[ Especial ]



    A mestra senhora Ernestina

    Ferreira de Brito


    Eu gostaria imenso, depois de ter estudado, com pouca profundidade, os principais mistérios da Fé, ir de novo menino, entre o ingénuo e o malicioso, às lições dogmáticas e «infalíveis» em matéria de fé da minha velha catequista senhora Ernestina, que Deus tenha na sua glória! A sua pedagogia era primária, baseando-se estruturalmente na exercitação da memória, tendo como instrumentos adjuvantes da memorização doutrinal forçada uma palmatória, uma roca e uma longa cana da Índia, suficientemente comprida para chegar a todas as cabeças, sobretudo às mais crassas e indisciplinadas.
    Os conteúdos teóricos não a preocupavam. Ficavam para os Teólogos de formação aquiniana e pascaliana. Ora eu preferiria ter, agora, a fé de um camponês ou de um carvoeiro, que me dispensasse de metafísicas sombrias e nós cegos existenciais apertados na garganta, em horas de depressão e angústia, que se multiplicam com a idade e me abatem moralmente, retirando-me o prazer de partilhar com abundância e regularidade o divino banquete sempre apetecível que é a vida, que nos escorrega das mãos como enguia lodosa. Por isso, invoco a fé sem mácula da Senhora Ernestina.
    Sem me deixar escorregar para irracionalismos fáceis, piegas e paralisantes, que seriam intelectualmente ridículos; não aos olhos de Deus, que vê ao perto e à distância, mas aos olhos dos homens, míopes de nascença ou estrábicos por degenerescência, que não têm de coincidir em absoluto no modo de ser e de estar neste mundo.
    Mas a senhora Ernestina é que tinha razão. É que Pessoas da Santíssima Trindade eram tês e não se poderiam desdobrar. Todo o trino é perfeito.