[ Cultura ]



    Um restauro digno de louvor

    Alexandrino Brochado


    Ás vezes, sentimos uma certa dificuldade em conseguir assuntos de monta, capazes de motivar suficientemente para um pequeno artigo ou ligeira reportagem, Tenho experimentado, por vezes, essa dificuldade. Mas a vida no seu quotidiano e na sequência implacável do dia a dia, vai ajudando a resolver este problema e aparecem-nos motivos de sobra para escrever.
    Na semana passada, fui amavelmente convidado pelo pároco de S. Pedro da Raimonda, Padre Luís de Brito, para assistir à inauguração do restauro da igreja paroquial da referida paróquia de Raimonda. A festa da inauguração do restauro foi marcada para o dia 29 de Janeiro (um domingo) e teve a honra da presença do Senhor Bispo
    D. Armindo Lopes Coelho. Foi uma festa admirável, que ficou indelevelmente gravada no nosso espírito e no nosso coração. O Senhor Bispo fez uma primorosa homilia referindo-se ao evento, exaltando a acção do pároco coadjuvado por toda a comunidade paroquial.
    Apreciei imenso a expressão de fé e de profundo contentamento de toda a gente, do pároco e de todos os fiéis. Um momento admirável de fé e alegria que nos foi dado viver em plenitude. A vida tem destes espaços de beleza e espiritualidade, que às vezes acontecem para quebrar a fealdade e a monotonia duma sociedade cheia de momentos escuros e de problemas inquietantes. O domingo passado foi um desses momentos que nunca mais esquecerei.
    Dirão alguns: o restauro duma igreja será assunto suficiente a merecer um pequeno artigo ou uma sucinta crónica? Para mim é, com certeza. Várias ilações se podem tirar deste acontecimento Vem ao de cima a coragem, a iniciativa e o bom gosto dum pároco ainda jovem que não teve receio de arcar com a responsabilidade dum restauro de grande dimensão, muito dispendioso e que requeria um cuidado muito especial, dada a beleza e arte notável do templo. Tudo foi previsto e acautelado. Depois, a maneira como o povo de Deus tomou parte na cerimónia, a sua alegria, o seu contributo material, a sua atenção e a sua fé, são motivos bastante evidentes para exaltação de uma obra que pode e deve servir de modelo e paradigma para todas as paróquias da Diocese.
    A Igreja de Raimonda merece uma atenção muito especial pelo seu valor artístico. Foi construída em 1710 para substituir aquela que foi demolida e existia no lugar onde hoje se situa o palheiro da casa da Baptista, actualmente propriedade dos padres beneditinos. Desta igreja primitiva existe hoje, apenas, a pia baptismal e o terminal duma pirâmide em granito. A actual igreja, ao estilo da época, é um edifício elegante e bem proporcionado. Possui uma capela-mor de estilo renascença-barroco, muito rica. Podemos mesmo dizer que não haverá igreja rural na Diocese do Porto que tenha uma capela-mor mais rica. O retábulo da capela-mor, os caixotões do tecto, os frescos das paredes, todo este conjunto faz da capela-mor uma verdadeira preciosidade artística que não é fácil de encontrar em qualquer igreja rural.
    Mas em todo este conjunto sobressai a pintura do Sagrado Coração de Jesus. O caixotão no tecto da capela-mor que exibe o S. C. de Jesus, é a pintura mais antiga em Portugal referente ao S. C. de Jesus. Quando em 1710 foi inaugurada a actual igreja de S. Pedro da Raimonda, ainda a devoção ao S. C. de Jesus não tinha sido aprovada pela Santa Sé, nem universalizada. Quando o foi em 1856 tinha já a igreja de Raimonda 146 anos. Daqui se infere que a actual pintura do caixotão da capela-mor, que exibe o S. C. de Jesus é, na verdade, a pintura mais antiga de Portugal sobre esta devoção. O assunto tratado até à exaustão pelos ilustres historiadores D. Domingos de Pinho Brandão e Bernardo Xavier Coutinho conclui que, na verdade, na Raimonda está a pintura mais antiga, em Portugal do S. C. de Jesus. Uma honra para nós que, nem sempre a apreciamos devidamente.