[ Cultura ]



    Rómulo versus Gedeão

    Universidade do Porto presta homenagem a Rómulo de Carvalho (António Gedeão)


    C. F.

    No dia 5 de Março, a Universidade do Porto prestou homenagem ao cientista Rómulo de Carvalho, comemorando os dez anos após a morte do criador do pseudónimo literário António Gedeão. O acontecimento decorreu no Salão Nobre da Reitoria, numa iniciativa que constituiu uma viagem no tempo até 1928, data em que Rómulo de Carvalho se tornou aluno da Faculdade de Ciências da Universidade, onde foi estudante ao longo de três anos. Disso dá conta um livro de José Moreira de Araújo, professor catedrático daquela Faculdade.
    A apresentação do livro, que constituiu o pólo central da sessão de homenagem, foi feita por João Caraça, director do Serviço de Ciência da Fundação Gulbenkian e professor catedrático da Universidade Técnica de Lisboa.
    Lançada pela Editora UP da Universidade do Porto, a obra evoca a passagem de Rómulo de Carvalho pela Universidade, a partir de trabalhos encontrados no Departamento de Física da Faculdade de Ciências, realizados enquanto estudante pelo futuro professor, pedagogo e poeta. Foi a descoberta de tais trabalhos que originou o livro de Moreira de Araújo, trabalho que, além de um enquadramento social e académico da época, inclui também extractos das "Memórias" (ainda inéditas) escritas nesta fase da vida do autor.

    Revisitando Gedeão

    Rómulo de Carvalho nasceu em Lisboa em 1906, licenciou-se em Ciências Físico-Químicas pela Universidade do Porto em 1931. Foi professor, pedagogo (orientador de estágios pedagógicos nas áreas das Ciências Físicas e Químicas, mestre de muitas gerações de professores), e também cientista e investigador e divulgador naquelas áreas, tornando acessível à população a interpretação dos fenómenos do quotidiano. É também autor de uma História da Educação.
    Porém, o conhecimento que a maioria da população dele tem situa-se na área das Letras onde se recriou como personalidade literária com o nome de António Gedeão. Transformou em escrita poética muitos conceitos da sua cultura científica. Tornou-se célebre e universalmente conhecido o seu poema “Pedra Filosofal”, divulgada através de música original de Manuel Freire e interpretada posteriormente por numerosos cantores. Recorda-se que esse poema emblemático foi apresentado pela primeira vez num dos seus melhores programas de televisão de sempre, que se chamou Zip Zip, aí pelos idos do final da década de 1960 do século XX. Começou-se a ouvir, com um simples acompanhamento de guitarra: “Eles não sabem que o sonho / é uma constante da vida / tão concreta e definida /como outra coisa qualquer...
    Poucos sabiam que esse texto fazia parte de um volume entretanto publicado, da autoria de António Gedeão, com um estudo introdutório de Jorge de Sena, que reunia poemas já divulgados em pequenas recolhas poéticas do autor. O livro chamava-se curiosamente Poesias Completas (até essa data).
    Poucos sabiam que a par desse poema era apenas a face visível de um conjunto que incluía outros, como o conhecido “Poema para Galileu”, profusamente declamado nas tertúlias estudantis desses anos. Outros vieram depois a lume, musicados por José Nisa e cantados por vários intérpretes ditos “de intervenção”, com o título Fala do homem nascido, que é também o título de um poema de Gedeão. O mais notável é a visão poética das realidades da matéria, e mesmo da vida, que levaram a textos como o “Poema de Natal”, “Calçada de Carriche” (do qual se fizeram adaptações dramáticas sobre a condição feminina), ou “Poema do Coração”, “Poema da Água” e o original “Poema da pedra lioz”, que recorda os pedreiros que batem a pedra para construir monumentos.
    Sobre a “Pedra filosofal” recordo agora para os leitores um texto que escrevi já em tempos neste mesmo local, e que foi depois acrescentado e publicado no volume Pós-leituras: ensaios de literatura portuguesa e comparada, editado nas edições ASA, com o título “As simetrias de Gedeão”.


