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    ACTOS E ACTAS

    Consolai o meu povo


    Israel foi, a.C. e antes da Igreja, a porção de Deus entre as Nações. O meu Povo, diz IAVÉ. A minha herança, o meu lote, a minha sorte, a parte que me coube, diz Israel, é o SENHOR. A minha escolha, o meu Povo, diz Deus àcerca do Povo de Deus. O MEU CLERO... A classe sacerdotal que coincidiu com a tribo de Levi, a quem, entre as 12 Tribos, não foi distribuída terra, pôde atribuir a si não só a escolha, a parte de IAVÉ, como também entre os bens da Terra da Promessa, considerar IAVÉ a sua parte... Deu-se uma transferência do Povo para a classe, ou casta, sacerdotal, à medida que o Povo se degradava e procurava nos Sacerdotes uns restos de santidade... Depois da própria degradação sacerdotal, e depois da destruição do Templo, que nunca mais voltou a ser o que era, os Escribas, ou doutores da Lei, e os partidos, como os Fariseus e os Essênios, e outros zelotes! auto-consideraram-se como porção, clero! escolhida do Senhor. Uma boa cultura bíblica dar-nos-á o conhecimento e a compreensão destas sucessivas transferências. Na grande liberdade e pluralidade que sempre constituiu a sociedade judaica, emergiu, a partir das escolas rabínicas, um outro estatuto muito livre e muito independente, assente unicamente no valor pessoal dos rabis, ou mestres que faziam discípulos. Foi com este estatuto que Jesus encaixou na sociedade judaica: um estatuto ao modo dos Profetas, muito livre e muito independente. Em resumo, e face ao vício judaizante, a questão foi e é esta: clero ou porção, lote, sorte, à parte, foi em Israel o sacerdócio levítico e, entre as Nações, o Povo Eleito, a parte-do-Senhor que se afastou do Senhor-minha-parte.
    Não discuto questões ou formulações canónicas. O que me interessa debater nesta hora são as questões com que todos nos debatemos: o fosso que divide a Igreja, o Corpo de Cristo, entre a corporação dos Padres e a massa dos Leigos, o profissionalismo dos Padres e o amadorismo dos Leigos. Tão mau como clericalizar os Leigos, será não avançar com o esforço de desclericalizar os Padres.
    Os Santos andam por aqui, no meio disto tudo, saltando com a Liberdade, que nunca lhes faltou, dum lado para o outro, mas o mal-estar ninguém lho tira. Mal-estar entre os Padres e mal-estar entre os Leigos.
    A gente sabe a dificuldade da Colegialidade nas Igrejas onde o poder clerical ainda é muito forte. Poder piramidal que esmaga aos vários escalões as bases onde assenta. As várias ordens dos Ministérios não são tão comunitárias como o próprio nome e as funções, no Corpo-de-Cristo, o exigem por instituição e por constituição apostólica. Os louvadores desta ordem, amanhã mudarão de posição e de atitude. Bastará aparecer um papa, o último é sempre o máximo! que decida pôr em prática a constituição dogmática Lumen Gentium, para que os louvadores corram a bater palmas!... A nós não nos interessam os louvadores. Aos Santos interessa os consensos da Fé, que restituirão ao Povo Sacerdotal os seus direitos e deveres. Mas as coisas na Igreja, na Una e Santa, levam todas o seu tempo. Também a Graça precisa de tempo, todo o tempo do Mundo.
    Com a Acção Católica os leigos acordaram, e a Esperança recordou tudo o que o Cristo Jesus lhe deixou e lhe confiou, e ela guardou. Mas a Acção católica, felizmente, passou e o Concílio Vaticano II com ela acabou, pois a todo o Povo de Deus estendeu o primado, a vocação e a missão. Mas, o que é de todos não é de ninguém? Estranho paradoxo. Explicável pelo tempo que falta para que o processo-da-Graça, a Graça Habitual, tenha tempo de criar hábitos. As virtudes não são hábitos? Um Cristão é outro-Cristo. Isto se disse, nas Fontes, dos Leigos, que no Baptismo-Crisma-Comunhão têm a sua plena identificação com o Cristo Jesus. Não foi porque isto tivesse falhado - os Santos nunca deixaram que isto falhasse - mas foi porque os Ministros cederam à tentação judaizante de monopolizarem a Vocação... que depois se passou a dizer dos Padres o que é próprio dos Leigos: um padre é outro-Cristo. Que pena! Não pelo padre, mas pelos Leigos.

    Leonel Oliveira