José Coutinho da Silva - Orléans França
A sociedade francesa agitou-se, desde o passado mês de Outubro, com um debate sobre a identidade nacional. Desejado e imposto pelo presidente Sarkozy e orquestrado por Eric Besson, ministro da « imigração, da integração, da identidade nacional e do desenvolvimento solidário», este debate surgiu em plena pré-campanha para as eleições regionais realizadas em Março. Um mini-conselho de ministros acabou por pôr termo a um autêntico fracasso, tantas e tais foram as críticas que desencadeou.
Para além de aparecer claramente marcado pela vontade de recolher dividendos políticos nas eleições municipais até aqui estas questões eram do domínio reservado da extrema-direita xenófoba e racista o debate levantou inúmeras reservas e críticas por constituir não só uma ameaça para o viver-em-comum já de si difícil, mas também a negação da realidade da França «mestiça», fruto de centenas de anos de mistura de homens e mulheres vindos dos quatro cantos do mundo com as suas histórias, religiões, línguas e culturas. O ministro Besson, antigo membro eminente do partido socialista e ex-conselheiro para os assuntos económicos de Segolène Royale, transferido com armas e bagagens para o círculo dos íntimos de Nicolas Sarkozy, não conseguiu, apesar do seu empenho combativo, ocultar que a pergunta lançada como tema do debate o que é ser Francês apenas abriu a caixa de Pandora sobre a exclusão de quem é diferente pela origem, pela cor da pele, pela religião. Tudo funciona como se a «identidade nacional» não fosse outra coisa que um museu em que os imigrantes e seus descendentes (até que patamar geracional?) devem obrigatoriamente entrar com a proibição de mexer no pó dos séculos ! As derrapagens de linguagem nos debates distritais e até nas declarações de alguns ministros um pouco incautos diante das câmaras demonstraram isso mesmo. Embora o ministro tenha afirmado que apenas um terço das intervenções se referiam ao islão e à imigração, um facto é inegável que nos traz tristes memórias : encontramo-nos novamente com o «quem não é por nós é contra nós» dos regimes totalitários.
Um dos chavões da extrema-direita, assumido sem complexos pela direita dita civilizada, é que «a França ou a amas ou vais-te embora!». Referem-se essencialmente aos jovens franceses de origem imigrante nomeadamente magrebinos que «assobiam o hino nacional» no início dos jogos de futebol da selecção ou que tomam parte activa nos distúrbios nos bairros das periferias pobres e abanadonadas deste país. Nunca se ouvem palavras de amor recíproco da nação que «incluam estas populações discriminadas» no tecido social, político, económico e cultural reconhecendo-as como parte integrante, dinâmica e activa do «fazer França». Raramente se ouve uma palavra de reconhecimento pelo papel desempenhado por estes milhões de imigrantes e de Franceses deles descendentes no «ser França». Até nas mensagens de Ano Novo dos órgãos de soberania são «proibidas» pelo politicamente correcto referências aos imigrantes
não vá a opinião pública lembrar-se que há imigrantes em França e indispor-se contra o poder político.
De notar, contudo, a publicação no próprio dia do encerramento do debate, de uma sondagem que revela que 30% dos franceses inquiridos reconheceram ter pelo menos um ascendente estrangeiro
ou seja, quase 19 milhões de franceses existem porque a imigração é uma realidade.
Em Portugal iniciaram-se as comemorações do centenário da nossa República. Ouviram-se já declarações no sentido de ser um bom momento para olharmos para a nossa identidade, para o que é ser português. Portugal não tem a mesma história imigratória da França. Damos os primeiros passos no entendimento do que é viver com « outros diferentes » num mesmo território e as manifestações de rejeição e até de discriminação começam também a sobrepôr-se aos nossos brandos costumes. Oxalá a reflexão possível sobre a nossa identidade não enverede pelos caminhos obscuros de que falámos acima.