A graça de morrer pela Páscoa
Há tempos, tinha-me confidenciado que gostaria muito de morrer pela Páscoa. Era uma graça que pedia diariamente. Deus fez-lhe a vontade. Ao final da manhã de Sexta-feira Santa partiu para a Casa do Pai. No seu funeral, no dia seguinte, foram muitos os seus amigos que estiveram presentes no funeral. Apesar dos seus oitenta anos, mantinha alguma jovialidade. Uma semana antes, participara comigo na última Via Sacra pública da paróquia, numa caminhada de quase três horas, debaixo duma chuva muito desagradável.
Foi particularmente significativa, em termos de conversão pessoal e de posterior empenhamento na Igreja, a participação num Cursilho de Cristandade e a sua fiel militância, ao longo de dezenas de anos. Era um entusiasta do movimento, por isso nunca faltava às ultreias, à missa penitencial e às clausuras. Levou muitos amigos a fazer a mesma experiência. Confessou-me, um dia, na Ultreia de Gondomar, que foi através do arco íris que entendeu melhor a dinâmica dos Cursilhos de Cristandade. O crucifixo que recebeu no Cursilho manteve-o sempre, nunca se separando dele. Com ele bem apertado na mão, expirou tranquilamente.
Foi sempre um bom amigo e um colaborador muito atento da paróquia. Dedicou, através da Conferência Vicentina, muita atenção aos pobres e às famílias em dificuldade.
O António merece esta referência especial. As suas virtudes, em especial a de ser bom amigo, quase não deixavam ver os seus defeitos que, naturalmente, também tinha.
Grande admirador do jornal Voz Portucalense, que lia integralmente. Recortava e guardava religiosamente alguns artigos, nomeadamente A fé dos simples. Falava com grande admiração deste jornal, não se cansando de o recomendar.
Por ocasião da caminhada de preparação para o Jubileu do Ano 2000, tornou-se membro dum pequeno grupo, fundado há precisamente 24 anos, dedicado a Nossa Senhora do Sim. Raramente faltava aos encontros. Gostava muito de estar com os outros membros deste grupo e com eles rezar e estudar a Bíblia.
Em termos meramente humanos, é muito triste perder um amigo como este. Espiritualmente, enche de alegria os amigos que conviveram com ele, que nele sempre encontraram uma palavra amiga. Na sua memória, encontrarão um grande estímulo para continuar a peregrinar neste mundo. O António já viveu esta Páscoa no céu, onde continuará a ser um bom amigo.
Com os mil encantos do arco íris, aqui fica, caro António, de mim e todos os outros teus amigos, um sentido De Colores!
António Jesus Cunha