[ Especial ]



    Uma onda de ateísmo científico, militante, secularizador, chega até nós (II)

    Angelo Alves*


    II
    Os dois outros livros são traduções, uma do francês e outra do inglês; a primeira, Tratado de Ateologia, e a segunda, A desilusão de Deus, ambas, porém, muito publicitadas, como tendo estado no “top” de vendas em Inglaterra e nos Estados Unidos, com mais de um milhão de exemplares vendidos, a segunda; e, sendo a primeira a obra mais difundida do seu autor, Michel Onfray, tanto no seu país, como nas suas muitas traduções (a tradução espanhola teve seis edições em 2006). Este autor é saudado como “um génio do ateísmo”; e o autor da segunda, Richard Dawkins, como “o principal profeta dos nossos tempos”.
    Trata-se, de facto, de dois manuais da campanha ateísta, transformada em movimento ideológico de libertação dos males da religião e de afirmação social e cultural dos ateus.
    Ambos têm aparência de cientificidade; mas, na sua estrutura e argumentação, estão dirigidos à acção anti-religiosa, usando habilmente as técnicas psico-pedagógicas para mudança de mentalidades e criação de conteúdos e convicções ateístas.
    O primeiro é mais clássico, de índole histórico-filosófica, com vasta erudição, retomando todos os focos de ateísmo desde os alvores da chamada Modernidade (até o primeiro ateu conhecido no século XVI e há pouco divulgado, o português Cristóvão Ferreira, é mencionado), passando pelo Iluminismo e pela Revolução Francesa. A inspiração é de Voltaire e de Nietzsche. Tem por objectivo desconstruir os monoteísmos e desmontar as teocracias, duas noções chave para curar “a neurose infantil da humanidade”. Nada de novo como argumentação filosófica. Apenas um acervo de dados históricos e de filosofias antigas e recentes, em favor de “um laicismo pós-cristão”, terminando com uma bibliografia seleccionada e comentada sobre todos os habituais argumentos teóricos e de facto a favor do ateísmo e contra a chamada tradição judaico-cristã.
    O segundo é mais insidioso, popular e prático, verdadeiro manual de campanha, resultante de um percurso de escrita anti-religiosa, usando também meios audio-visuais, que compreende já sete livros publicados desde 1980 (cinco dos quais traduzidos em português) e que termina, não só com uma extensa bibliografia, mas também com uma “lista parcial de endereços de entidades de apoio a pessoas que pretendam fugir da religião”, limitada quase só a países de língua inglesa, mas prometendo manter uma versão actualizada no website da “Richard Dawkins Foundation
    for Reason and Science”.
    É um misto de obra de filosofia, de história e de literatura não ficcional ou de ideias, mas a base do seu ateísmo é científica. Biólogo de formação académica em Oxford, onde hoje é catedrático, depois de ensinar nos Estados Unidos, tornou-se um defensor intransigente da evolução segundo a teoria de Darwin e um divulgador hábil do pensamento científico. É uma das fontes citadas pelos autores do primeiro livro comentado. Tornou-se um intelectual polémico, defendendo
    fervorosamente e militantemente o "orgulho de ser ateu”. As religiões, segundo ele, tiveram origem na evolução, por causa de alguma vantagem selectiva na moralidade . Depois da sua explicação científica, devem ser atiradas para o caixote das velharias e inutilidades.
    Concluindo, estes três livros são o sintoma e o instrumento de uma ideologia em expansão, o “ateísmo científico”, divulgado mais nos meios intelectuais europeus do que americanos, que pretende impor-se como dominante social e politicamente, aproveitando o adormecimento ou as fraquezas do dialogismo de muitos cristãos, ausentes de uma profunda e convicta visão cristã do mundo, do homem e da sociedade, desacautelados das pressurosas e, por vezes, radicais mudanças culturais dos nossos dias, já muito distantes do Vaticano II. Explicam as tentativas, entre nós cada vez mais insistentes, de postergar a moral cristã, nos meios de comunicação social, nas leis ditas fracturantes, nas medidas e imposições pedagógicas, sanitárias e assistenciais. Recusa-se a matriz histórica cristã da identidade europeia e pretende-se mudar de paradigma civilizacional. Mas, no fundo, está o naturalismo ontológico, a negação de qualquer transcendência ao universo físico, obliteração de toda a metafísica, portanto, o materialismo, radicado no cientismo e concluindo no ateísmo.
    Eis um dos tópicos a ter em conta na “nova evangelização”, que o nosso Bispo portucalense vem propondo como programa pastoral para a Diocese, e que não pode deixar de estar presente nas escolas, na catequese de adultos, nos meios de comunicação e nos grupos de intelectuais e universitários.

    8 de Dezembro de 2007

    * Monsenhor, Membro do Cabido da Sé do Porto, Vigário Judicial do Tribunal Eclesiástico, Professor da Universidade Católica (Jubilado). A primeira parte deste artigo não vinha assinada, por lapso da Redacção. Ao seu autor e aos leitores apresentamos o pedido de desculpas.