Ilissínio Duarte
Março de 1984. Foi há 23 anos. Morre Pedro Homem de Mello, um poeta da portugalidade, um mestre do folclore português. Homem de estirpe e de brio, era um grande homem de sonhos. Nasceu em Setembro de 1904. Faleceu a 5 de Março. Parece que estou a vê-lo, ainda nos anos felizes, parado ao fundo de Santo António, contemplativo, ao lusco fusco, olhos fitando o vazio que há entre o céu e a terra para o preencher com a sua poesia. Qual terá sido o poema que ali nasceu? Talvez um daqueles poemas espontâneos que vão sendo alterados vezes sem conta até à forma que a sua alma aspirava no momento do sonho. Como dizia Pessoa ... o homem sonha, a obra nasce.
Poeta da vida e da morte. Poeta das toponímias; de Carreço, de Cerveira, Serra de Arga ou Afife, e sobretudo Cabanas.
A sua alma, como Portugal, nasceu no Minho. Seu corpo nasceu no Porto, não na casa armoriada de Homens e Vasconcelos da Rua das Flores, mas na Rua do Campo Pequeno, n.º 56 (hoje Rua da Maternidade). Amava o povo e a paisagem, a educação e a cultura. Vi-o um dia que estava a meu lado, ocasionalmente, tratar por V. Ex.ª uma senhora modesta a quem teve de se dirigir. Tinha na mente regiões (não administrativas) que se determinavam pelas suas danças e cantares. O Vira, multifacetado, e até de nome mudado, bem certo era ser do Alto Minho, ainda que alcunhado fandango de Roda, fandango de Pares, ou Tirana. Baixo Minho era o Malhão. Esposende era a Góta. Mas os Viras vão costa abaixo até à Nazaré.
Tanto amor à dança e à poesia que o seu curso de Direito nunca lhe endireitou a vida, e preferiu ensinar; foram seus alunos Vasco Lima Couto e Cidália Meireles. Contaram-me alunos seus que a meio de uma lição de História se deixava apaixonar e dava uma aula de estética, de beleza, de sonho. Parecia que a sua nobre alma extravasava o corpo e gotejava pérolas de poesia. Teve um programa na televisão sobre folclore, que era uma cátedra, mas que lhe foi tirado em Abril, porque um dia terminou dizendo: Eu estou com Salazar. Retiraram-lhe a colaboração em jornais, e o lugar de professor. Hoje estive a ler o seu poema Mendigo dedicado a David Mourão Ferreira: Mendigo-sombra um corpo inteiro / Nos Cafés da Cidade, mesa a mesa / Pedindo esmola à multidão burguesa / Troquei os meus poemas por dinheiro. O Livro, Carta a Bill de 1977. Comprei-o não à mesa do café mas no meu local de trabalho onde ele o foi vender. Ele que, profeticamente, anos antes escrevera Expulso do Governo da Cidade. Aqui há poucos anos fizeram-lhe uma homenagem, deram a uma rua o seu nome e uns elogios envergonhados que mais pareciam de amnistia aos seus perseguidores do que penitência perante o monárquico e católico romano em todas as repúblicas do mundo...
Pedro, dos Homens de Atães, venho a público tão tardiamente, mas hoje como naquele dia, é Março e eu recordo que não te acompanhei ao cemitério porque estava doente. Na véspera da tua morte estava doente, de cama, embora fosse dia do meu aniversário. Tristes dias... Mas, Pedro, tu sabes que desde aquele triste dia em que entraste para a eternidade, não se passou um só que eu deixasse de falar com Deus a teu respeito, na oração. Um dia, quando estivermos todos juntos, tu irás fazer um poema a este teu irmão, que deste lado, nunca falou contigo.
Quero agradecer-te teres escrito Danças Portuguesas, pois sem ele eu não teria escrito isto.