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    De São Paulo a António Vieira

    M. C. F.


    Uma das edições mais conhecidas dos Sermões de Vieira, a do Padre Gonçalo Alves, cuja publicação foi iniciada 1907 e depois se tornou objecto de sucessivas edições, traz inscrita no frontispício a seguinte afirmação. “Pregador, ou S. Paulo ou Vieira”, atribuída a D. Luís de Sousa, Arcebispo de Braga.
    Para além do exagero ou da visão parcelar ou do esquecimento da realidade que foi a oratória sacra ao longo dos séculos, esta afirmação de certo cariz nacionalista, tem o mérito de associar por antecipação dois acontecimentos que este ano acolhe: o bimilenário do nascimento de S. Paulo (que deu origem à proclamação do Ano Paulino por parte de Bento XVI) e o quarto centenário do nascimento do Padre António Vieira (1608) que em Portugal e Brasil merece oportunas comemorações (dando origem ao que os promotores das comemorações designaram por “Ano vieirino”).
    Não se terá certamente lembrado desta coincidência o prelado D. Luís de Sousa, mas a sua intuição é meritória e virtuosa: a aproximação entre o apóstolo das gentes, como ficou conhecido, e o nosso orador seiscentista, certamente uma das maiores figuras da nossa história e cultura, tanto pelo que foi e realizou, como sobretudo pelo que escreveu, pode encerrar múltiplos significados.
    O primeiro é o da centralidade da mensagem cristã, que um e outro transmitiram: Paulo ainda na sua formulação inicial e fundadora, Vieira na sua dimensão do relacionamento dinâmico com a sociedade do tempo e com a emergência do novo mundo. Paulo falou para o novo mundo da Palestina, da Síria, da Ásia menor, da Grécia e de Roma; Vieira para as populações de um Brasil onde se iam instalando franjas de uma sociedade europeia marcada pela aventura da descoberta de novas terras e novas gentes, numa ligação com populações autóctones, e depois para uma sociedade europeia de estrutura cristã, mas eivada dos males do poder.
    Um e outro propuseram o mistério salvador de Cristo, assinalaram virtudes e verberaram vícios. Um e outro falaram do homem novo e das dimensões proféticas e escatológicas da humanidade. Um e outro lançaram para o futuro sementes de transformação, de aperfeiçoamento progressivo da condição humana.
    Os dezasseis séculos que os separam no tempo aproximam-nos no projecto: o de, a partir da pessoa e da mensagem de Cristo, nele instaurar todas as coisas, o presente e o futuro, a natureza e o homem. Ambos pugnaram pelo anúncio do Evangelho a toda a criatura. Este tema constitui uma das teses defendidas por Vieira na sua Clavis Prophetarum (Chave dos profetas), recentemente traduzida para português, onde se encontra também uma notável análise das teses paulinas sobre o mistério da salvação.
    Eis como a aproximação destes dois vultos do pensamento cristão e do pensamento humano pode facultar à igreja e à humanidade de hoje instrumentos de esperança que ajudem a modelar para a humanidade um futuro de paz.