Caminhando no nosso espaço nacional, desconhecemos no concreto tantas iniciativas que nos revelam a nossa criatividade intelectual e civilizacional junto e em conjunto com outros povos. É por isso que partilhamos com os leitores uma iniciativa liderada por portugueses num dos países do coração da Europa, a Suiça.
Ernesto Ricou *
1. Dez anos de actividade para o Centro Intercultural Atelier Casamundo na cidade de Lausana na Suiça. Cinco anos para o Museu da emigração igualmente activo na mesma cidade.
Duas instituições fundadas, por mim mesmo com objectivo de melhorar o diálogo intracomunitário neste país (a Suiça) em transformação social intensa, desde há vinte anos atrás.
Através da organização (a um ritmo regular) de eventos, sociais, culturais, humanitários, com o auxilio de uma equipa de benévolos, oriundos das mais diversas nacionalidades, temos colaborado para a valorização cultural. Os nossos sucessivos acontecimentos públicos têm alcançado grande sucesso, e a atestá-lo estão vários prémios e distinções recebidos, nos últimos dez anos.
Conferências internacionais pontuaram a vida da CasaMundo e mais recentemente do museu. Doudou Diène procurador especial da ONU, para a xenofobia, a intolerância, racismo e direitos do homem, proferiu uma importante conferência nos nossos locais, e mais tarde citou a CasaMundo no relatório da ONU, como exemplo para a abordagem para estas questões. Por quatro vezes o grande patrão (chefe de serviço) da ONU para as questões dos refugiados, Hans Lunshof (Holanda), proferiu importantes conferências que reuniram uma importante audiência de autoridades locais e de público. O dia Internacional da mulher, e o dia dos Direitos da Criança são anualmente festejados. Sendo o dia de Natal o mais concorrido evento do ano.
2. O museu da emigração está instalado em locais modestíssimos. Do meu bolso pago o aluguer mensal. Ao todo são 30 metros quadrados de ''humanidade''. Todos os departamentos de um grande museu encontram o seu espaço no nosso pequeno espaço museológico (serviços de conservação e restauro, educativos, visitas guiadas, animação, etc.). Estamos estreitamente ligados às escolas locais. Trabalhando essencialmente no campo do reforço da identidade, do desenraizamento, enraizamento e da estima pessoal. Respeitamos o conhecimento das riquezas de cada cultura, harmonia intercomunitária e reconhecimento pelo país que nos acolheu: a Suiça!
Reconhecido mundialmente pelo ICOM (Concelho internacional dos Museus) no passado mês de Fevereiro, recebemos em Dublin um prémio de consolação em presença de sua Majestade a Rainha Fabiola em finais de 2008. Esta importante distinção é patrocinada pelo Conselho da Europa através do Forum Europeu dos Museus. Além dos ciclos de conferências, encontros, nacionais e internacionais, exposições temáticas, o museu mostra em permanência malas de emigrantes contendo objectos pessoais de valor simbólico.
Da exposição permanente também fazem parte documentos, desenhos, pinturas, livros, fotografias, realizados por alunos da escola pública secundária de Béthusy. Os mesmos tratam do romance ''A beleza sobre a terra'', do escritor suíço C.F. Ramuz.
3. O escritor aborda o tema da intolerância e do racismo contando a história de uma jovem mestiça que veio viver numa povoação rural da Suiça há 70 anos.
A actividade educativa é igualmente intensa na CasaMundo. No plano local prestamos serviços gratuitos de auxílio pedagógico a alunos em dificuldade escolar. Auxiliamos outros na preparação de portfólios para entrada nas escolas de formação artística de nível intermédio ou universitário.
No plano internaciona,l auxiliamos escolas em Sergipe (Brazil), Ouarzazate (Marocos) e Quinshaça (Congo). Neste último país ajudamos em regime de partenariado, à fundação da escola Lusala para 60 meninos de rua. Igualmente em partenariado, ajudamos à criação de 23 bibliotecas supervisadas pelas comunidades religiosas locais. Como prémio, os nossos amigos africanos, com o assentimento das autoridades, decidiram dar o meu nome à maior destas bibliotecas. A escola de dança Indiana da CasaMundo completou em 2010 dez anos de uma deslumbrante actividade, ao serviço de numerosas organizações humanitárias. Para terminar, acrescento ainda a grande actividade interreligiosa, que tem vindo a desenvolver de forma natural as relações amistosas entre os nossos utentes. A Universidade de Lausanne recompensou assim os nossos esforços, com um prémio dado pela Fundação Etica Planetaria (Hans Kung), e dois outros pela fundação Jean Monet para a Europa.
* Ernesto Ricou é professor de artes visuais e fundador do Centro Intercultural Atelier Casamundo, que completa 10 anos de actividade.