A Paz que tarda em chegar
O primeiro dia de cada ano é dedicado a reflectir e orar pela paz. Há já várias décadas que o Santo Padre oferece uma mensagem para ajudar à reflexão sobre as realidades que podem condicionar ou construir a paz. O tema para este ano situa-se na perseveração da natureza e relaciona-se com a temática desenvolvida por Sua Santidade Bento XVI na sua última encíclica «Caritas in Veritate». Está, no pensamento do Papa, intimamente ligado com o desenvolvimento humano integral e com a relação do homem com o seu ambiente natural.
A paz é uma interpelação comum a todo o ser humano. O Concílio Vaticano II coloca-a entre os problemas mais urgentes do nosso tempo (GS, cap. V). Propõe-se explicar «a verdadeira e nobilíssima natureza da paz, e uma vez condenada a desumanidade da guerra, quer apelar ardentemente para que os cristãos, com a ajuda de Cristo, autor da paz, colaborem com todos os homens no estabelecimento da paz na justiça e no amor e na preparação dos instrumentos da mesma paz» (GS, 77).
Por isso, no diálogo que os cristãos são chamados a estabelecer com os homens de boa vontade, também eles interessados em encontrar os instrumentos para alcançar a verdadeira paz, devem propor com seriedade o que a doutrina evangélica e o pensamento da Igreja oferece para a cultura da paz. Insiste, então o concilio, dizendo que «todos os cristãos são insistentemente chamados a que praticando a verdade na caridade, se unam com os homens verdadeiramente pacíficos para implorarem e edificarem a paz» (GS, 78).
Para o cristão, a paz sendo uma tarefa a exigir o esforço humano, ela é, antes de mais, um dom divino a implorar. No dizer do concílio, «é um fruto da ordem que o divino Criador estabeleceu para a sociedade humana, e que deve ser realizada pelos homens, sempre anelantes por mais perfeita justiça» (GS, 78). E, ainda, «o bem comum do género humano é regido, primária e fundamentalmente, pela lei eterna» (GS, 78). Mas também reconhece que, dadas as constantes mudanças nas exigências concretas, com o decorrer do tempo, se exige a edificação constante da paz. Deve-se assegurar o bem das pessoas e que «os homens partilhem entre si e confiadamente as riquezas do seu espírito criador» (GS, 78). Para a edificação da paz, são, ainda, absolutamente necessárias «a vontade firme de respeitar a dignidade dos outros homens e povos e a prática assídua da fraternidade» (GS, 78). A paz é, assim, conclui o concílio, «também fruto do amor, o qual vai além do que a justiça consegue alcançar» (GS, 78).
É neste contexto que foco algumas das relevantes advertências do Santo Padre, Bento XVI, na mensagem para este ano. A primeira reza assim: «a humanidade tem necessidade de uma profunda renovação cultural; precisa de redescobrir aqueles valores que constituem o alicerce firme sobre o qual se pode construir um futuro melhor para todos» (nº 5). Projectando os verdadeiros significados das crises por que passa a sociedade global, adverte que «elas obrigam a projectar de novo a estrada comum dos homens». E, impõem a sobriedade e a solidariedade como marca de novos estilos de vida. Daqui, o desejo expresso pelo Papa, «de que se adopte um modelo de desenvolvimento fundado na centralidade do ser humano, na promoção e na partilha do bem comum, na responsabilidade, na consciência da necessidade de mudar os estilos de vida e na prudência, virtude que indica as acções que se devem realizar hoje na previsão do que poderá suceder amanhã» (nº 9).
Há uma relação entre a ecologia humana e a ecologia ambiental. Por isso, sublinha Bento XVI, que «a degradação da natureza está intimamente ligada à cultura que molda a convivência humana, pelo que quando a ecologia humana é respeitada dentro da sociedade, beneficia também a ecologia ambiental» (nº 12). E, reproduz o que já tinha afirmado na encíclica «Caritas in Veritate» acerca da ecologia humana. Esta diz respeito à «inviolabilidade da vida humana em todas as suas fases e condições, a dignidade das pessoas e a missão insubstituível da família, onde se educa para o amor ao próximo e o respeito da natureza» (nº 12). O património humano na sociedade, que é necessário preservar, inclui valores, cuja origem está inscrita na lei moral natural, que é o fundamento do respeito da pessoa humana e da criação (cfr. nº 12).
Mas o Santo Padre adverte para visões deturpadas, a que chama de ecocentrismo e biocentrismo, que eliminam a diferença ontológica e axiológica entre as pessoas humanas e outros seres vivos, e apresenta como visão correcta aquela que impede de absolutizar a natureza ou de a considerar mais importante do que a pessoa (cfr.nº 13).
Termina afirmando que «a busca da paz por parte de todos os homens de boa vontade será, sem dúvida alguma, facilitada pelo reconhecimento comum da relação indivisível que existe entre Deus, os seres humanos e a criação inteira» (nº 14).
Apela, então, aos cristãos para que, iluminados pela revelação divina e seguindo a tradição da Igreja, considerem o cosmos e as suas maravilhas à luz da obra criadora de Deus e da redenção operada por Cristo. Realça, como imperativo, que proteger o ambiente natural para construir um mundo de paz é dever de todas as pessoas.
O concilio, recordando a mensagem evangélica das Bem aventuranças e reconhecendo que está em sintonia com as aspirações humanas, realça o verdadeiro esplendor de todos aqueles que são proclamados «felizes os construtores da paz porque são chamados filhos de Deus» (GS, 77).
+ João Lavrador *
* Bispo Auxiliar do Porto