Ernesto Campos
Há um sentido mais profundo nos contos de fadas que me foram contados em criança do que na verdade que a vida ensina
Schiller
A fábula da cigarra e da formiga é uma mentirinha que contamos às crianças: a formiga trabalha, a cigarra diverte-se e, quando em estado de necessidade, vai pedir ajuda, a formiga recusa ajudar. Logo elas se dão conta de que se trata de fábula e nem por isso, todavia, deixam de lhe assimilar o significado. E o significado, mais do que saber quem é o bom e o mau da fita, é basicamente a resposta a esta pergunta quem devo imitar? Não se trata de ser, trata-se de agir. E a alegoria da caverna, em que Platão condena o homemnatural a ver apenas sombras em vez da realidade das coisas, sendo uma historieta, encerra uma concepção antropológica e cosmológica que atravessa os séculos.
Tal como muitas histórias da Bíblia, sejam as parábolas do Evangelho sejam os episódios heróicos ou trágicos do Antigo Testamento. Trata-se sempre, também aqui, da dialéctica do Bem e do Mal, sob a forma de benevolência/malevolência das personagens e das suas acções; trata-se de escolha ou de recusa. E também aqui, como noutras histórias de proveito e exemplo, trata-se de sugerir a adesão a uma mensagem que responde às caóticas inseguranças do psiquismo humano, às suas tensões interiores, onde habitam a besta e o anjo. Mircea Eliade descreve-as como modelos para o comportamento humano que, por isso, dão sentido e valor à vida.
Por exemplo, no psicodrama de Caim e Abel encontramos um ou mais sentidos, expressões simbólicas de valores e contravalores. Um sentido patente e um sentido oculto, como nos sonhos (Freud). A leitura superficial mostra um Deus caprichoso, um fratricida invejoso e tentado pelo desespero, a quem Deus, todavia, perdoa, não deixando de o interpelar Que fizeste do teu irmão? O sentido oculto da história põe a nu os dilemas existenciais da nossa humanal condição: o superego acusador, e, perante ele, a revolta e o desespero, a injustiça das situações da vida, a presença, a par da tentação da violência, da consciência inibitória que resiste à inveja e respeita o outro. O teu rosto obriga-me, diria Levinas.
Santo Agostinho chama a Caim o homem natural e a Abel o homem salvo. Um dá ouvidos ao demónio interior que lhe segreda a inveja e a revolta e diz no seu íntimo O teu rosto enfurece-me; é o homem da recusa. O outro reconhece a sua finitude e contingência e escolhe ser-lhe fiel, projectando-se para além do natural. É o primeiro mártir da coerência com a sua fé.
É isto a expressão do nosso dilema de todos os dias: a ambivalência da decisão a tomar perante as perguntas cruciais O que é o mundo? Como viver nele? Como posso ser eu próprio? A resposta a estas questões emerge dos princípios e valores em que assenta o nosso pensamento. E a história, a fábula, o mito são apenas o quadro em que nos explicamos e projectamos, peritos que somos em justificar até os nossos actos falhados (Freud).
O homem natural justificará a malevolência de Caim para quem o outro é o inferno. O inferno são os outros (Sartre). Incapaz este homem natural de ascender ao sentido oculto de que, como diz Merleau Ponty, o verdadeiro inferno é a ausência do outro que Caim matou.
Diz-me como interpretas as histórias de proveito e exemplo e eu dir-te-ei como és.