, quando o baptizado abandona essa vida nova e se faz conduzir ao homem velho, fica com a aparência do modelo que Leonardo Da Vinci escolheu para Judas.
A vivência da Semana Santa pode ajudar-nos a mudar o aspecto de Judas que porventura tenhamos para a imagem viva de Jesus. Como sugerido, num dos artigos anteriores, é preciso deixar Jesus entrar na Jerusalém do nosso coração. Ele ajudar-nos-á a purificar o templo do nosso coração, derrubando todos os obstáculos que nos impedem de aceitar o seu infinito amor. Em Quinta-feira Santa, deixar-nos-emos lavar de todas as impurezas, de todas as incertezas, de todos os medos. Em Sexta-feira Santa, compreenderemos todo este amor de Jesus levado à expressão máxima da doação na Cruz. E na Vigília Pascal, deixar-nos-emos ressuscitar com Ele para a vida nova dos Filhos de Deus.
O nosso rosto não será, nunca mais, o de Judas.
António Jesus Cunha