[ Especial ]



    Maria Isabel Guerra Junqueiro - 30 anos depois

    Henrique Manuel S. Pereira


    Trinta anos de (quase) silêncio passaram sobre a morte da filha mais velha do Poeta de Os Simples, ocorrida no Porto, em 2 de Janeiro de 1974, ia ela a caminho dos 94 anos de idade.
    Após a morte de seu pai, a 7 de Julho de 1923, e casada com Luís Pinto de Mesquita Carvalho, cedo traçou o seu rumo e afinou a vontade: "não sou nem pretendo ser uma literata. Mas há quem diligencie amesquinhar-me sob a acusação de eu viver à sombra da glória de Junqueiro. Este nome impõe-me o dever sagrado de não subscrever banalidades ou lugares comuns. À sombra do roble junqueiriano sou como o cuidadoso jardineiro, activo, vigilante, enternecido que incessantemente arranca as ervas daninhas que teimam em proliferar à sua volta.".
    A sua figura não tem merecido a atenção dos investigadores. Não obstante, deixou obra à prova de exame. Quem conheceu Maria Isabel Guerra Junqueiro é unanime em descrevê-la como "atenta e activa, sempre operante e discreta, acutilante se era preciso". De facto, embora "pequenina, viva, os olhos movediços, chispando lume, o acanhamento não era com ela". Incansável para perpetuar a memória de seu pai, transformou-se, afirma Raul Rego, "em autêntica abelha mestra, tudo vendo, lendo jornais e revistas, subindo escadarias de repartições, fixando em cartas e livros os seus esforços em prol da ideia de nos mostrar quanto contribuísse para o conhecimento do autêntico Junqueiro".
    Durante anos, Isabel Junqueiro lutou para que não se demolisse a casa onde, em Lisboa, faleceu seu pai. Perdendo na luta contra os interesses imobiliários, volta-se para o Porto e compra, à Sé, um belíssimo edifício do segundo quartel do séc. XVIII, no qual, em 1942, e depois de múltiplos esforços e contactos, é solenemente inaugurada a Casa-Museu Guerra Junqueiro. "Lisboa guarda-lhe o corpo, nos Jerónimos, religiosamente. Seja o Porto o relicário do seu coração!", disse, então, Isabel Junqueiro. Contrariamente ao que muitos pensam e alguns ainda escrevem, Junqueiro nunca habitou o edifício da Casa-Museu.
    Inaugurada aquela casa, Isabel Junqueiro não abranda o ritmo. Dir-se-ia que toda a sua alma se tornara cativa da memória de seu pai, e não perde oportunidade, mínima que seja, para o exaltar e defender: "claro que o poeta, o pensador, o homem público, estão sujeitos à crítica - dizia. À crítica honesta que sobre eles incida, a família nada tem a objectar Tudo, porém, que, consciente ou inconscientemente, tenda a diminuir a dignidade do homem, encontrar-me-á pela frente." E, de facto, várias vezes veio a público a prová-lo.
    Armada de sonhos e projectos, em 1944 tenta comprar, em Freixo de Espada à Cinta, a casa em que se pai nascera. Vem a consegui-lo mais tarde (depois de ver a habitação ser usada como "armazém de géneros") e 1950, no ano de centenário do nascimento de seu pai, oferece-a à Câmara Municipal de Freixo. Seria particularmente longo, por exemplo, o elenco minucioso da actividade junqueiriana de Maria Isabel em 1950. "Sozinha, ai de mim, desajudada, não sucumbo, antes prossigo, servindo-me de estímulo os obstáculos..." Sua mãe, D. Filomena, subscreve: "tem a energia e a decisão de um homem!"
    Isabel Junqueiro não deixou obra publicada. Teve, no entanto, vários trabalhos em preparação, chegando, por diversas vezes, a anunciá-los. E, porque via seu pai a outra luz, prometeu um livro sobre "Junqueiro íntimo". Mas a vida tem, porém, (quase) sempre mais imaginação do que os nossos sonhos. Embora tivesse feito muito, não fez tudo quanto desejou ter feito para que Junqueiro ressurgisse "aureolado de maior glória".
    Sem descendência, ofereceu, em testamento, todos os seus bens e projectos a uma fundação que um grupo de testamenteiros haveria de erguer, no Porto, com o seu nome e o de seu marido - Fundação Maria Isabel Guerra Junqueiro e Luís Pinto de Mesquita Carvalho.
    Nascida em 1880, em Viana do Castelo, Isabel Junqueiro repousa hoje, junto de sua mãe, no cemitério daquela cidade. Embora tenhamos "o futuro por esquecimento", é de elementar justiça e gratidão, para com alguns seres, adiá-lo.