    A Pedra filosofal como texto de intervenção
    Relançando sobre esse escrito os olhos da memória, registo de novo aquela esta passagem, em que se analisava, como tantas vezes em lições sobre língua portuguesa, os vislumbres de intuição poética com que o cientista consegue dar vida àqueles conceitos que nas concepções comuns são os mais prosaicos, como os dados científicos, desde o capitel até ao foguetão, e mesmo à criação artística e à viagens das descobertas. Esta capacidade poética tem a sua similitude nos textos bíblicos, onde as pedras, os animais, os leões e os dragões, os umbrais das portas e os instrumentos musicais desempenham a função de se tornarem também instrumentos poéticos.
    Perguntava-se no texto referido qual a razão pela qual um poema como a “Pedra filosofal” se tornara de repente não apenas um sucesso mediático, mas sobretudo um texto de contestação política e social.
    Era a seguinte a resposta que se propunha:

    Em pouco tempo, o que parecia constituir apenas mais uma canção para juntar ao extenso rol das meditações sociológica tornou-se numa referência obrigatória em todas as tertúlias e encontros onde se discutissem os problemas sociais e culturais de então. Não havia encontro estudantil que não agarrasse com ambas as mão esse aliado inesperado, essa espécie de ovo de Colombo da intervenção. Estávamos de facto perante uma “pedra filosofal”: tinha o condão de transformar em denúncia aquilo que parecia não a conter. Nesses tempos, em que as formas de dizer tinham que ser especialmente cuidadas, em que as linguagens tinham que ser controladas, em que as palavras tinham que ser medidas, em que era preciso ao mesmo tempo denunciar e dar a impressão de o não fazer, a canção tornou-se num símbolo.
    Donde lhe vinha a força inesperada? Que tinham as suas palavras para entusiasmar dessa forma tão subtil e tão incontida as mentes descontentes? Qual era a sua força de denúncia ou de intervenção? Porque a agarravam os adultos e jovens mais inquietos e dinâmicos?
    Creio que o fenómeno ainda não foi inteiramente dissecado. Mas parece que a raiz de tudo está em duas palavras: eles e sonho. Eles identificava-se facilmente com o poder e aqueles que o exerciam. Sonho conotava a criatividade, a imaginação, a capacidade de superar as dificuldades e as situações. O sonho tornava-se a ânsia de liberdade. Sonhar equivalia e lutar, a não desistir. O sintagma o sonho comanda a vida era por assim dizer a bandeira, o apelo à acção.
    Esta era, porém, apenas uma leitura superficial. Era preciso mergulhar em todo o poema para perceber que nele estava contido todo um universo de criação e de criatividade humana. Um poema que constituía a expressão poética, inesperadamente vigorosa e dinâmica, da expressão bíblica: “dominai a terra e transformai-a”. Lá estavam as pesquisas científicas, as expressões artísticas, as catedrais e a música, as descobertas dos mares, as descobertas da ciência moderna, a própria previsão do futuro: “desembarque em foguetão / na superfície lunar” . Verifique-se que, o poema foi escrito e quando foi publicado (1956) ainda o homem estava bem longe de vir a chegar à lua, mas Gedeão, porta e profeta, já tinha compreendido que ele viria a realizar esse sonho.Com a Pedra filosofal, veio para a ribalta o Poema para de Galileo e o Poema do amor. Veio o Dia de Natal. Veio a Lágrima de preta e a Calçada Carriche. Veio a Mãezinha e o Poema da morte na estrada. Que tinham de novo estes poemas? Por quais razões agitavam as mentes e as consciências?
    Uma linguagem poética simples, uma denúncia irónica das arbitrariedades, uma visão amarga da exploração, um sentido agudo das complexas e misteriosas relações entre a matéria bruta e a realidade espiritual. Depois havia uma poética formal que assentava na linguagem tradicional, mesmo quando o verso era longo e livre, e nas formas estróficas e rimáticas de raiz e cariz popular.
    Um dos aspectos, porém, mais originais da sua poesia encontrava-se na capacidade imprevista (embora já experimentada em outros poetas, dos quais o melhor exemplo é Cesário Verde) de dar vida poética à realidade e à linguagem científica. A simples enumeração de alguns títulos demonstra esse dado: Espelho de duas faces, Vidro côncavo, Teatro óptico, Poema de pedra lioz, Vitríolo, Aurora boreal, Ponto de orvalho, Máquina de fogo, Sonolência cósmica, Escopro de vidro, Teatro anatómico, Suspensão coloidal, Lição sobre a água, Poema da buganvília, etc. Verifica-se que o poeta Gedeão busca a matéria informe da sua inspiração poética, como e escultor de Vieira que traz das montanhas um rochedo duro e informe, nos mesmos materiais da natureza (da natureza ou da sociedade) que servem de objecto de análise ao físico Rómulo de Carvalho. Como quem diz: nas coisas mais materiais da vida, que nos habituamos a ver apenas na sua constituição física, molecular ou energética, dissecando os seus elementos constitutivos, há sempre uma dimensão poética, que está para além da palpável crua materialidade. Eis pois o apelo a uma visão espiritual para além dos dados imediatos e da simples experiência científica. O essencial é invisível aos olhos.