[ Cultura ]



    Preferências & preferências

    C. F.


    1. Os comportamentos sociais e culturais são frequentemente contraditórios.
    Quantas vezes as opiniões não correspondem aos actos e os comportamentos se afastam das convicções!
    Isto pode dizer-se através da análise histórica recolhida em trabalhos do género das chamadas histórias de vida privada, em que frequentemente as práticas se afastam das doutrinas, legislações e convicções expressas em leis e normas. A Idade Média é disso um exemplo eloquente: à profunda religiosidade institucional e abundância de normas morais e comportamentais, frequentemente os comportamentos sociais respondiam com a transgressão, não apenas assumida, mas mesmo sacralizada. Bastará conhecer os transes dos romances de cavalaria, ou as narrativas dos livros de linhagem, e confrontá-los com as lendas de santos ou com os livros de exortação moral que abundavam, sobretudo em latim, mas também em língua portuguesa, para verificar que a prática social andava longe dos princípios das crenças e das normas.

    2. Somos peças de um mundo mediatizado. Peças movidas não se sabe por quem e mesmo os que as movem não sabem como as movem, ou movem-nas para além do que pensam ou projectam. Fazemos parte de um jogo de xadrez em que mãos de cegos movem pedras que colocam com intenção de vantagem própria em lugar errado. As cartas já nos são dadas de forma viciada, e temos que jogar aquelas e não outras.
    Quem manda na comunicação social? Quem fabrica ou determina os gostos? Quem os analisa fez alguma coisa por eles? O que é o gosto maioritário? Será que a qualidade do produto cultural se mede pelo seu consumo? Será que uma proposta aceite pela maioria hoje não será rejeitada pela maioria (a mesma ou outra) amanhã?
    Estas interrogações têm que pôr-se a propósito do maior fenómeno de nosso tempo, que é o mundo da imagem e do som, ou, como agora se tende a dizer, o universo do multimédia.
    Quem lê quotidianamente as medições de audiências dos programas de televisão, pode retirar conclusões interessantes: que os programas mais vistos são os da informação diária (o que levou a televisões a inserir noticiários quilométricos e chatos, a criar expectativas pelo processo da promessa do género "veja já a seguir o caso da criança que caiu ao poço e foi salva pelo cão"); que lhes seguem as pisadas as transmissões de futebol (o que leva à criação de estranhos folhetins que antecedem ou se seguem aos jogos mais relevantes e a curiosas entrevistas filosóficas sobre as inimizades e ataques mútuos - e disto é que o povo gosta, da mesma forma que quando há um acidente se faz logo um comício para decidir quem teve culpa, em que intervêm sobretudo aqueles que não viram); que as chamadas novelas da vida real (eles dizem isto sempre com nomes estrangeiros...) e as conversas entre amigos ou amigas transformadas em espectáculo (ditas também por nomes e modelos copiados das televisões americanas ou inglesas) conseguem um êxito momentâneo e logo esquecem e toda a gente passa a dizer mal disso; que os filmes de interesse, as peças de teatro, a música erudita, a ópera, os programas culturais em geral são relegados para horas mortas (seja de dia ou de noite, porque as horas televisivas também morrem de dia) para criar a ideia de que ninguém os quer ver.

    3. Vêm estas considerações a propósito de um estudo publicado no último número da revista Proteste da Deco, resultante de um inquérito que produziu cerca de duas mil respostas validadas. O que é interessante é o confronto entre as opiniões aí expressas e as medições das audiências quotidianas. Nas audiências verificamos uma preferência generalizada pelos dois canais privados: SIC e TVI, que disputam entre si a preferência, sendo que a RTP1 se tem vindo a aproximar dos dois e o canal 2 tem uma audiência vizinha dos 5%.
    Na apreciação valorativa do estudo apresentado, verifica-se que a RTP é considerado o melhor canal em 5 items ou categorias de avaliação (Notícias, meteorologia, concursos, eventos desportivos e música) a TVI em 3 (filmes, telenovelas e espectáculos da vida real) e a SIC apenas em 1 (espectáculos de conversa). Por sua vez o canal 2 é o melhor em 4 items (música, séries, documentários/reportagens e programas culturais).
    Em contrapartida, a TVI é considerada o pior canal em 8 items (notícias, meteorologia, documentários/reportagens, conversas-espectáculo, concursos, eventos desportivos, música e programas culturais); a SIC é o pior em 2 (séries e espectáculos da vida real) e a RTP1 apenas em um (telenovelas). Acresce ainda que os inquiridos consideram a TVI é quem mais abusa da publicidade (66%), seguida da SIC (29%) e da RTP1 (5%).

    4. Algumas conclusões se podem tirar deste confronto em campos diferentes e com a validade que cada um tem (a audiometria baseia-se em números rigorosos tomados a partir de escolhas aleatórias e a apreciação da Deco baseia-se em números de origem aleatória traduzindo juízos emitidos por pessoas que tomaram a iniciativa de responder).
    A primeira conclusão pode ser: as pessoas vêem menos aquilo que consideram possuidor de maior valor (isto é, preferem o aluno de 12 ao aluno de 18 valores). O caso mais flagrante é o do canal 2, avaliado positivamente em programas de carácter cultural, mas visto apenas por 5% da população.
    Na esteira desta verificação, segue-se o comentário inicial: o gosto de ver ou de usufruir não é homólogo do sentido da avaliação, do apreço e da valoração.
    Daqui se segue a nossa tendência para não valorar o objecto da nossa curiosidade, nem somos curiosos pelos valores que defendemos. Defendemos valores, mas seguimos a sua transgressão. Estamos perto da afirmação paulina: "do que sei que é bem me afasto, e o que sei que é mau, isso é que sigo".
    O mesmo é dizer: que possuímos sentido crítico mas nos falece sentido comportamental.

    5. Quanta importância tudo isto possa ter para os conceitos e práticas sociais e culturais nasce de outro dado conhecido de outros estudos e também referenciado neste: que a televisão é o principal produto de consumo mediático dos portugueses: poucos livros, poucos jornais, alguma rádio, muita televisão. E grande avalanche de música ruidosa pelo meio, de preferência anglo-americana. (É outro dado curioso: salvo raras excepções, os discos mais vendidos em Portugal são sempre de música estrangeira: é uma sina nossa).