C. F.
1. A Radiotelevisão Portuguesa revelou na segunda-feira passada uma análise dos primeiros meses do ano no que toca à programação e aos níveis de audiência conseguidos. Como ninguém é bom juiz em causa própria, o resultado saldou-se por níveis elevados de auto-estima, traduzida em louvor em boca própria, que como é sabido equivale a vitupério. Que evidentemente nunca é assumido como tal.
Um dos pontos em destaque, e que terá sido objecto de estranheza manifestada por parte dos responsáveis do ministério da tutela, foi o relevo inaudito dado à conferência de imprensa "concedida" no Brasil por Fátima Felgueiras, seguida de uma longa entrevista em directo do outro lado do Atlântico com a pessoa em causa. A entrevistadora era a sub-directora de informação da estação, que não quis deixar os seus créditos por mãos alheias. Quem tenha seguido parte da entrevista, repetitiva e pouco mais que inútil, não pode ter deixado de se pôr duas questões: a) que tem tudo isso a ver o tão propalado "serviço público de televisão", por mais "generalista" que seja o canal; b) que gastos desnecessários suportou o erário público para nos garantir em directo as justificações tão emocionais da autarca, que relevam muito mais do espectáculo mediático do que do direito à informação, ou até da legítima preservação do bom nome e da presunção de inocência até que alguém seja condenado.
Se a televisão pública, que, reconheça-se, parece querer arrepiar caminho do sensacionalismo balofo e mimético da estupidificação popular em cuidadosa elaboração, e movimentada e veiculada por outros canais, pretende agora seguir por tais caminhos do sensacionalismo disparatado, encoberto pela capa da "grande informação", não faz mais que regressar aos tempos mais obscurantistas do senhor Rangel, com espectáculos fictícios fabricados para agitar e destruir o equilíbrio psíquico da população. Lá se vai tudo quanto Marta fiou.
Por esta forma, o louvor público merecido pela televisão pública, não apenas na contenção de gastos, mas sobretudo na contenção do disparate mediático (coisa que é bem mais difícil), lá se vai por água abaixo, por muito que os responsáveis se esforcem por justificar com os erros dos outros os próprios dislates informativos ou programáticos.
2. Não devemos deixar para trás um outro pormenor revelador da mentalidade dos nossos informadores (ou deformadores): no único relato que observei da visita de João Paulo II à Croácia, a "informação" era dada assim: sob umas imagens em que se adivinhava a presença multitudinária da população, a voz do locutor salientava que a polícia tinha detectado uma ameaça de atentado feita por carta ou telefonema contra a vida de João Paulo II. Nem uma palavra sobre as características da recepção popular, muito menos sobre as palavras que o Papa proferiu ou a mensagem que transmitiu. A visita papal ficava assim, mediaticamente, arrumada na hipótese remota de uma ameaça de atentado.
Eis como trabalha a nossa televisão, sempre atenta às mais fundas realidades sociais e culturais. Seria difícil encontrar dela e dos seus processos um melhor retrato.