[ Tema Vivo ]



    À Conversa com.... Henrique Manuel - De um programa de rádio aos Paraísos interiores


    VP - Uma personalidade...
    Henrique Manuel - Só uma!? Em que área? De que época? Dispomos de quantas páginas? Só de pensar no número das personalidades vivas que admiro sinto-me indigno desta entrevista. Devia-a ter recusado de forma mais firme. Mas pronto, ai vai um nome: Josué Pinharanda Gomes. Um homem que para mim é signo de liberdade e de coerência com uma capacidade de trabalho e uma generosidade absolutamente singulares; um homem que não dispõe de qualquer título académico, mas que, no entanto, deu de comer e continua a alimentar muitos professores catedráticos em várias áreas.

    VP - Uma cidade...
    HM - Não é a maior, a mais bonita, a mais luminosa a mais... mas é o Porto. Estas escolhas prendem-se sempre com o vivido, com a segurança de saber quem somos, com a partitura da nossa música, não é? Por isso, é única e, além disso, é uma cidade muito bonita!

    VP - Uma qualidade...
    HM - Esta é para ser respondida para quem realmente me conheça. A qualidade que mais aprecio nos outros é, todavia, a liberdade, de ser, pensar e dizer. Com quem assim seja, mesmo situado em margem oposta, sinto-me em segurança. Sou também muito sensível àqueles "que voltam atrás" e são capazes de manifestar a sua gratidão.

    VP - Um transporte...
    HM - Bem, tenho um fraquinho por barcos...

    VP - Um programa...
    HM - Dos que fiz? Em rádio? É difícil. Em programas, programas, também eu tenho dois amores e a escolha é difícil: "Ainda não é tarde" e "Com Princípio, Meio e Fim". O primeiro, de duas horas, na Onda Média da RR do Porto, foi o meu primeiro programa assinado. Com ele, em directo, cresci e fui aprendendo a dominar as arritmias que o microfone provoca, aprendendo a linguagem e a magia da Rádio, aprendendo a encaixar os imprevistos e as sensibilidades do auditório...; o segundo, pode parecer presunção, mas sinto que foi uma coisa tão séria que julgo não ser ainda o momento para o avaliar. Sei, porém, que foi um importante serviço pastoral prestado, sobretudo pelos meus companheiros sacerdotes, à Igreja portuguesa.

    VP - Levou 3 anos para conseguir colocar o seu programa na grelha da Rádio Renascença (R.R.) e foi um dos 5 mais antigos dos últimos 10 anos. Entretanto, acaba de maneira abrupta, inesperada e indesejada para a maioria dos ouvintes. Porquê?
    HM - Ainda bem que me faz essa pergunta. Creio que se refere ao "Com Princípio, Meio e Fim". De facto, não foi fácil pô-lo na grelha da RR. Tratava-se de um projecto arrojado, sobretudo, aos microfones duma emissora católica que...

    Questionar para esclarecer

    VP - "Recusámos embarcar duvidando de tudo ou em tudo crendo. Seria cómodo. Dispensaria a reflexão. Queríamos um pensamento mais maduro, uma fé despida dos fenómenos da irracionalidade fundamental, da superstição de quem em tudo crê e da libertinagem de quem tudo ignora. Uma fé que não fosse consolação de miseráveis ou terror de afortunados. Queríamos questionar a Igreja, a Católica e as outras"...
    HM - Sim, escrevi isso na introdução do primeiro livro que recolheu algumas daquelas conversas. O modelo do programa era simples: uma conversa entre mim e um sacerdote, mas com um linguagem compreensível ao comum dos mortais. Andamos todos com a cabeça cheia de perguntas e há quem pense que os padres têm respostas que não querem dar... Foi um projecto de grande cumplicidade. Comecei por querer incarnar um daqueles "Advogados do Diabo" maus. Daqueles que encostam o "réu" e atiram a matar. As temáticas eram variadas: o Inferno, o Diabo, os espíritos, a sexualidade, o pecado, as nossas florestas interiores, etc. Nos primeiros meses recebi cartas com protestos violentos "É lá possível isto numa emissora católica!? Querem acabar com a fé das pessoas!?" Chamaram-me ateu, herege, de tudo. (E eu só me limitava a fazer perguntas). Tenho-as arquivadas e respondi a todas. Gosto de pessoas que dizem da sua indignação da forma mais directa possível. E, devo confessar, fizeram-me bem. Não deixei de fazer as perguntas que julgava necessárias, mas fui moderando a irreverência e assumindo a cumplicidade que, aliás, sempre esteve subjacente. Estou muito grato aos meus companheiros de aventura e, obviamente à direcção da RR. Foi preciso coragem. Nunca pensei que o programa durasse tanto tempo em antena. O objectivo não era destruir, mas construir, se necessário, mudar de pele, mas para crescer. E, depois daqueles meses iniciais, não me lembro de ter recebido nenhuma carta em registo negativo. Todavia, parece que a direcção, mesmo nos últimos tempos, foi recebendo algumas de ouvintes incomodados com o programa... Mas não acredito que tenha sido isso a ditar-lhe o fim. As mudanças são inevitáveis. Além disso, o epitáfio do programa, disse-o na altura, começou a ser escrito no momento em que passou para a noite. Julgo, porém, que por ser velhinho e por estar eventualmente gasto, merecia um funeral mais digno. Contudo, disseram-me, foi o possível num contexto de imperiosa mudança de grelha. Há quem pense que estou aborrecido com a RR. Não estou. Além disso, a direcção pediu-me para continuar o meu trabalho no RFM. Todavia, também pelo contexto, pareceu-me ser um bom momento para fazer uma paragem. Foram 17 anos de colaboração a fio. Não agradamos a todos e é claro que nem todos nos agradam. Mas é normal que assim aconteça, não é? Grato, absolutamente, grato, estou aos ouvintes da Renascença, aos "amigos da manhã", da tarde e da noite. Escrever cartas está fora de moda, não é? Mas a verdade é que, até ao momento, só cartas, já recebi mais de uma centena. Algumas põem-me de joelhos. Poderá demorar algum tempo, mas prometo que não deixarei nenhuma sem resposta.

