Manuel Amorim
É verdade que Mendelssohn não é um músico muito conhecido entre nós e é pena. Apesar de muitas noivas continuarem a desejar que a sua entrada nupcial seja acompanhada de uma determinada peça musical cujo autor desconhecem, valeria bem a pena conhecer este génio musical que morreu precocemente, com apenas 38 anos. Com raros e precoces dotes artísticos, não apenas no campo da música, Mendelssohn que nos trouxe à luz clara outros ilustres desconhecidos como J. S. Bach e Händel, acabou por se tornar vítima do mesmo infortúnio e de grande injustiça. Também nestes campos as modas, mesmo efémeras, têm mais força, até aquelas que são provocadas pelo mau gosto. Ora Mendelssohn era um artista de eleição que acabou por influenciar muito positivamente o seu tempo. Provam-no o apreço que os tempos póstumos reservaram aos dois grandes mestres citados. Ainda adolescente, compôs 12 sinfonias para cordas. A sua facilidade e o seu gosto refinado não deixaram de perturbar alguns críticos (talvez provocados pelo êxito que granjeava) que o acusavam de anacrónico revivalismo, mas, de facto, invejavam a sua capacidade de aliar uma indesmentível sensibilidade romântica a uma medida e auto-domínio clássicos, caracterizados por um rigor de construção e uma flexibilidade melódica.
Ao construir esta grande Oratória, Mendelssohn pretendeu ultrapassar os cânones clássicos da forma tradicional, como ele próprio deixou escrito: "Para mim tem a ver com o drama... A narração épica não tem aqui lugar... Não quero um quadro sonoro, mas um mundo concreto, tal como se encontra em cada capítulo do antigo Testamento". Não teve tempo, nem oportunidade, para se dedicar profundamente à ópera. Contudo, a obra que vai ser apresentada é já mais drama musical, embora com texto bíblico, que oratória. É a acção física e psicológica que o compositor retrata musicalmente de forma admirável.
O tema é aliciante: Elias. Elias é, ao lado de Moisés, uma das grandes figuras do antigo Testamento. O próprio nome que significa "o meu deus é Javé", é, na circunstância, uma provocação. A vivência do ideal monoteísta nunca foi fácil para o povo eleito. Elias entra em cena num grande momento de crise política e religiosa. Ora são precisamente estas acções e reacções exteriores e interiores que o compositor encontra no texto bíblico e fá-las passar para a música, construindo, com mestria, um empolgante drama musical. Poderia ser representado no teatro ou no cinema. Mesmo assim, nada perde.
A primeira apresentação, em 26 de Agosto de 1846, com 400 executantes (um grande Coro com 271 vozes), foi arrasadora (8 partes foram bisadas). Berlioz que se encontrava em Londres, deixou, em 18 de Janeiro de 1848, a seguinte nota: "Ouvi a última Oratória deste malogrado Mendelssohn [recém-falecido]. É magnificamente grande e de uma sumptuosidade indescritível".