A politização do futebol, ou a futebilização da política
Nos últimos tempos, temos assistido a vários acontecimentos que parecem comprometer a democracia portuguesa e as suas instituições. Refiro-me à profunda "promiscuidade" entre a política e o futebol, ou vice-versa. Quando se fala do regime anterior ao 25 de Abril de 1974, muitos referem-se a ele, como o regime que se apoiava na política dos três "F" - Fátima, fado e futebol, ou seja aquilo que congregava e mexia com as massas populares, com a nação em geral.
Trinta anos passaram sobre a Revolução dos Cravos, muito se evoluiu, mas na relação entre a política e o futebol, poucos, ou nenhuns mexeram, pois é um negócio de milhões, fere interesses instalados e dá visibilidade na praça pública.
Enquanto que o Estado Novo pretendia politizar o futebol, para enaltecer os valores pátrios e o amor à camisola nacional, a 3.ª República Portuguesa (a saída do 25 de Abril) parece promover e apoiar a "futebolização da política". Vemos casos de grandes nomes da política, que primeiro passaram pelas lides futebolísticas, para alcançarem notariedade ganhando poder e lugares cimeiros nos partidos e nos cargos públicos. Assistimos a clubes de futebol (na pessoa dos seus dirigentes) a apoiarem descaradamente partidos em campanha eleitoral, manifestando publicamente o apoio do clube às forças partidárias. Deparamo-nos com clubes subsidiados a fundo perdido por governos regionais e pelas autarquias locais. Constroiem-se estádios, com dinheiro do erário público, em alguns municípios, colocando-lhe nomes dos edis. Na Assembleia da República o vocabulário usado chega a ser a gíria desportiva. Os grandes placardes da pré-campanha eleitoral das Europeias estão cheios de cartões amarelos, vermelhos, e mensagens do mundo do futebol (este já foi substituído).
Por estas e por muitas outras razões, devido ao tráfico de influências e de interesses, que parecem começar a vir à luz do dia, a 3.ª República está no estado em que está - "quem tiver olhos para ver que veja...".
A Monarquia Constitucional portuguesa e a 1.ª República, marcadas por um forte jacobinismo, lutaram pela separação de poderes e da Igreja em relação ao Estado. Penso que a grande luta, desta 3.ª República será lutar pela separação do Mundo do Futebol em relação à Política. Sejam aprovadas incompatibilidades de forma a que aqueles que exercem cargos públicos, funções onde não devem ter, depois de eleitos, nem cor política nem serem de esquerda, do centro ou da direita, mas só e apenas servidores do bem comum da sociedade portuguesa. Dai a César o que é de César, dai a Deus o que é de Deus...
Sérgio Carvalho