C. F.
Nos últimos dias noticiou-se a inauguração de um novo centro comercial lá para a margens do Tejo, na zona do Montijo. O facto, além da novidade comercial e da existência de um novo serviço para as populações, que é sempre de saudar, tem mais três aspectos dignos de nota: o de ser esteticamente bonito (certamente mais nas imagens que na realidade), o de ser mais uma catedral do consumo e o de chamar-se Forum.
Sobre a subtil visão e a profundíssima questão das catedrais do consumo está quase tudo dito. Só acrescentaria a repetida sensação que se tem ao chegar de noite ao Porto e observar as torres dos centros comerciais que a rodeiam do lado sul: salientes no meio da paisagem, quando vistas de certos ângulos, sobressaem mais iluminadamente que qualquer dos ilustres e históricos monumentos da cidade. Ali estão como novas torres sineiras a anunciar ao orbe que a nova catedral é ali, na profusão feérica das suas luzes de néon.
Sobre a mais prosaica ou linguística questão de o centro se chamar Fórum parece já haver mais referências a fazer.
A primeira é felicitar os proprietários por terem escolhido a designação Fórum, em vez da pretensiosa, estrangeirada e estúpida de Shopping, palavra bárbara que nunca pode entrar, nem que queira ou que outros queiram, na língua portuguesa, tal é o seu carácter espúrio e desengonçado na nossa estrutura linguística.
Depois vem a verificação: os promotores do empreendimento são consórcios estrangeiros. Surge então a lógica irrefutável: como os investidores são estrangeiros deram-lhe um nome da tradição clássica, latina e portuguesa: chamaram-lhe Fórum, com toda aquela carga de força tradicional e romana do direito e dos costumes ancestrais; os promotores portugueses, na sua provinciana anglofilia decadente, ter-lhe-iam seguramente chamado Shopping-qualquer-coisa ou qualquer-coisa-Shopping.
É a diferença que vai entre um espírito comercial culto, inculturado no povo e nas regiões, digno e respeitador das tradições culturais (de que a língua é uma componente essencial); e o espírito provinciano, decadente e exibicionista, reflectido na mania instaurada de encher tudo de shoppings.
Saúde-se também a preocupação de construir segundo uma arquitectura que segue os modelos das casas tradicionais da localidade, as suas formas e as suas cores. Claro que também isso foi feito por um arquitecto estrangeiro, que se dedicou a viajar pelas aldeias e quintas das proximidades para aí procurar ideias inspiradoras. Um arquitecto português teria ido a uma cidade americana desinspirar-se para fazer mais um caixote de fabrico em série.