[ Cultura ]



    Notas sobre Paranhos

    Ilissínio Duarte


    Paranhos, uma grande freguesia, que ainda conheci em grande ruralidade. O Couto de Paranhos foi instituído por Dona Teresa, mãe de Dom Afonso Henriques, a favor da Igreja Portucalense. Paranho, quer dizer "defendido por honra". Honra, local privilegiado pertencente a fidalgo ou cavaleiro, cujos rendimentos estavam isentos de pagamentos à Coroa. Paranho seria o mesmo que amparo, tendo havido as seguintes formas: Paranhos, Paranho, Paramos, Paramo. Existia a "Vila de Paranhos" que, como as "vilas" romanas eram propriedades rústicas de recreio. Esta "Vila de Paranhos" em 1130 era citada em escritura do Cabido, e já citada em 1035 e 1048. Igreja, parece que já havia uma no século X. Pertenceu a freguesia até 1837 às "Terras da Maia" ou Comarca da Maia. Patrono, S. Veríssimo, nome de um companheiro, frade, do Conde D. Henrique. Era castelhano e fundou em 1092 um convento de S. Domingos, que, se ainda existisse, estaria ali por onde é a Rua da Via Sacra, com entrada a norte pelo Lugar do Agueto, onde é, há muito, o Colégio Luso-Francês, e a sul pelas Barrocas.
    Nome parecido é o de Agrelo onde se situa o Cemitério de Paranhos onde esteve muitos anos a Beata Maria do Divino Coração, superiora do "Bom Pastor", de Vale Formoso. No Couto de Paranhos temos a Rua da Arroteia que vai do Hospital de S. João a Matosinhos. A actual Rua de Monsanto, era Rua do Regado, dadas as muitas águas da Arca d'Água. Havia no século XII a quinta do Regado. Houve diversos emprazamentos: Pedro Marinho foi um dos enfiteutas. Em 1480/1533, a família Carneiro. Em 1557 emprazamento a Ana Bravo, tendo sido herança de sua filha Dona Helena Carneira casada com Luís Carneiro. Gente de muita importância. O Couto já vinha do século XII estando nisso envolvido um cavaleiro da Ordem de S. João de Jerusalém (Ordem de Malta). Foi para remissão da dívida de "18 jantares", devidos ao Mosteiro de Leça, em que "jantar" era um tributo a pagar pela visita do Bispo e Cónegos aos mosteiros e à Igreja. Havia o casal da Vale, que gerou as ruas de Aval de Cima e Aval de Baixo e fazia parte da Quinta do Paço que ia da Cruz das Regateiras (largo da Cruz) por grande extensão. Em frente está o Hospital Conde de Ferreira, onde era Lamas. A Travessa de Cortes pertencia ao lugar de Cortes em 1766, emprazado ao P. Manuel Duarte. Incluía as agras de Oliveira e de Cortes, onde havia cortes de gado. Partilha de Lamas fez nascer 4 casais. No século XIX foi vendido à viscondessa de Roriz, da família Morais Sarmento. Nesse local foi aberta a Rua Júlio de Matos, médico do Hospital do Conde de Ferreira. Rua Fonte do Outeiro derivada da fonte existente na Bouça da Fonte do Outeiro. Na Aldeia da Vale havia mais fontes ou cisternas. Havia um lugar onde as lavadeiras iam lavar roupas no "Rio Outeiro" como eu ainda nos anos 30 ouvia dizer. Igreja de Paranhos: há menção de ter havido em 1121, onde era a Quinta dos Pereiras, que teria sido mandada construir por Dom Afonso Henriques, do que duvido, dado que D. Afonso Henriques se armou a si próprio cavaleiro em 1125, em Zamora, com 14 anos. Em 1741 reconstrução da Igreja Matriz e construção da residência paroquial em 1845. já em 1845/6 foi construída a segunda torre. A festa de S. Veríssimo é a 3 de Outubro. Em 1880 foi formada a Junta Paroquial, ficando presidente o próprio abade da freguesia, P. António Domingues Jacintes (?) Maia. No Campo Lindo, há a Capela de N.ª Sr.ª da Saúde construída em 1864, também conhecida por Capela do Encontro. Em 1885, o Largo ainda assim se chamava.
    A Rua de Monsanto, que foi Rua do Regado, nada tem a ver, principalmente, com a história de Paranhos, mas sim com a vitória dos republicanos em Lisboa, sobre os monárquicos, em 1919, quando Paiva Couceiro proclamou a monarquia do Norte que durou 25 dias, mas mesmo assim emitiu selos do Reino de Portugal para os correios de que possuo um exemplar.
    A versão popular de Paranhos é de que quando por lá andavam os fenícios a pascentar o gado não gostaram da terra e diziam: só é boa "para-anhos".