Ilissínio Duarte
Poderia deixar para o fim o que me levou a tratar deste assunto. Mas não. É que há dias fui visitar aquele que já foi Paço Episcopal, onde entrei pela primeira vez há mais de quinze anos. Mais tarde, de 1989 a 1992 andei lá como estudante, após a minha aposentação.
Nessa altura estava arruinada toda a casa. Agora fiquei encantado com o estado actual, pois fui encontrar um verdadeiro palácio. Chãos, tectos, salões, sanitários, gabinetes de música, tudo perfeito. À Torre não tive acesso, porque reservada, e assim talvez poderá continuar a ser, e bem, um mito.
Claro que todos sabemos que torre da marca não é a de Pero Sem, mas a que havia nos terrenos do Palácio de Cristal, como aviso à navegação. Houve mais que um Pero Sem na idade média, e as repetições de nomes, por vezes, baralham-nos.
A torre será obra do Século XIV e se há quem afirme que sempre ali esteve, há quem diga que esteve noutro extremo da chamada Quinta da Boa Vista ou da Torre da Marca e teria sido desmontada e transferida para onde está.
Os entendidos acham que esteve sempre aqui e já em 1431 é mencionada em relação de bens de Martim Sem. Em fins do século XV foi herdada por João Sanchez e Isabel Brandôa, que dera origem à família dos Brandões que figuram no Brasão do Palácio.
Seguindo-se a linha de sucessão aparecem os Brandões Sanches que foram Condes e depois Marqueses de Terena, que mais tarde se ligaram aos Monfalim.
Ainda em 1863 se memoriava a quinta atrás referida, rematada a Norte pela Rua da Boa-Hora e a Sul pela Largo da Boa-Nova. Princípios do Século XIX era proprietário do Palácio e Torre, José Maria Brandão de Mello, 2º Conde de Terena. O primeiro foi instituído em 28.9.1835, que em 1.7.1848 passou a primeiro Marquês de Terena. Antes tinha sido Visconde de S. Gil de Perre, Sebastião Correia de Sá (20.6.1766 a 4.7.1849), Chanceler do Palácio da Relação do Porto, Governador das Justiças, também Governador Civil do Porto (l834) e Prefeito da Província do Douro (1835). Reitor da Universidade de Coimbra (10.12.1840 a 1.7.1848). O 2º Marquês de Terena foi seu neto Luís Brandão de Mello Cogominho Correia de Sá Pereira Lacerda do Lago Bezerra e Figueiroa (21.5.1840/30.6.1900).
Dos Pedros, os Peros Sem há versões de Pedro Pedrossem ou Docem. Um terá vindo de Hamburgo em fins do século XVII. De um Pedro Pedrossem da Silva já eu vi a assinatura em acções da Companhia Geral da Agricultura da Vinhas do Alto Douro, que nos anos 50 do século XX me passaram pelas mãos.
Foi-lhe concedido o hábito da Ordem de Cristo e era Familiar do Santo Ofício, e não teria sido possuidor da "Torre da Marca". Cita Carlos Passos que José Maria Brandão de Mello era filho de Luís Brandão de Mello Senhor da Casa e Torre da Marca e foi casado com Dona Maria Emília Correia de Sá, 2.ª Condessa e l.ª Marquesa de Terena e 2.ª Viscondessa de S.Gil de Pernes. Seu filho D. Luís Brandão de Mello, Marquês de Terena, casou com D. Maria Ana de Sousa Holstein em 1838. Sua filha D. Eugénia Maria Brandão de Mello 3.ª Marquesa de Terena casou com D. Filipe de Sousa Holstein primeiro Marquês de Monfalim, título que pertencia ao filho do Duque de Palmela. Os Monfalim não tiveram filhos e os herdeiros venderam o Paço da Torre da Marca à Mitra. Quando em 1911 a república esbulhou a Mitra do Paço da Sé, para a Câmara do Porto que pagava 300$00 até aos meus dias, foi na Torre da Marca o Paço Episcopal.
No antigo Solar de Monfalim, em Évora, já eu dormi uma noite, mas descansem, porque foi para aí há 40 anos e era então uma estalagem. Era o tempo que saía de casa sem marcar hotéis e era onde calhava, desde que não fosse muito mau.
Quando pretendíamos guardar o carro numa garagem, disse-nos um polícia: "deixe ficar aqui, pois nunca se roubou um carro nesta cidade" . Ainda havia polícias e não havia gatunos. Já depois disto pronto fui há dias pela Beira Interior e em Folgosinho encontrei um solar dos Condes de Corte Real Brandão de Mello, ou só Condes de Mello. Terão a ver com os nossos Terenas?