    VP - Quais foram os temas que mais gostou de aprofundar em "Conversas com... princípio, meio e fim"? E quais os mais difíceis e polémicos de tratar? Haverá algum que tenha especial importância para a resolução dos problemas gerais da actualidade?
    HM - São três questões! Os temas que mais gostei de aprofundar foram aqueles que antecipadamente sabia iam tocar os ouvintes, ajudar a encontrar respostas às perguntas que traziam dentro. Os mais polémicos, os que se prendiam com a sexualidade e com algumas questões teológicas delicadas. Destacar um, é difícil. Diria que, em bloco, contribuíram para aquilo a que S. Pedro aconselhou: "Estai sempre dispostos a dar as razões da vossa fé". E dá-las sem medos nem tabus. Julgo que todos nós, membros da Igreja, deveríamos reivindicar uma Igreja mais transparente.

    VP - Quando pensa regressar e/ou recomeçar a colaboração na Rádio e de que forma espera fazê-lo?
    HM - O bichinho da Rádio vem de longe. Dizem-me que em criança, "curavam" as minhas birras com o simples facto de me porem um microfone à frente. Contudo, sei, ensino-o aos meus alunos da Escola das Artes da Universidade Católica, que para fazer Rádio não basta gostar muito ou ter uma voz que não arranhe os tímpanos dos ouvintes... Quanto ao futuro, tenho algumas ideias, mas não conhecemos a agenda de Deus...

    VP - Dado que gosta muito de jornalismo, voltar a um jornal ainda está dentro de hipótese? O que prefere: rádio ou jornal?
    HM - Não, não está fora de hipótese voltar a escrever para um jornal. Fiz televisão durante dois anos, escrevi com regularidade para a imprensa, designadamente para o "Diário de Notícias", durante igual período, mas, decididamente, onde me sinto em casa é na Rádio.

    Entrevista conduzida por
    André Rubim Rangel


    Henrique Manuel S. Pereira nasceu em Angola, em 1967. É licenciado em Teologia pela Universidade Católica, onde fez dois anos de Mestrado em Teologia Sistemática, e é doutorando em Literatura Portuguesa na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. É professor da Escola Superior de Educação de Paula Frassinetti; da Escola das Artes da Universidade Católica; investigador do Gabinete de Estudos do Pensamento Português (UCP- Porto) e jornalista.
    Foi director da revista Atrium, jornalista da TVI e do Diário de Notícias, locutor da Biblioteca Sonora (BPMP). Na Rádio Renascença realizou e apresentou vários programas e rubricas, tendo sido responsável pelos Momentos de Reflexão das quartas-feiras e sábados, e do programa Com princípio, meio e fim.
    Colaborou em obras colectivas, publicou artigos em revistas de âmbito científico-cultural e as seguintes obras:
    Mas há sinais - 2003; Nem quero crer - 2002 (Em parceria); Ausência que nos une - 1999; Conversas com... princípio, meio e fim. II - 1999 (Parceria); Rita de Jesus: Paixão pela infância de Jesus, compaixão pela dor humana - 1999; As barbas de Junqueiro - 1999; Os paraísos são interiores - 1997; Conversas com... princípio, meio e fim. I - 1999 (Parceria); De pé, como as árvores - 1995; Do microfone ao papel - 1993; Opus Dei: 1926-1937 - Índices - 1992; Ele sabe que somos assim - 1992; Sinfonia de um homem vivo! - 1990.