Jorge Teixeira da Cunha
Alguns dos dias de Verão que estamos a viver são de férias para quem as tem. As férias, como tempo remunerado de descanso, são um dos aspectos que foram conseguidos no longo e sofrido processo de moralização do trabalho que tem tido lugar no nosso espaço do mundo industrializado e desenvolvido. Outros lugares estão longe de conseguir esse privilégio, pois os direitos dos trabalhadores continuam sem ser reconhecidos. É importante humanizar o tempo do descanso, pois esse tempo é cheio de sentido.
Os cristãos, na sequência do Sábado bíblico, introduziram na história as bases do sentido para a distinção entre tempo laboral e tempo festivo. Este último é uma vacância cujo sentido é a celebração da ressurreição do Senhor. Daqui vem a origem do Domingo, o primeiro dia da semana. A ressurreição dá sentido a todo o tempo, tanto do tempo laboral como do festivo. Mas o tempo festivo, ao contrário do outro, é uma celebração por excelência do tempo libertado, esse a que é prometida toda a criação, por desígnio divino.
O tempo de férias dos trabalhadores, em todos nos tornámos no mundo moderno, tem o seu fundamento cristão no tempo libertado, que é mais do que o tempo livre. Este tempo libertado é a memória futura daquilo a que é prometido o ser humano: à visão e à fruição de Deus. É um tempo de contemplação, de encontro com os outros e com a natureza. Este devia ser também o sentido da viagem e do turismo: um melhor conhecimento do diferente, para um maior reconhecimento dos seres humanos uns pelos outros, na sua diversidade e riqueza.
Em boa medida, o tempo de repouso laboral, quer o domingo, tornado fim-de-semana, quer as férias, tem-se tornado tempo de divertimento. Se este tiver como finalidade fazer ao trabalhador esquecer a sua condição alienada e adormecê-lo para que possa perseverar acriticamente nela, perde o seu sentido. Descansar para trabalhar mais e não para viver melhor é um contra-senso. Há um divertimento que consiste mesmo numa forma de desespero. É o que acontece quando nos divertimos para fugirmos desesperadamente de nós mesmos e da nossa condição humana detestada. Esta é a perda de sentido das férias e o transtorno completo do seu valor. Esse divertimento deve ser denunciado.
Mesmo no tempo de crise que se vive hoje, um bom número ainda tem possibilidade de fazer férias. É justo que assim seja. Isso, porém, não deveria deixar de ser um tempo de reflexão e de solidariedade para com o igualmente grande número daqueles e daqueles que se encontram na situação de desemprego involuntário. Com efeito, a organização do trabalho que temos deixa uma percentagem grande de pessoas fora do emprego com direitos. Deixa-os num tempo livre insensato. A maioria dessas pessoas paradas não encontra um trabalho digno, por muito que o procure. São esses que merecem a solidariedade de quem está bem empregado e mantém o privilégio de poder ir de férias neste Verão.